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Nova edição do Ideias Feitas com Alberto Gonçalves. E hoje voltamos, Alberto, à Covid-19. Queres falar aqui nas consequências das políticas que são tomadas pelo governo, a pretexto, precisamente, da pandemia. Boa tarde.

Olá, boa tarde, Vanessa. Não exatamente, não exclusivamente tomadas pelo nosso governo, mas também, ou pelo menos, adotadas pelo nosso governo e legitimadas pelo nosso governo. Mas vamos por partes. Eu lembro-me de que no primeiro confinamento, por março, abril de 2020, dei um longo passeio a pé com um amigo de infância, e ele estava fascinado com o lado estético da paisagem urbana, digamos, que não se via ninguém, não se via um automóvel, não se via uma pessoa na rua. Foi naquele período em que era proibido sair de casa, a não ser para passear o cão ou deslocarmo-nos ao supermercado. Portanto, as ruas estavam absolutamente desertas e eu confesso, eu admito que concedi na altura que também percebia, entre aspas, a piada da coisa, aquilo tinha um certo lado estético peculiar e notável, pelo menos. Mas também me lembro de lembrar esse meu amigo que aquilo ia ter consequências, que era impossível olharmos para aquilo e não haver uma fatura, um preço, um custo a pagar um dia. Era evidente que isso ia acontecer. E está a acontecer agora. É evidente que está a acontecer agora. Nós podemos culpar o senhor Putin por muita coisa, podemos falar na guerra, podemos falar em muitas coisas. É evidente que o que está a acontecer agora em matéria de inflação, de aumento do custo de vida, de perda de poder de compra, não é culpa do senhor Putin. Isso não ajuda, com certeza, mas o contributo do senhor Putin e da invasão da Ucrânia vai-se refletir, com certeza, mais tarde, na maioria das questões. O que estamos a viver agora é em boa parte o facto de os governos ocidentais, pelo menos, na zona europeia e também nos Estados Unidos, terem decidido desatar a imprimir dinheiro para pagar o fato de as pessoas estarem em casa sem trabalhar. Foi a primeira vez na história, que se saiba, ou pelo menos na história contemporânea e até moderna, que uma série de sociedades, um conjunto vastíssimo de sociedades, resolveu colocar as suas economias em colapso deliberadamente, com medo de uma pandemia. E na altura justificava-se isto com a ideia de salvar vidas, porque para salvar a economia não se pode comprometer vida nenhuma. Quem dizia isto ou é irresponsável ou é mentiroso, porque é evidente que a economia não é uma coisa abstrata. Não estamos a falar de economia enquanto ciência, estamos a falar de economia enquanto possibilidade das pessoas estabelecerem trocas comerciais e sobreviverem, e ganharem o sustento do dia a dia. E isso está-se a refletir agora. A inflação está a caminhar para pontos absolutamente insustentáveis, já está, mas vai piorar, com certeza. Isso reflete-se em absolutamente tudo. Ao que parece, diz quem sabe muito mais do que eu destas coisas, a inflação já estava, mesmo sem ter havido Covid e as políticas a pretexto da Covid, a inflação iria naturalmente acontecer, provavelmente não a esta escala, iria acontecer a uma certa escala, com uma política deliberada de fecho das economias, que era um fecho que ia durar aquelas famosas duas ou três semanas, que depois se repetiram muitas ou demasiadas vezes. É evidente que isso não podia passar impune e as pessoas que ficaram muito contentes por, como se diz, serem pagas para estar em casa a ver a Netflix, às vezes, muitas dessas pessoas parece que não tinham, e se calhar ainda algumas continuam a não ter noção das consequências que isso iria ter. Era impossível que isso não tivesse consequências. E depois dessa conversa com o meu amigo, lembro-me de repetir isso várias vezes aqui na Rádio Observador, no site do Observador também, em crónicas escritas. Era impossível que, para além de muitas outras consequências, em termos até das questões hospitalares e tudo isso, de doenças não diagnosticadas ou não tratadas, para além disso tudo, as consequências económicas. E hoje em dia, essas consequências económicas e a culpa das políticas a pretexto da Covid nesta vida que estamos a viver hoje, neste novo paradigma muito infeliz e muito desgraçado que estamos a viver hoje, a influência de uma coisa na outra não está a ser reconhecida e não vai ser reconhecida, não vai ser assumida. O doutor Costa esteve no Parlamento, podia ser hoje no Parlamento, podia ser ontem numa televisão, pode ser amanhã noutro sítio qualquer e com certeza nunca vai assumir que as políticas, nem ele nem nenhum líder mundial desta plêiade infeliz de líderes que temos atualmente. Sinceramente, não sou crente, mas valha-nos Deus. Temos um conjunto de personagens a mandar no Ocidente, nos países ocidentais, que era difícil imaginar pior. E nenhuma dessas pessoas, o doutor Costa é apenas um deles, e é apenas o que nos afeta, é capaz de reconhecer, ou vai algum dia ser capaz de reconhecer a culpa que as políticas a pretexto da Covid tiveram no empobrecimento que as pessoas estão a começar agora a experimentar. Não obstante as pessoas se revoltarem e reclamarem e não gostarem, obviamente, de experimentar esse empobrecimento, alguns países conseguem minimamente lidar com ele, porque são países em que o rendimento médio, comparativamente com o nosso, é muito alto, ou pelo menos mais alto que o nosso, bastante mais alto, nalguns casos muitíssimo mais alto que o nosso, e, portanto, as pessoas conseguem lidar com isso. No nosso caso, e é o nosso caso que sinceramente mais me importa, porque é aquele que nós vivemos, que sentimos no dia a dia Um país que mesmo sem políticas nenhumas de Covid, mesmo sem a inflação, o português médio tem dificuldades na vida quotidiana em fazer o seu salário chegar ao fim do mês, mesmo sem a Covid, sem essas coisas todas. No nosso caso, com essas políticas, com estas medidas suicidas que se tomaram, é evidente que o que nós estamos a sofrer e o que vamos ainda passar a sofrer vai ser muito pior. Não consigo sequer imaginar, por muito que eu fosse pessimista quando comecei a notar o fecho dos estabelecimentos, o fecho das fábricas, da produção e o colapso do sistema de distribuição internacional, quando comecei a pensar nas consequências que isso podia ter, se calhar eu próprio não pensei na dimensão dessas consequências. Ainda agora não consigo ter uma noção de até onde isto poderá chegar. Agora, que vai chegar a um lugar muito mau para todos nós ou para quase todos nós, porque há sempre quem esteja mais ou menos protegido destas turbulências, isso é inegável e não vale a pena acreditar. Quem quiser acreditar, acredite, mas muita gente continua na ilusão de que aquelas coisas que o doutor Costa, à semelhança de outros líderes de outros países, faz, aquela conversa fiada, que significa alguma coisa. Não significa. O grau de veracidade ou de plausibilidade ou de razoabilidade das explicações dele para a crise atual tem o mesmo valor que as explicações dele para a crise, por exemplo, do Serviço Nacional de Saúde ou de outra coisa qualquer, ou seja, nenhuma. É conversa, que ilude muita gente, pelos vistos. Chega e sobra para iludir número suficiente de pessoas para manter o doutor António Costa no poder e, no caso, até com maioria absoluta. Portanto, nesse aspecto, ele não tem problemas. Agora, convém que as pessoas que não estejam dispostas a cair nestas ilusões, convém que essas pessoas não se iludam e que pensem, que reconheçam que houve uma culpa, um peso muito grande, não será absolutamente único ou exclusivo, mas é um peso muito grande das políticas de confinamento, daquelas coisas todas, na situação que estamos a viver agora e na situação que vamos viver agravadamente a partir de agora. As coisas não funcionam de forma estanque. O mundo está ligado, a realidade é uma teia de causas que têm efeito. E esta causa, necessariamente, e que foi uma causa assumida, deliberada, tem efeitos. Só para terminar, Vanessa, se tiver só um minuto, não sei se tenho.

