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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo. Boa tarde.
E hoje quero te apresentar Ricardo Sá Pinto como um oásis de sensatez.
Parece que sim. Era um bocado improvável, mas é o que é. Ricardo Sá Pinto, eu acho que as pessoas sabem, é um ex-jogador de futebol, é atual treinador. Treinava uma equipa qualquer no Irão, não estou familiarizado com as equipas do Irão, e regressou a Portugal entretanto, depois do início do conflito lá no Irão. E fez ontem umas declarações a vários canais televisivos, mas uma delas, que foi aquela que eu vi com mais atenção, foi à RTP, onde criticou duramente a falta de liberdade no Irão. Ele disse que é inadmissível viverem-se com estes constrangimentos todos, com estas regras absurdas. Falou sobre a repressão violenta do regime e referiu que muito provavelmente o número de vítimas da repressão foi mais do dobro daqueles 25 mil ou 30 mil que tinham sido reportados. Lembrou que o regime mata sem dó nem piedade, que o povo iraniano acredita numa mudança inevitável e numa transformação profunda. E deu a entender, em suma, que a vastíssima maioria dos iranianos querem a queda do regime e, de alguma forma, apoiam este ataque dos Estados Unidos e de Israel. Isto foi o que Sá Pinto disse, ou seja, não disse nada de especial. Disse exatamente aquilo que se esperaria de uma pessoa normal, que foi testemunha direta de uma situação bastante menos normal, pelo menos segundo os nossos padrões, felizmente. E Sá Pinto apenas mostrou possuir bom senso e, no entanto, nunca vi um vídeo tão partilhado em Portugal, ou raras vezes terei visto, como aquele em que ele faz estas declarações. Ficou a ideia de que as pessoas que também têm bom senso estavam desejosas de finalmente ver alguém falar sobre a realidade iraniana sem as amarras do fanatismo ideológico e da pura desumanidade, e sem padecerem também de duas pandemias em curso: uma antiga, que é o antissemitismo, e outra muito mais recente, que é o famoso Trump Derangement Syndrome. Isto leva-nos aos comentadores que nas televisões divagam acerca da guerra no Irão. Eu faço uma ressalva inevitável para lembrar que até nas televisões portuguesas existem comentadores lúcidos. E infelizmente são poucos e são cada vez mais raros, já que as demonstrações de lucidez costumam implicar que ou não voltam a ser convidados ou passam a ser menos vezes convidados. Mas uns 90%, sei lá, um número que lancei aqui ao calhas, uns 90% dos sujeitos e das sujeitas que vão opinar nas televisões acerca do Irão exibem o mesmo grau de alucinação que costumam exibir acerca de qualquer assunto. Aqui simplesmente nota-se mais porque o assunto é mais grave e porque talvez sem se aperceberem, estão a defender apaixonadamente um regime que chacina o próprio povo. Há gente nos vários canais televisivos a engolir sem hesitação a propaganda do regime iraniano. Há gente a dizer que o mundo livre e democrático terminou no passado sábado, no momento em que os Estados Unidos e Israel começaram os bombardeamentos ao Irão. Há gente a garantir que os Estados Unidos e Israel são as maiores ameaças à paz no planeta. Há gente a invocar agora o direito internacional, após ter estado em silêncio durante os 47 anos em que o Irão violou abertamente esse direito. Há gente que aqui finge defender as mulheres e os homossexuais e a liberdade religiosa, a louvar os méritos de um regime que oprime brutalmente as mulheres, que mata os homossexuais, que proíbe a liberdade religiosa e qualquer liberdade. E há gente nas televisões capaz de defender o horror absoluto que o regime dos aiatolás representa, só porque são duas democracias ocidentais que estão a atacar e a tentar derrubar esse regime. Há muita gente nas nossas televisões a torcer francamente para que o horror da República Islâmica resista aos aggressores e os iranianos continuem a ser oprimidos. E face a semelhante quadro, que na verdade é um quadro clínico, é natural que o espectador médio veja nas palavras de Sá Pinto uma bênção, uma espécie de alívio. Afinal, não está tudo maluco. As televisões é que fazem questão de escolher malucos para os seus espaços de comentário. E ao dizer malucos, eu juro, Ricardo, que estou a ser simpático, estou a ser educado.
Ok. Sim, quem entrar agora na rádio pode achar que não estás.
Não, o "Ideias Feitas" tem limites.
Exato. Espero que não. Não há limites para o "Ideias Feitas".
São os meus, da minha contenção.
Exatamente.
E da minha elevadíssima formação.
Um abraço, Alberto. Até amanhã.
Um abraço, Ricardo. Até amanhã.