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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje é Dia Mundial da Criança e por isso temos um programa especial. Olá, Eduardo. Temos uma lista de reclamações e sugestões feita por crianças de norte a sul do país. O Eduardo reuniu esta lista com a ajuda da Escola Amiga da Criança, um projeto da CONFAP e da Lei Educação. E nesta lista temos de tudo: sugestões bem-humoradas, mas também temos muitos pensamentos sérios. E vamos começar por aí, pelo que pensam as nossas crianças e os nossos adolescentes, por exemplo, sobre o futuro. Foram várias as crianças que nos deixaram pensamentos sobre o futuro. O futuro como apreensão. Por exemplo, esta adolescente do secundário escreveu assim: "Eu não tenho bem uma reclamação, mas tenho uma inquietação que estou sempre a pensar, que é o meu futuro. Eu tenho medo de não conseguir tirar o curso que eu quero e tenho medo também que a minha vida no futuro seja má. É só isso." Termina assim. Só isso, diz ela. Eduardo, perante esta franqueza sobre o futuro, leva-nos a pensar que há aqui uma apreensão dolorosa, uma ansiedade dolorosa sobre o que pode vir. Como é que nós podemos ler este receio?

Olá, Judite. É bem a prova de que os adolescentes não andam tão distraídos como nós muitas vezes imaginamos. Quando nós ouvimos os políticos, achamos sempre que eles supõem os adolescentes e os mais jovens como se vivessem numa espécie de outra galáxia, em relação à qual tudo o que se passa cá em baixo parece não ser importante ou indispensável. E às vezes eles fazem de conta que vivem noutra galáxia, porque de facto, aquilo que se passa no dia a dia e sobretudo aquilo que é o futuro deles, só pode merecer interrogações, Judite. E nessas circunstâncias, aquilo que os adolescentes pensam, eu acho que é absolutamente razoável. Nós passamos a vida a dizer: "Bom, eu só quero que sejas feliz." Ou às vezes ainda pior, Judite: "Podes escolher o que tu quiseres, só precisas de ser o melhor naquilo que faças." Como se os pais fossem invariavelmente assim. Depois escolhem uma versão um bocadinho mais amena: "Não é o melhor, mas é muito bom." Mas, de facto, aquilo que nós estamos a deixar aos adolescentes é um mundo um bocadinho complicado. Eles vivem uma série de crises à frente deles, Judite. É a crise da Segurança Social, é a crise da habitação, é a crise climática, é a crise financeira, crise migratória, crise. E toda a gente diz à boca cheia que a qualidade ou o nível de vida que eles vão ter não será muito certamente idêntico àquele que os pais tiveram. E, portanto, são demasiadas interrogações e é um nevoeiro muito espesso, muito opaco e portanto, eles têm a noção de que o futuro é uma interrogação que desencadeia medo. E, portanto, eu acho fantástico que quando se fala do Dia da Criança e se imagina que elas precisam é de distrair-se e de brincar, nos passe, às vezes completamente ao lado, de forma estranha, todavia, isto de eles lerem o mundo e as pessoas e terem uma opinião sobre as coisas e terem, sobretudo, uma ideia que as inquieta. Os adolescentes só têm medo do futuro, porque os pais e os professores, os adultos de referência, quando se trata de falar dele ou de lhes mostrar o caminho, não lhes estão a dar as garantias indispensáveis para que eles acreditem. E, portanto, como se pode crescer feliz ao mesmo tempo que se cresce com medo?

Nós temos nesta lista pelo menos mais duas crianças adolescentes na passagem pra adolescência, que trazem este medo do futuro. Aliás, é curioso porque estas duas próximas mensagens começam mesmo assim: "Tenho medo do futuro. E tenho medo que em vez de ficar melhor, fique pior." E no final, uma das mensagens diz: "Queria que o futuro deixasse de ser um medo." Como é que se pode dar esperança às crianças, quando o Eduardo acabou de elencar uma lista enorme de crises, como é que os adultos de referência podem dar esperança às crianças no futuro?

