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Já aqui está o Pedro Jorge Castro. É um regresso do "Esplendor e a Infâmia". Bem-vindo, Pedro.
Que saudades de vocês. Olá.
Olá.
Como é que estão? Venho de férias e começamos com um dilema: qual vai ser o primeiro podcast que vão ouvir nas vossas viagens de férias? "Realpolitik" ou "1983: Portugal à Queima Roupa", ou nenhum destes?
Já ouvi o primeiro episódio do "1983", portanto, esse já não vai dar para as férias.
Não, mas falta muito.
Ainda tem muitos.
Está ou não?
Está com um ótimo ritmo.
Agora ouvimos mal, agora reiterava o seu podcast. Pronto, tirando o guião, está tudo certo.
Sim, tirando a história. Não, mas acho que conjuga muito bem a questão da banda sonora mais uma vez com este podcast. E de facto é uma história impressionante. Só a história em si já tem esta questão de espiões, pessoas aos tiros no meio de hotéis, sem dar aqui spoiler daquilo que vai acontecer.
Calma lá, Vasco Maldonado Pereira, vindo do autor do segundo podcast pelo Observador, o "Pritinha do Ar," que continua nos tops de podcast.
Não, mas acho que está um belo primeiro episódio.
E o "Realpolitik" já ouviram?
Já ouvi.
Só esses dois?
Espectacular. Já.
Muito porreiro, não é? Tem um ótimo equilíbrio.
É muito divertido.
Muito giro, também acho que tem um ótimo tom. Muito bem, vamos então ao esplendor desta semana?
Vamos a isso. Voltas de férias e és logo presenteado com mais dois candidatos presidenciais, uma sondagem que dá um surpreendente empate técnico. Vislumbras algum lado esplendoroso nisto?
Vislumbro logo um que é: ninguém vai ter razões de queixa por falta de opções. Não há nuance política que não esteja aqui representada. E atenção, ainda faltam.
Para já. Exato. Ainda há quem tenha razões de queixa.
É claro, falta um candidato claramente identificado com o Chega, e que assuma isso e que sobretudo consiga recolher o apoio total, sem reservas de André Ventura. E à esquerda, como sabemos, ainda há uma enorme franja à esquerda de António José Seguro e à volta de António Filipe, que também ainda não tem candidato a receber.
Augusto Santos Silva diz que esse candidato tem que se apresentar, que represente esse espaço todo.
Mas pronto, como ele não tem poder para ir lá buscá-lo por uma trela e andar a percorrer o país com ele à força a fazer de babysitter. Não sei o que isso vai dar. Mas sim, para já há esta constatação de todos, mas sobretudo destes dois últimos candidatos que se apresentaram numa marcação de terreno muito curiosa, como quem diz: "Atenção, não declarem já apoio." Rui Moreira a dizer: "Não se precipitem já a apoiar Cotrim, porque eu também estou a pensar nisto e portanto vamos parar um bocadinho, só para depois não haver um espetáculo lamentável de estar a recuar, a retirar apoios, que no final não posso recusar o voto neste meu camarada que apareceu agora e que não estava quando tinha dito que ia apoiar o candidato X ou Y." Portanto, para já, sim, essa marcação muito homem a homem, mas que resulta da constatação de que nenhum dos candidatos entusiasma. Ou seja, nós na verdade não estamos perante pesos políticos consagrados como tivemos noutras eleições, e estamos aqui numa eleição em que muita gente sente que tem espaço para também tentar a sua hipótese. Achei curioso Rui Moreira, a justificação que ele dá é que têm falado com ele, portanto não ser uma coisa que veio dentro dele. Ele tinha feito declarações muito recentes a dizer que era até um perfil mais executivo, mas lá está, neste tipo de campanhas dá para dar a volta a tudo, mas acho estranho que alguém se meta nisto sem ser uma vontade, e uma paixão e um entusiasmo para suportar tudo o que aí vem.
As campanhas são duras.