Sim.

Tenho. Só queria lembrar uma coisa que parece que não tem muito a ver com isto, mas acaba por ter. Eu na altura não falei, isto foi há coisa de um mês. Os especialistas do Infarmed, nomeados pelo doutor Costa para reproduzirem, mais ou menos, ou para dizerem e produzirem o tipo de informação que o doutor Costa gostaria de ouvir a pretexto da Covid ao longo destes dois anos e meio, lançaram em maio último, um livro chamado "Covid-19 em Portugal: a estratégia". É um livro em que eles mostram como Portugal foi um caso exemplar em matéria de combate à Covid. Ora, Portugal hoje acho que é o país do mundo ou o segundo país do mundo com mais casos de Covid por milhão de habitantes. E no total da pandemia, Portugal é o terceiro país com alguma dimensão, fora principados e coisas assim, é o terceiro país com alguma dimensão em matéria de casos por milhão de habitantes. Portanto, se houve uma estratégia em Portugal, a estratégia foi um desastre absoluto no que toca à Covid. Isso até era o menos, porque provavelmente acabaremos por ser todos infetados várias vezes com esta história. Não vale a pena pensarmos muito nisso. Agora, a legitimação científica que estes senhores, que eram ouvidos no Infarmed, deram às políticas governamentais. Essa legitimação, não vou dizer que foi criminosa, mas foi, no mínimo, tal como as lideranças dos governos ocidentais, foi no mínimo irresponsável e permitiu legitimar, entre aspas, cientificamente, uma série de políticas que causaram o desastre económico que estamos a viver e que vamos viver de forma ainda mais grave a partir daqui. Portanto, só queria assinalar que a edição deste livro, não sei se terá havido um ser humano que não seja familiar dos cientistas em causa que tenha comprado sequer o livro, não acredito muito, mas este livro existe. Os autores lançaram-no publicamente e assumiram a sua autoria, naturalmente, e ao que parece, com orgulho. É um mundo às avessas em que vivemos e em que não há qualquer espécie de escrutínio a ninguém e, portanto, qualquer um pode fazer o que quiser e provocar danos a milhares e milhões de pessoas, direta ou indiretamente, sem ser confrontado com isso. É pena, mas é assim.

Temos aqui a Covid-19 a dar pano pra mangas, tanto em livros como também aqui nas tuas crônicas, Alberto Gonçalves. O "Ideias Feitas" fica disponível já daqui a pouco, como sempre, em podcast. O título é: "O custo de vida é o custo dos confinamentos". Até amanhã, Alberto.

Até amanhã, Vanessa.