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E começa agora a edição desta terça-feira de "O Bom, o Mau e o Vilão". Bom dia, Miguel Pinheiro.
Bom dia.
Miguel, o teu bom hoje tem boas notícias.
E que raro que isso é. O bom é a ferrovia, que nos costuma dar tão poucas alegrias. E ainda por cima, atenção, há boas notícias no público e no privado. Por um lado, a CP decidiu fazer testes com a Starlink pra ver se consegue finalmente ter internet decente nos comboios e se deixa de estar dependente das redes móveis. As companhias aéreas parece que conseguem ter internet nos aviões, mas a CP até agora nunca conseguiu ter internet a sério nos comboios que se limitam a andar aqui por Portugal. Andam por aqui de um lado pro outro e nem assim se consegue. Vamos ver se é agora. Outra boa notícia à qual eu não dei atenção ontem, porque havia muita coisa, mas no Congresso do PSD, Luís Montenegro anunciou que o governo vai fazer uma subconcessão da Linha de Cascais. O serviço ferroviário na Grande Lisboa é uma desgraça. E só desta maneira é que temos alguma hipótese de melhorar as coisas. Vamos ver se o governo se despacha, porque o anúncio está feito. Agora é preciso fazer. E já sabemos como é que isto é. Depois recursos, protestos.
Concursos públicos, pelas coisas todas.
Enfim, quanto mais depressa, melhor. Se começarmos hoje, talvez daqui, sei lá, não quero ser pessimista. Vá, comecem hoje, mas é isso.
Miguel, o teu mau emitiu um comunicado muito crítico.
Muito crítico. A Academia Portuguesa de Cinema emitiu um comunicado a criticar a Câmara Municipal de Lisboa por ter autorizado a demolição do edifício do antigo Cinema Paris. Segundo a Academia Portuguesa de Cinema, e vou citá-los: "A existência de uma rede de cinemas de rua e de proximidade é também uma condição essencial pra divulgação e sustentabilidade do cinema português." Ora, parece-me que há aqui dois problemas. O primeiro é que aparentemente a academia acha que deve ser o Estado a responsabilizar-se por ter salas de cinema espalhadas pelas cidades, com uma programação alternativa, como se a melhor forma de fazer com que as pessoas gostem de cinema português fosse enfiar filmes portugueses pela goela abaixo das pessoas, até elas se conformarem. Não me parece que essa fosse uma boa política cultural. Mas depois há o segundo problema, mais complicado. É que quem ler o comunicado da Academia Portuguesa de Cinema fica convencido, ou pode ficar convencido, se for um ingênuo, de que o Cinema Paris, que já agora é propriedade de um privado, tem uma atividade fervilhante, absolutamente fervilhante, e que essa atividade é agora interrompida por uma decisão insensível da Câmara de Lisboa. Portanto, tínhamos ali um cinema que estava a fazer as maravilhas do seu bairro e arredores, e agora os proprietários sedentos de lucro querem fazer ali umas casas e a Câmara de Lisboa entrega a cultura ao mercado. Ora, na verdade, o Cinema Paris foi fechado em 1985. O prédio está devoluto há 41 anos e está em avançado estado de degradação. Aquela rua que vai do Jardim da Estrela pra as Amoreiras tem um prédio devoluto há 41 anos. Não passa ali um filme há 41 anos. Mas a culpa, pelos vistos, é de quem quer acabar com aquela ruína. Agora, ao fim de 41 anos, imaginem 41 anos de cultura! E agora vai-se acabar com aquilo.
Nem sabemos como é que o cinema português teve sustentabilidade estes 41 anos todos com o Cinema Paris fechado, não é?
Sim, Paulo. Eu acho que a mera existência do Cinema Paris enquanto ruína era um incentivo pra cultura. Eu acho que sim. Eu sempre que passava por lá, e eu costumo passar por aquela rua, eu sentia sempre uma vontade enorme de fazer um filme. Não imaginas.
Pegavas na câmera e começavas a filmar logo.
É verdade, mas depois chegava a polícia e eu tinha que parar.
Queremos ver resultados disso, Miguel. Quem é aqui o teu vilão?
O vilão é o governo, novamente por causa daquela ideia exótica de criar um fundo soberano num país que não tem dinheiro. Toda a gente sabe, em Portugal nós exercemos o capitalismo sem capital e agora vamos ter um fundo soberano sem fundos. Nós estamos hoje como estávamos ontem e anteontem. Nós sabemos muito pouco sobre os planos do governo. Luís Montenegro fez o anúncio no discurso de encerramento do Congresso do PSD, por volta da 13h de domingo, mas depois disso, nada. Ninguém no governo responde a perguntas sobre o assunto e vamos ficar todos em suspenso, à espera que algum ministro se dê ao trabalho de nos explicar de que maneira planeia gastar o dinheiro que nós esforçadamente entregamos ao Estado com os nossos impostos. Aliás, esta é uma forma de funcionar que eu não entendo. O primeiro-ministro Chega à conclusão de que este é o momento de anunciar a criação de um novo instrumento de política econômica e de gestão de finanças públicas. E depois não dá detalhes. Depois as pessoas fiquem à espera? Eu não consigo entender muito bem. Mas como esta falta de explicações correu tão bem, por exemplo, com o pacote laboral, força, vamos a isso, continuem a espetar-se contra uma parede que vai ser bom. De qualquer maneira, mesmo não havendo grandes detalhes, estes dias já serviram para percebermos que a esquerda acha que a ideia do primeiro-ministro é ótima. O PS, por exemplo, lembrou que em 2023 Fernando Medina tinha defendido a criação de um fundo para financiar investimento público. Mesmo dizendo que este fundo de soberano tem contornos diferentes, o PS entende que esse instrumento faria todo sentido e muita falta agora. E já o Livre reagiu da seguinte forma, eu vou citar: "De uma perspectiva teórica, nós queremos esse fundo." Portanto, o Livre quer muito o fundo soberano de Luís Montenegro. E eu acho que o fato de o Livre querer muito o fundo faz com que esteja tudo dito sobre o brilhantismo desta ideia.
Portanto, nova polêmica no horizonte.
Paulo, vamos fazer uma graça para ficarmos bem-dispostos todos. Paulo, vamos ao fundo. Já viste o potencial disto? E lembrei-me desta agora. É pra tu veres o quão bem-disposto eu sou.
Não vamos ao fundo, mas vamos ao resumo. O bom é a ferrovia, o mau é a Academia Portuguesa de Cinema e o vilão é o governo. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs "360", programa que daqui a pouco também pode ouvir em podcast.