Por um lado, sim, há de haver o escrutínio e tudo e mais alguma coisa. Esperemos, mesmo com as dificuldades que tem o jornalismo de hoje em dia, mas quem é avançar vai estar sujeito a isso, vai estar sujeito a um escrutínio maior sobre a sua vida e sobre as decisões que tomou e sobre eventuais polémicas que tenha ou esqueletos no armário. Também vai ser um alvo mais fácil de denúncias relacionadas com isso. Haver pessoas que se cheguem à frente sabendo disso, apesar de tudo, tem o seu valor e tem o seu mérito. Também me parece que depois, no meio disto tudo, vamos chegar aqui a um ponto em que eles se vão atropelar todos uns aos outros. Nós vermos esta subida surpreendente de António José Seguro nas sondagens já resulta do facto de não haver nenhum candidato a disputar aquele espaço e, portanto, as pessoas que são inquiridas, coitadas, que levam com um telefonema e que ainda atendem telefonemas para responder a sondagens. As pessoas daquela área política, eu sei que o PS teve um dos piores resultados da sua história agora, mas apesar de tudo há muita gente que se identifica com aquela área política e que não tem nenhuma alternativa. À direita há muita opção, mesmo muita opção, e eles, na verdade, vão se atropelar todos uns aos outros e portanto podemos vir a ter aqui uma enorme corrida, que eu não esperava, pelo segundo lugar, que para já até parece beneficiar António José Seguro. Não acredito que não apareça mais ninguém, mesmo a arrancada a Ferro e mesmo com a falta de entusiasmo que advirá de arrancar tão tarde. Mas prevejo aqui uma corrida estranhamente entusiasmante. Não estava à espera de facto de ver tantos pesos pesados, apesar de tudo, a aparecer, embora estejamos sempre, pelo menos para já, um bocadinho aquém do peso político que vimos noutras campanhas Mas o drama, à partida, parece estar garantido. Estou muito curioso para ver se algum dos candidatos, nomeadamente estes dois últimos que apareceram, Cotrim e Rui Moreira, se vão manter as candidaturas em face um do outro ou se vão fazer um acordo qualquer para não avançar. Como é que Marques Mendes vai lidar com isto, vai reagir a isto? E se vai haver alguma negociação do governo, por exemplo, que também tem interesse, obviamente, em não deixar cair Marques Mendes.
Isto não devia estar no Excel inicial de Marques Mendes, estes dois candidatos que foram aparecendo.
E repare que ainda falta mais alguém aqui.
Do PSD quando apoiou Marques Mendes, certamente Rui Moreira seria um nome potencialmente falado.
Sim, as pessoas falecem. Mas agora precipitaram-se, já não têm volta a dar, já não há grande margem de recuo aí. Mas ainda estou para ver como é que o governo vai gerir isto, se vai envolver nisto de alguma maneira e eventualmente tentar algum acordo com a IL por outra via qualquer para não avançar Cotrim, para não queimar tantos votos a Marques Mendes. Portanto, acho que ainda temos aqui muitas perguntas para ver, mas também André Ventura acho que está com um grande telão. Vai ficar fora disto tudo? Vai conseguir aguentar-se e ficar fora disto tudo?
Ele próprio?
O partido, então o partido não vai ter uma voz ativa. Aquilo que nós vemos é que há candidatos que dizem que os votantes do Chega não têm lepra, mas isto chega para ele se manter de fora. Eu percebo que os candidatos resistam a ficar enclausurados na gaveta do Chega. Como o Chega tem uma taxa de rejeição maior do que a taxa de aprovação, seria meio caminho andado para a desgraça numa segunda volta, mesmo que tivessem bom resultado na primeira volta. Mas eu duvido que isto chegue para o líder do Chega ficar por aqui e dizer simplesmente para não votarem em quem quiserem. Isto é tudo péssimo, mas votem em quem quiserem.
Ele não tem propriamente um histórico de ter dificuldades a ir a jogo. Portanto, se o picarem muito, se calhar .
Agora está numa circunstância diferente, mas também já vimos que quando mete outro candidato, os resultados não são os mesmos. Prevejo aqui um grande telão para André Ventura e vou ficar curioso para ver como é que ele sairá disto e muito curioso para ver o que é que vai sair daqui, porque parece que ainda vamos ter muitas surpresas nos próximos seis meses, vão ser alucinantes e vertiginosos. Alta política, estou entusiasmado com isto para acompanhar na nossa Tarde Política.
Sim, e certamente vamos ter depois em dezembro, no período natal, ótimos debates para acompanhar também entre estes dois, entre todos estes candidatos.
