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No primeiro "Porque Sim Não é Resposta da Semana", vamos a um e-mail de um ouvinte que nos deixa uma pergunta muito intrigante: será que conhecemos mesmo os nossos filhos? Esta foi uma questão que lhe surgiu em conversa com um amigo, que lhe dizia: "Nós pensamos que conhecemos os nossos filhos, mas isso nem sempre corresponde à realidade". Olá, Eduardo. Boa tarde.
Olá, Judite. Boa tarde.
É uma pergunta muito intrigante esta.
Judite, mas é sensata. Eu sei que dito desta maneira tem qualquer coisa digna de uma série com alguns capítulos que nos agarram à cadeira, mas é sensata, porque nós conhecemos, claro. As mães então têm a mania que conhecem muito melhor que os pais. Nós conhecemos, sim. Judite, mas eles crescem e depois à medida que eles crescem, crescem numa direção em relação à qual nós não somos sempre chamados a participar, e compreende-se, e obviamente que nem sempre tem a ver connosco, o que também se compreende. Mas às vezes a vida deles dá umas voltas e há muitas alturas em que nós temos a noção que sim, sem dúvida nenhuma, são nossos filhos. Sim, são absolutamente preciosos para nós. E sim, às vezes têm uns capítulos mais ou menos enigmáticos que temos dificuldade em perceber. E isso é muito escorregadio. Eu tenho sempre a ideia quando chegamos a uma conclusão dessas, que é uma conclusão que nos dói, invariavelmente, nós devíamos parar e convocá-los para uma reunião, que não precisa de ser divulgada nos órgãos de comunicação social, para nós conversarmos como deve ser. O que é que está a acontecer, porque eu sinto que há alguns aspetos do teu comportamento ou desta ou daquela atitude, em que eu não te reconheço ou eu não me reconheço, e isso está a ser difícil para mim. Quando nós sentimos que nem sempre reconhecemos os nossos filhos, Judite, temos que ir à procura deles, porque se nos calamos, depois de amanhã, noutra atitude qualquer, vamos chegar à conclusão que ainda os reconhecemos menos. E quando eles começam a deixar de ser aos bocadinhos nossos filhos, é uma coisa que dói tanto e é tão absurda, que deixar isto mais ou menos calado é que não pode ser.
Este ouvinte ficou a pensar se pode a mesma criança ou o mesmo adolescente, o mesmo jovem, ter comportamentos muito diferentes em ambiente familiar e na escola. E como é que isso pode acontecer?
Judite, isso ainda é o menos, digo eu, por uma razão simples: porque a resposta a isso é sim, pode. Porquê? Porque muitas vezes nas escolas os nossos filhos encolhem-se, ficam com a sensação de que não mandam tanto no jogo, ficam um bocadinho no cantinho deles à espera que os amigos, os colegas, etc., venham ao seu encontro e nessas circunstâncias são uns. Eles só se portam bem nessas circunstâncias porque estão um bocadinho assustados e depois quando chegam a casa, zás! Vingam-se de tudo aquilo que engoliram, vomitam cá para fora e às vezes fazem umas cenas feias e portanto parecem ser a antítese um do outro. Mas pior, Judite. Às vezes os nossos filhos são só miúdos sensíveis e como são miúdos sensíveis, adequam-se sem se dar conta às pessoas com quem estão ou aos meios onde estão. E portanto, não fazem como se andassem a fazer um esforço para serem, de certa forma, pequenos camaleões. Fazem-no de forma espontânea. Mas é nestas circunstâncias que às vezes eles são, de facto, um bocadinho diferentes de todas as versões que nós conhecemos deles. É por isso que os pais acham que às vezes há grupos que para estes miúdos têm um impacto negativo, ou às vezes acham que há uma namorada ou um namorado que pode ter um impacto negativo. E pode ser. Agora, nada disto é demais. O que é importante é que quando um pai chega à conclusão de que há aqui qualquer coisa que está a ser um bocadinho enigmática ou que está a ser muito diferente no comportamento de um filho, consoante está com os pais, consoante está com os avós, às vezes acontece, ou consoante está com os amigos dos pais, onde às vezes assume uma atitude sensata, equilibrada, até sedutora, quando conosco aquilo é só mau feitio. Nessas alturas, reunião sem ser necessário divulgar à imprensa e vamos lá conversar de uma forma séria, porque temos um problema que vai ser preciso resolver, porque os nossos filhos Exigência nossa, e devo lhe dizer que eu acho que é uma exigência bem sensata, têm que ser a mesma versão de pessoa, seja o sítio onde estiver.
