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Este é o som do Bom, Mau e o Vilão da Rádio Observador. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.

Bom dia.

Bom dia, Miguel. Quem é o teu bom de hoje?

O bom é o comandante nacional da Proteção Civil, porque como se lembram as pessoas que nos ouviram ontem, Mário Silvestre esteve fora do país numa viagem de formação e isso aconteceu no pior momento desta tragédia das tempestades. E quando foi questionada sobre isto, a Proteção Civil respondeu que não havia problema nenhum, porque o comandante tinha sido substituído pelo segundo comandante nacional e pelos cinco adjuntos nacionais. E eu ontem lamentei que a Proteção Civil nos tomasse por tontos e não assumisse apenas que se fizesse ideia do que aí vinha, a viagem não teria acontecido. Pois bem, ontem o comandante nacional disse isso mesmo. Afirmou que a 25 de janeiro houve um briefing com o IPMA e nada indicava a aproximação da tempestade, pelo menos naqueles termos, e admitiu, vou citá-lo: "Se soubesse, é óbvio que não ia sair do país." E pronto, cá está, não custa nada. Não custa nada reconhecer uma coisa que é evidente. Não custa nada dizer: "Pois é, se eu soubesse, não tinha ido." Pronto.

Como é óbvio, o próprio disse.

Como é óbvio, não teria ido. E portanto, aconteceu, não devia ter acontecido e não se repetirá, e vamos lá trabalhar. Está certo. Depois disse uns disparates a seguir, mas enfim.

Tinha tudo corrido bem, apesar disso. Claro.

Mas agora não estou concentrado nisto. Só estou concentrado na necessidade de as pessoas com responsabilidade não fazerem de conta, porque isso, por si só, provoca uma irritação profunda nas pessoas que são afetadas por tragédias como esta.

Miguel, vamos ao teu mau, que tem dificuldades em escrever.

É, o governo andou a tropeçar nas próprias palavras com o anúncio de apoios financeiros da Segurança Social a famílias em situação de carência ou de perda de rendimentos por causa da tempestade. Foi anunciado no Conselho de Ministros de domingo que esses apoios chegarão aos € 537 individualmente ou, se se tratar de um agregado familiar, aos € 1075. E foi dito também que esse dinheiro poderia ser recebido mensalmente ao longo de um ano ou, vou citar, numa única prestação. Ora, o Ministério da Segurança Social explicou que, de facto, o valor total era de € 1075 num ano, o que quer dizer, o Observador foi fazer essa conta muito complicada e concluiu que se fosse recebido mensalmente, ficaria em € 90 por mês. E pouco depois de o Observador publicar isto, o gabinete do Primeiro-Ministro veio dizer que afinal não era assim. Apesar do que estava escrito e apesar do que tinha dito o ministério, o espírito do legislador, há um espírito a pairar sobre isto tudo, o espírito era o de que o apoio não seria de € 1075 num ano, mas de € 1075 por mês até ao máximo de um ano. E que já agora, não poderia ser recebido o valor de um ano todo de uma vez. Quando eles falavam numa única prestação, falavam dos € 1075. Enfim. Eu sei que está muita coisa a acontecer, eu percebo. Mas apesar disso, convinha que os juristas do governo aprendessem a escrever. Isto não basta estar em espírito, as coisas têm que estar escritas direitinhas. Portanto, aprendessem a escrever e talvez fosse bom, igualmente, que o gabinete de Luís Montenegro se entendesse com os ministérios antes de anunciar decisões. Porque eu imagino, coitados, num ministério que depois vai aplicar esta decisão, eles sabem ler, mas do lado do gabinete do Primeiro-Ministro, não sabem escrever. E, portanto, depois o espírito legislador aperta-se aqui no meio.

Há uma boa solução para isso, é começar a publicar no Diário da República o espírito da lei e não a letra da lei.

Olha, por acaso, como é que se chama aquele ouija board, não sei como é que isso se diz. Quando é preciso comunicar com os espíritos, aquela coisa que há uma força que nos leva a escrever uma palavra, eu acho que pode ser uma boa maneira.

Aí ficas tu cedo, claro.

É isso.

Só falta o teu vilão, que é a Iniciativa Liberal.

Eu fiquei suspendidíssimo. Então não é que depois de dias e dias de proclamações de virtude, depois de dias e dias de omissões deliberadas, depois de dias e dias de ataques a jornalistas, mas ao Observador, em especial, por ter escrito que a IL conhecia há dois anos acusações de assédio de Inês Bichão. Depois desses dias e dias, ontem, já passada convenientemente, claro, a campanha eleitoral pra primeira volta das presidenciais, e quando o partido já está fora dessa corrida, ontem a Iniciativa Liberal veio finalmente admitir que sim, havia registro de duas queixas de assédio sexual no partido e que uma delas era mesmo, vejam lá, de Inês Bichão Apesar de o partido afirmar que essas queixas não eram sobre João Cotrim de Figueiredo. Durante a campanha eleitoral pra primeira volta das presidenciais, inúmeros dirigentes e ex-dirigentes do partido fizeram proclamações sobre o caso Inês Bichão e trataram-na como se fosse alguém que se tivesse lembrado apenas naquela altura de falar sobre assédio na IL. "Quem é esta pessoa que agora de repente aparece aqui a falar de assédio?" Chegaram a insinuar que haveria motivações políticas pra isso, mas todos eles se esqueceram sempre de referir que sabiam que Inês Bichão tinha denunciado o tema há dois anos. Tinha falado sobre assédio há dois anos. Aliás, quando a polêmica foi noticiada durante a campanha, o Observador fez formalmente a seguinte pergunta à IL. Vou citar: "Houve alguma queixa de assédio sexual da pessoa em questão, que era a Inês Bichão, ou de outra, sobre outro elemento da IL que não João Cotrim de Figueiredo?" Esta foi a pergunta. E na altura, a fonte oficial da IL demorou a responder, mas depois lá escreveu de forma sonsa o seguinte, vou citá-los: "Este assunto, neste momento, é pra ser tratado em tribunal, onde tudo será esclarecido de forma inequívoca. Todos os que, sem evidência ou qualquer fundamento, participaram nesta campanha coordenada de difamação, terão de por ela responder." Como a resposta era evasiva, na altura nós não a publicamos porque não tinha relevância noticiosa. Mas guardamos a resposta, claro, isto guarda-se sempre. E agora sim, tem muitíssima relevância, porque nos mostra esta resposta que a IL não foi transparente com os seus eleitores. Está demonstrado pra lá de qualquer dúvida. Teve várias oportunidades de dizer: "Não, sobre o João Cotrim de Figueiredo, não, mas de fato tivemos aqui umas queixas de assédio sexual." Afinal, lá está, o partido sempre sabia de alguma coisa.

Uma péssima forma de lidar com esta coisa desde o início.

É. Vamos ver que outras surpresas nos traz este caso no futuro.

Vamos ao resumo. O bom desta quinta-feira é o comandante nacional da Proteção Civil, o mau é o governo e o vilão é a Iniciativa Liberal.