Ó Judite, deviam sentir-se proibidos de dizer: "Vai ficar tudo bem." Porque eu acho que quando nós dizemos isso, estamos no fundo um bocadinho embaraçados com as dificuldades dos nossos filhos ou das pessoas de quem nós gostamos e que são adolescentes, mas no fundo não lhes estamos a dar uma garantia indispensável. Eles precisam ter alguém que seja capaz de esmiuçar estes medos. E, portanto, aquilo que eles estão a dizer de uma forma seríssima, é que quando olham para o futuro, não veem sonhos, não veem esperança, não veem projetos. Veem medo. E aquilo que nós lhes podemos dar em contrapartida é exatamente o contrário. É mostrar-lhes que com a nossa ajuda, eles têm que ser capazes de desenhar os seus sonhos pra depois irem lutar por eles, porque no fundo, os sonhos são os melhores antídotos do medo. O que é muito curioso, Judite, é que quando nós falamos com adolescentes e num primeiro momento, antes de eles nos conhecerem, portanto, estando um bocadinho à defesa, como se compreende, e às vezes nós tentamos perceber: "Mas olha, afinal, qual era o teu sonho? O que tu desejavas ser, etc." Num primeiro momento, quando eles estão muito assustados, eles têm uma atitude queQue roça alguma arrogância, mas que é compreensível. Sonhos? Mas isso é preciso para quê? Porque de facto, aquilo que nós estamos sempre a dar a entender é que o mundo se resume a produzir muito, a trabalhar imenso e a ganhar. Os sonhos parecem ser uma questão de somenos importância. E é exatamente eles, ao elegerem aquilo em que acreditam, e acreditam convictamente, e que desejam, que eles podem lutar contra os medos, porque no fundo, são esses os antídotos dos medos. E nós, os pais, nomeadamente, não nos colocamos tanto na equação quando se trata de lhes pegar pela mão e dizer: "Mas muito bem, eu ajudo-te a construir esses sonhos, porque é por aí que a vida avança." E, portanto, é isso que nós devemos fazer, abri-los para o sonho, para os desejos que eles possam ter, explicar-lhes como é tudo. As coisas não lhes caem no colo, mas se eles tiverem convictamente um desejo inabalável, evidentemente, que não há obstáculos que os impeçam de lá chegar. E se for assim, o futuro vale a pena.

Depois temos outro tipo de reclamações, como esta de uma criança de sete anos, que diz assim: "Nesta escola, a professora só sabe falar com os alunos a gritar. Nunca quero ir pra escola de manhã, principalmente à segunda-feira. Gosto de ir às terças, porque a nossa professora principal não está e a que fica é meiguinha com os meninos. Esta professora quer que todos os meninos estejam no quadro de honra, mas os meus pais dizem-me que eu tenho de aprender, mas antes tenho de ser muito feliz e brincar muito. Às vezes fico de castigo, sem intervalo grande, porque estou a fazer recortes enquanto ouço a professora a falar da matéria. Ela diz que não estou atenta, mas eu estou e aprendo muito. Fico mais relaxada a fazer recortes enquanto ouço a professora e não rato as unhas porque tenho as mãos ocupadas. Eu gosto muito desta escola, não gosto é da minha professora. Queria ter a professora Susana da primeira classe." Olá, Eduardo, todo este raciocínio feito à volta da ideia de aprender, feita por uma menina de sete anos, é bastante incrível.

É lindíssimo. Quer dizer, é lindíssimo e ao mesmo tempo é um bocadinho triste, porque uma menina destas precisava de ter uma professora que não gritasse e que só estendesse a mão, porque uma menina destas que pensa de uma forma tão límpida, tão esclarecida, só basta ter quem goste dela para que lhe peça a lua e ela vai até ao sol ou até onde for preciso. É uma pena que muitas escolas tenham professores debaixo de uma pressão absolutamente incrível, sempre a lutar por rankings e objetivos e a não dar oportunidade às crianças a fazer aquilo que elas fazem melhor, que é brincar e aprender ao mesmo tempo. Coisas que não são incompatíveis, mas a escola cresceu e transformou-se numa escola de sisudos. E a escola das pessoas sérias é uma escola onde se pode brincar e aprender.