É preciso observá-los dentro de um contexto que muitas vezes os pais não têm acesso, que é o contexto escolar. A verdade é que os pais deixam os miúdos à porta da escola, não é?
Sim, é verdade. É verdade, e é muitas vezes verdade que as mães saem de uma reunião com uma diretora de turma e quase se beliscam. E quantas vezes não têm o mesmo desabafo quando dizem: "Mas será que ela estava realmente a falar do meu filho ou é outra criança qualquer?" E às vezes está mesmo a falar do filho. Agora, lá está. Uma criança, quando chega à escola e fica mais ou menos assustadiça, porta-se de forma exemplar. É tudo menos tola. Percebe que as regras são diferentes e que, portanto, tem que fazer pela vida de uma outra forma. E depois, nessas circunstâncias, e esta é a versão mais clássica, em que nós chegamos à conclusão que não conhecemos bem os nossos filhos, e depois, quando finalmente chega a casa uma criança destas, às vezes ainda só meteu o nariz dentro do automóvel e já está a espingardar com a mãe, como quem diz: "Meu Deus, eu estive num colete de forças o dia todo, portanto, agora, por favor, deixa-me falar pelos cotovelos". É normal que isso aconteça. O que já não é normal é nós ficarmos mais ou menos descansados por termos um filho a contar até mil em cada dia que está na escola, porque isso não é razoável. Ele não levanta a mão de forma segura quando tenta dizer: "Professor, eu tenho uma ideia", ou não responde como devia quando é preciso dizer a um colega ou outro: "Olha lá, precisa de ter juízo". E, portanto, está assustadiço. Seja como for, quando um pai ou uma mãe chegam a esta conclusão, isso é uma questão muito importante, porque se for só isto, Judite, este só, todavia, significa que o nosso filho está ali num aperto, num sofrimento, e isso não tem graça nenhuma. Tudo o que seja mais do que isto, por maioria de razão, precisa de uma intervenção muito clara da nossa parte, basicamente para o ajudar.
Já não falo de casos excepcionais, em que as crianças têm atitudes muitas vezes agressivas, que os pais nem sequer deram por isso, mas quando uma criança tem um comportamento tão diferente consoante o seu ambiente, é preocupante pensar que há aí um feitio quase camaleónico nessa criança ou nesse adolescente?
Judite, não é um feitio, mas é preocupante, até por isto, porque repare que às vezes os nossos filhos comportam-se assim porque entretanto a mãe e o pai separaram-se e o que a mãe e o pai exigem, em circunstâncias muito semelhantes, são coisas muito diferentes. Às vezes ele aprende a fazer pela vida, mas que é uma coisa que não é espontânea, é uma coisa que resulta de muitas situações a que ele foi exposto e que saiu muitas vezes magoado, como não podia deixar de ser. Nessas circunstâncias, não basta, mesmo nessas, a mãe ou o pai dizer: "Não, ele comigo é diferente". A questão aqui é ele com a mãe e com o pai, mesmo que os pais não estejam juntos, tem que ser o mesmo miúdo. Se a mãe e o pai têm que ter a sensatez de uniformizar critérios, o que não é razoável é que, consoante as pessoas significativas com quem está, ele seja outra pessoa, porque isso aí onde é que o leva? A coisas boas, seguramente não.
Eduardo, ficamos por aqui com esta pergunta deste ouvinte que de certeza que vai despertar em muitos pais também a mesma dúvida e voltamos amanhã com mais um tema. Até lá, continue a escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Um grande abraço, Judite. Até amanhã.