Estou muito curioso para ver isto.
Os que se confirmarem. Bem, vamos à Infâmia. A Infâmia quer destacar o regresso da polémica sobre as aulas de Cidadania, neste caso, mais concretamente a proposta de referendo avançada ontem por André Ventura. Sugeriu que se perguntasse aos portugueses se eram a favor da presença de conteúdos sexuais ou sexualizantes nas aulas. O que é que vocês acham?
Bem, primeiro a formulação da pergunta é espetacular. Se houvesse um referendo em que fosse aprovada esta pergunta, só a existência da pergunta, seria incrível.
Se calhar a pergunta mostra logo que a ideia foi atirada ali um bocadinho ad hoc.
Mas repara, mas o problema depois qual é? É que na base da pergunta, na verdade, está aquilo que seria a eventual campanha de um referendo destes, porque é muito difícil ter uma conversa serena e com moderação sobre este assunto. Nós estamos aqui a tentar procurar pontos de equilíbrio entre duas fações absolutamente radicais. Um lado muito conservador, em que se fala de recrutamento, como se andassem a recrutar alunos para as fações LGBTQIA. E do outro lado, obviamente, sempre a falar em retrocesso, por não haver veiculação de certas ideias nas aulas, nomeadamente, isto resume tudo, creio eu, às políticas de género e à identidade de género. E parece-me que estamos todos a viver aqui numa falácia. Eu acho que há aqui uma grande falta de noção sobre o que é o mundo de hoje em dia. É verão, eu vou contar esta história, não tem mal nenhum.
Se fosse inverno...
Há muitos anos não havia nada disto. Havia uma coisa que se calhar vocês já não tiveram, que era a conversa. A conversa era o momento em que o pai chegava ao pé do filho e dizia uma série de coisas sobre a sua iniciação sexual, coisas que ele deveria saber antes de tratar disso. E só o facto de se chamar a conversa, é uma coisa que quase todas as pessoas da minha geração sabem.
Era uma coisa mitológica.
Sendo que tem vários problemas. Primeiro, é impossível resumir isto e apresentar isto numa conversa e é muito difícil acertar no timing. É muito difícil acertar. Se isto é um bocadinho antes, cai ao lado. Se é depois, também já não vale de nada. E se é em cheio, é estranho. Como é que se sabe que é ali mesmo em cima? E então, não havia, na altura, além de ser a conversa e de não ser, obviamente hoje em dia sabemos e felizes dos lares onde é possível haver, lares é uma palavra muito conservadora.
Era para ter para o teu timing da conversa.
Felizes as famílias onde é possível ir havendo conversas sobre isto, com todo o melindre que a situação apresenta. Mas não havia outro tipo de informação disponível. Claro, havia nas aulas de Ciências da Natureza, eventualmente, falava-se ali um bocadinho, mas muito por alto e com algumas subtilezas. E depois, na minha casa, felizmente, havia jornais e revistas, mas nem nos jornais e revistas havia muita coisa. Havia, porém, uma pequena revista, que era a revista Maria, que tinha uma edição que era um formato mais pequenino para as senhoras. Sim, era essencialmente lida por senhoras, era o que era, transportarem na mala e que tinha quatro páginas semanais de consultório sexual, três páginas para ela e uma página para ele. E conheço muita gente que aprendeu algumas coisas a ler essas páginas.
E deve ter aprendido algumas coisas também estranhas.
Claro! Mas qual é a questão? Hoje em dia, ninguém precisa dessas páginas do consultório da revista Maria para nada, porque informação abunda. Não vale a pena nós acharmos que há certas coisas que se não forem ditas em contexto de aula, que as pessoas não vão à procura, que os miúdos não vão à procura em todas as outras fontes que têm disponíveis, porque obviamente, na internet, nas redes sociais, vão ser bombardeados com tudo isto a toda hora. E na verdade, a questão é filtrarem e saberem identificar onde é que hão de ir. E sim, peço imensa desculpa, claro que uma coisa é o proselitismo, de propagação de uma determinada ideia nas aulas, e este creio que é o ponto mais sensível, mas outra é restringir-se as conversas sobre este assunto, como se os miúdos não precisassem, precisamente, que houvesse pessoas de bom senso, como nós acreditamos que será a generalidade dos professores, dos presidentes de escolas e dos pais, caramba, é claro. Nós precisamos que haja pessoas com bom senso, com razoabilidade, com equilíbrio.
