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Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio de "Pela Sua Saúde", o podcast que põe a saúde em primeiro lugar e que procura analisar o estado da saúde em Portugal. Hoje antecipamos um pouco a conferência da Apifarma sobre testes de diagnóstico in vitro na luta contra o câncer, que vai ter lugar no dia 18 de setembro, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Tenho comigo Pedro Branco, farmacêutico de formação e diretor-geral da Menarini Diagnósticos Portugal. Bem-vindo, Pedro, e obrigado por ter aceitado este convite.
Bom dia, muito obrigado.
Pedro, a indústria dos diagnósticos in vitro tem estado a crescer também em Portugal. Quais são hoje as principais linhas de desenvolvimento nesta área?
Antes de começar a ir por aí, eu gostava de dizer que há 200 anos nós éramos 2 bilhões de pessoas e agora somos 8 bilhões. Nessa altura, nós vivíamos 40 anos. Neste momento, nós vivemos 80 anos. Então, o que acontece com a indústria de diagnósticos? Acompanha as necessidades de bem-estar e acompanhamento na saúde e na doença desta população, que cada vez é maior e cada vez tem mais necessidades. Naturalmente, que há alguns pontos-chave na indústria de diagnósticos que estão ligados à medicina em geral. Mas deixe-me dizer que quando Koch descobriu o bacilo de Koch, que é o micobactério, acerca da tuberculose, nessa altura não havia antibiótico. E nós estamos a falar de quantos anos passados? Muito poucos anos. Portanto, isso são realidades que aconteceram há um século ou dois séculos. Então, esta é a noção que eu quero dar. Hoje em dia, nós conseguimos identificar os micro-organismos, conseguimos arranjar terapêuticas adequadas, e isso faz-se muito à conta da indústria de diagnósticos. O que é isso? É nós conseguirmos ter técnicas, desenvolvermos técnicas que não são muito dispendiosas, porque os diagnósticos no âmbito dos cuidados de saúde custam mais ou menos 2%, 3% em termos de custo dos cuidados de saúde, mas não há médicos e os profissionais de saúde não tomam decisões sem ter a ajuda de informação de diagnósticos, que nós chamamos diagnósticos in vitro, em 70% das situações. Portanto, isto é fantástico relativamente à nossa realidade. Para lhe dizer concretamente, relativamente ao que aconteceu mais, já para não ir lá atrás, à descoberta em 1882 do bacilo de Koch, eu queria dar-lhe duas datas muitíssimo importantes. Em 1983, descobre-se algo chamado técnica de Polymerase Chain Reaction e, em 2003, faz-se a sequenciação do genoma. Estes dois takes, chamemos assim, fazem com que haja uma revolução em curso, que é exatamente como todos sabemos, por exemplo, termos identificado rapidamente o vírus Covid-19 e termos começado a fazer testes moleculares com uma facilidade muitíssimo grande e passamos a controlar a saúde pública através dos testes de diagnóstico. Portanto, em conclusão, a indústria de diagnósticos é precursora de uma velocidade e de uma tecnologia, em termos de informação, enorme.
Portanto, estamos a falar de uma área que é bastante promissora. Qual é, na sua visão, Pedro Branco, o valor que os diagnósticos mais personalizados e menos invasivos representam para os doentes e também para a sustentabilidade dos sistemas de saúde?
Nós, recentemente, estamos a estudar tecnologia como, por exemplo, a biópsia líquida. Isto significa que há biomarcadores que existem, por exemplo, no sangue, que hoje em dia, por definição, não estão a ser usados, mas que no futuro farão o dia a dia da realidade dos boletins de análises que nós recebemos hoje em dia com hemograma ou uma análise sumária de urina e achamos isso fantástico. Claro, são dados, mas no futuro, estes marcadores, que estão contidos na biópsia líquida, constituirão a predição e quanto mais cedo forem determinados, melhor para a qualidade de vida das pessoas e dos doentes, e a esperança de vida. Portanto, serão algo que começará a constar nos boletins de análises. Hoje em dia, nós não os temos presentes. Por quê? Porque o nosso sistema de saúde simplesmente não os incorpora. Por exemplo, se eu falar em PSA, toda gente mais ou menos ilustrada sabe que estamos a falar de um teste específico para Que é protein specific antigen. Estamos a falar do-
Do indicador, não é?