E ainda a propósito da escola, temos mais uma criança da primária, que diz que sente que muitos dos professores das AEC, para quem não está familiarizado, são atividades de enriquecimento curricular, portanto, atividades pós-aulas. Diz que algumas das professoras e funcionárias das escolas trabalham já num nível de cansaço e desmotivação tão grande que isso acaba por passar para as crianças. Compreendo que trabalhar numa escola seja exigente e muitas vezes pouco valorizado, mas as crianças sentem tudo: a falta de paciência, os gritos, as respostas mais frias, a ausência de entusiasmo ou até a sensação de que estão a mais. Há crianças mais sensíveis, tímidas ou inseguras, que podem ficar marcadas por ambientes onde não se sentem acolhidas, compreendidas ou tratadas com carinho. Gostava que houvesse mais apoio emocional, melhores condições e maior valorização para quem trabalha diariamente nas escolas, especialmente nas AEC e no acompanhamento das crianças, porque quando um adulto está emocionalmente esgotado, muitas vezes perde a capacidade de cuidar com calma e empatia. E as crianças merecem adultos presentes, pacientes e emocionalmente disponíveis, porque a escola também deve ser um lugar seguro do ponto de vista emocional. Isto foi escrito por uma criança, e eu vou corrigir, não foi da primária, foi do primeiro ciclo, ou seja, do quinto, sexto ano. É absolutamente incrível esta clarividência numa criança tão pequena, Eduardo.

Como eu gostava que o senhor ministro fizesse uma espécie de conselho consultivo com crianças e adolescentes e os escutasse, porque eu tenho-o como um homem sensato, mas com um conselho consultivo, com esta clareza e com esta clarividência, todas as medidas ousadas que tem que tomar seriam ainda mais ousadas e sairíamos todos a ganhar com isso.

Depois há algumas críticas ao facto de não se poderem usar telemóvel. Há quem se queixe que alguns alunos continuam a usar o telemóvel às escondidas.

Isso não tem nada a ver comigo.

Há crianças que deixam outras notas, como por exemplo, podia haver jogos interturmas de futebol, que o peixe acabasse no refeitório, o peixe e a batata-doce. Gosto muito do pormenor da batata-doce, também o fim da batata-doce. Há uma muito interessante que é: quer música relaxante na biblioteca. E há uma outra sugestão que é troca de brinquedos, uma feira de troca de brinquedos, em que os meninos traziam os seus brinquedos e podiam trocar por outros brinquedos. E por fim, há uma sugestão que todos os professores e educadores deviam ouvir, que era chapéus na sala de aula para os meninos usarem quando precisam. Isto é uma sugestão de um menino de sete anos, que queria ter sempre o seu chapéu de sol na sala para não ter que o trazer de casa. Foi a nossa lista, Eduardo. Teve a ajuda da Escola Amiga das Crianças e é muitíssimo interessante.

Ajuda-nos a perceber que estas crianças, que são realmente muito bonitas, não se constroem sem pais, que são pais de primeira categoria. E eu só tenho esperança que a escola não estrague esta beleza toda, porque estes miúdos, a conviver nesta beleza, aquilo que têm para dar, ao nível daquilo que eles nos transmitiram, se entram bonitos na escola, têm a obrigação de sair ainda mais bonitos de lá.

E com isso ficamos por aqui no Dia Mundial da Criança, com uma longa lista de sugestões. O podcast fica já disponível, pode ouvi-las todas, se não conseguiu apanhar desde o início. E nós, Eduardo, encontramo-nos amanhã. Até amanhã, Eduardo. Um grande abraço.

Outro para si.

Obrigada.