Que lhes possam tirar dúvidas.
A poder tirar dúvidas, a poder chamar-lhes a atenção para certas coisas que não tenham ouvido, a poder desfazer certas dúvidas e dilemas que todas estas questões provocam. Voltando à pergunta de André Ventura, eu quando o ouvi a verbalizar a pergunta com franqueza Achei logo: "Vai haver imensa gente a votar." Não, porque depois aquilo em que se transformaria esta campanha seria na divulgação de todos os casos extremos que nós conhecemos, em que se passou o risco do que seria desejável, acho eu, equilibrado. Em certas escolas, há um caso disperso aqui e outro ali, onde foi lá alguém contar não sei o quê, uma narrativa assim ou assado, em que só dava hipótese às pessoas de serem lésbicas ou homossexuais e não havia hipótese para serem heterossexuais. Imaginei todos esses casos amplificados e aquilo que eu presumo que seja a norma geral a ficar completamente esquecida e tratada como se não existisse. Portanto, um referendo sobre um caso destes é algo que me assusta, com franqueza, por aquilo que seria essa campanha. Acho que devíamos procurar manter aqui um certo equilíbrio. O ministro da Educação falou finalmente há bocadinho sobre isto. As declarações dele apontam nesse sentido. Vamos ver o que é que sai daqui, mas queria registar a infâmia que seria esta campanha para um referendo com base numa pergunta destas ou qualquer adaptação benévola desta pergunta formulada por André Ventura.
Muito bem, ainda temos tempo para abrir o baú. Um baú sobre a Guiné Equatorial, de que se tem falado tanto agora, a propósito das reservas do presidente da República sobre a hipótese de o país governado há 46 anos por Teodoro Obiang assumir a presidência da CPLP. Recuaste, Pedro, uma década para ir à procura do início desta história. Como é que chegámos aqui?
Na verdade, um bocadinho mais. Não temos assim tanto tempo e portanto eu vou ser o mais sucinto possível. Mas isto não foi logo. Portugal resistiu ainda enquanto pôde e foi entalado por Dilma Rousseff, presidente do Brasil, e José Eduardo Santos, presidente de Angola, duas figuras políticas assinaláveis para aceitar isto, quase como uma espécie de ultimato, e Portugal acabou por ceder. O princípio bonito era a abolição da pena de morte na Guiné Equatorial, como se isso fosse um valor absoluto. Claro que eu louvo todas as vidas que foram poupadas e as execuções que deixaram de ser feitas na Guiné Equatorial desde 2014, mas continua a ser um país tenebroso, campeão de abusos dos direitos humanos, muito pouco recomendável. Mantém Teodoro Obiang há 46 anos no poder. Ou seja, o princípio da abolição da pena de morte, se fosse o início de um caminho mais profícuo e mais generalizado... Eles ainda há pouquíssimo tempo tiveram a chamada operação limpeza para prender massivamente todos os opositores do regime. Se isto fosse um caminho mais consistente, poderia ter virtudes, mas na verdade fomos anjinhos e deixámo-nos ir por pragmatismos que eu creio que claramente hoje nos deixam nesta situação absolutamente constrangedora. E a pergunta de 1 milhão é: quantas pessoas na Guiné Equatorial falam português? Quantas é que são? Alguém sabe, alguém consegue arriscar o número? Então as estimativas que encontrei aqui apontam para 1% da população. E é um país destes que se arrisca a presidir à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Para pensar um bocadinho. Isto foi muito contestado, mas houve vários políticos portugueses que apoiaram logo na altura esta decisão como se fosse uma inevitabilidade e como se não houvesse grande alternativa e não pudéssemos ficar isolados. Destaco Rui Machete, Miguel Relvas, estávamos num governo de Passos Coelho quando foi a formalização da decisão em 2014. Mas também o PS tem políticos com declarações a apoiar isto. E é assim que chegamos a este momento hoje em dia e chegamos também ao fim deste Esplendorinho.
E voltamos na próxima quarta-feira com mais esplendor e com mais infâmia.
Foi um gosto.