De um indicador.
Ou de um marcador.
De um indicador prostático. E, portanto, todos os homens devem fazê-lo a partir dos 50 anos e aparece nos boletins de análise. Mas se nós falarmos de R2, talvez as senhoras já saibam um pouco melhor, que está relacionado com o cancro de mama. Mas se nós falarmos em EGFR, cancro de pulmão, KRAS, cancro colorretal, são realidades que estão desconhecidas. No entanto, eu vejo com muito bons olhos a legislação que saiu muito recentemente, que cria programas, por exemplo, não sei se é já completamente público, mas há uma norma que implica a metodologia geral dos rastreios oncológicos em Portugal, que tem três, quatro semanas. É editada no dia 12 de julho de 2024. Portanto, nós vamos ter em Portugal um programa de rastreio oncológico.
Portanto, o que está a dizer é que nos próximos 10, 15 anos vamos ter um diagnóstico cada vez mais preditivo, é isso?
É. É uma revolução. Existe algo em curso que pode transformar a medicina laboratorial e pode transformar o uso de dados no sentido de melhor tratar, tanto em termos de predição como de seguimento das terapêuticas que vão ser cada vez mais personalizadas.
Pedro, os tumores de pulmão ou do pâncreas são ainda hoje dos mais silenciosos. É possível pensarmos em diagnósticos mais precoces no curto prazo, detetar estes problemas cada vez mais cedo e, no fundo, detetar a doença mais cedo e garantir maior qualidade de vida às pessoas?
Bom, há coisas que têm a ver com todos nós nos consciencializarmos que estamos em risco se bebermos muito, se fumarmos muito e, portanto, estamos expostos a substâncias que interferem com os nossos genes, que os transformam. Isso é uma abordagem. Outra abordagem é retirar do meio somente científico e muito específico para a realidade do dia a dia da prática clínica, retirar da parte de investigação para a parte da clínica médica de rotina, alguns marcadores que podem ser usados para antecipar, porventura, situações que possam vir a desenvolver-se na área da oncologia, naturalmente.
Nesse sentido, o rastreio é muito importante.
O rastreio é muito importante. No entanto, é necessário que os médicos que estão envolvidos nestas matérias possam prescrever marcadores, se fala de pulmão, como o EGFR, e os outros médicos saberem interpretar de que se trata e como é que poderá ser, porventura, antecipadamente tratado de uma maneira personalizada.
Nesse sentido, como é que vê o alargamento do rastreio do cancro da próstata, estômago e pulmão, que está a ser promovido a nível europeu?
Eu acho fantástico. Porque as doenças oncológicas representam a principal causa de morte prematura em Portugal, e na Europa também, mas também, por outro lado, a perda de anos de vida saudável, porque nós passamos a viver 80 anos, mas parte desses 80 anos, a última parte desses 80 anos, que poderão ser cinco, oito anos, não são saudáveis, mas nós podemos trabalhar muito esse contexto.
Portanto, o que está a dizer é que vivemos mais tempo, mas há uma parte da nossa vida que vai ser vivida em doença, em contexto de doença.
Certo.
Já aflorou aqui a predição como uma tendência de futuro nos diagnósticos in vitro. O futuro passará por uma medicina cada vez mais preventiva?
Cada vez mais preventiva. Cada vez mais preventiva, tanto ao nível dos hábitos e do conhecimento que a sociedade tem relacionado com os hábitos, mas também com testes, por exemplo, no caso sobre o qual estamos a falar, testes que fazem com que as pessoas possam controlar o desenvolvimento de determinadas patologias com longevidade e com qualidade de vida.
Pedro Branco, a Apifarma está a planear um estudo sobre a relação entre o custo e o valor gerado pela informação destes testes na área oncológica. Pensa que existe já uma perceção correta, até junto dos profissionais de saúde Sobre o chamado estado da arte nesta área?
Eu acho que há muito para fazer. Acho que a Apifarma está muito bem nestes seus 85 anos de celebração a ter esta iniciativa. Eu gostaria de aproveitar para convidar os ouvintes a fazerem a sua inscrição e a participarem, sendo que nós vamos ter oradores de enorme qualidade, começando desde logo por alguém que vem da MedTech, que é a Associação Europeia de Dispositivos Médicos, especialista nesta área. Mas também vamos ter, por exemplo, o diretor do Serviço de Oncologia Médica do Centro Hospitalar do Porto, a diretora da Sociedade Portuguesa de Anatomia Patológica. Vamos ter também a presença de alguém de uma associação de doentes e, portanto, naturalmente, contamos com outros stakeholders, como por exemplo, alguém do Ministério da Saúde, que creio que se podia dizer que está confirmada a presença da diretora-geral da Saúde e, por que não, para acompanhar o nosso presidente, a ministra da Saúde.
Portanto, será um momento de troca e de informação, de partilha. Sabemos que a comunicação é muito importante na área da saúde. Pedro Branco, em que medida é que testes mais precisos podem permitir reduzir custos? Sabemos que esta é uma área muito onerosa para os sistemas de saúde. Essa precisão não pode levar também a uma maior pressão no acesso a medicamentos inovadores e até mais dispendiosos?
Os medicamentos inovadores podem, porventura, ser mais dispendiosos se não forem previamente tratados e decididos com os políticos que contextualizam a colocação destes produtos no mercado e naturalmente negociados. Mas o que se poupa com a antecipação de cuidados de saúde, que são muitíssimo mais dispendiosos se forem detectados muito mais tarde, terá necessariamente um mecanismo de compensação sobre, porventura, algumas terapêuticas mais dispendiosas.
Para isso é preciso investir continuamente em investigação e também em desenvolvimento. Isso parece ser claro hoje em dia. Qual a importância da inovação em Portugal e na Europa? Os doentes podem esperar mais neste capítulo?
Os doentes podem esperar mais, sempre mais. Naturalmente que nós temos centros de excelência. Eu estou a ler um livro do professor Sobrinho Simões. O professor Sobrinho Simões, no IPATIMUP, é alguém que é uma das pessoas mais brilhantes, sobretudo na área da investigação do cancro da tiroide e, por isso, naturalmente, é estar próximo destas comunidades que têm muito a dizer e muito a contribuir para a melhoria dos cuidados de saúde em Portugal. Eu dei um exemplo, haverá outros que podem ser referidos.
Portanto, há razões para sorrir em relação ao futuro.
Eu acho que sim. Eu estou muito entusiasmado, porque de facto, tanto a tecnologia como a ciência estão a avançar num sentido que nós não prevíamos há uns anos. E isto para não falar da organização de gestão de bases de dados fortíssimas ou o que a inteligência artificial, ligada à gestão desses dados, nos pode proporcionar.
É todo um capítulo novo, esse da inteligência artificial, não é?
Sim. Sabe que nós, na área laboratorial e na área médica, já lidamos há muito tempo com este novo tema fashionable, que é a inteligência artificial. Já se conseguem fazer diagnósticos através da inteligência artificial, claro, sempre intermediado pelos devidos profissionais de saúde.
Dado o entusiasmo que tem em relação ao futuro, deduzo que tem boas expectativas para a conferência da Apifarma no dia 18 de setembro.
Extremas expectativas e altíssimas. E conto com os ouvintes no dia 18, no Centro Cultural de Belém.
Em Lisboa. Pedro Branco, muito obrigado por ter vindo ao "Pela Sua Saúde". Voltamos daqui a 15 dias para continuar a falar de saúde. Até lá.
Eu é que agradeço. Obrigado.