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Boa tarde.
Olá, tudo bem? Posso entrar?
Tudo, entre. Não se assustem.
É num quarto andar de um prédio em Queluz que Fernando Conceição está imortalizado. Uma coleção dos Queen, disposta numa vitrine ao longo de uma das paredes da sala, não passa despercebida.
Era sonho dele, foi o que ele construiu ao longo dos últimos 20 anos. Tentou procurar todos os itens que conseguiu relacionados com os Queen, com o Freddie Mercury, em particular.
Helena Calado, mulher de Fernando, hesitou em falar conosco, por ser tudo muito recente. O "Freddie Mercury português", como lhe chamavam, morreu em junho, vítima de um câncer. Mas Helena aceita levar-nos numa autêntica viagem pelo mundo da banda britânica, ou melhor, pelo mundo de Fernando.
Jogos tem. Estas foram das últimas aquisições que ele fez. Isto são puzzles, aqui ele o Monopólio dos Queen. Não tivemos a oportunidade de jogar, mas acho que ele também não nos ia deixar jogar. O Lego.
Helena vai abrindo a porta de cada uma das prateleiras em forma de quadrado à medida que vai mostrando cada peça.
As Pop Figures. Isto foi uma luta, porque isto foi um lançamento que tiveram há muitos anos e o Fernando andou atrás da empresa que faz estas figuras e mandou e-mails e chateou: "E quando é que vocês lançam?" Até que agora, quando foi novamente a onda dos Queen por causa do filme, eles voltaram a lançar. E então, claro, o Freddie nos seus diferentes outfits voltou a aparecer e ele comprou.
Fã incondicional dos Queen, não resistiu em junho à luta contra um câncer que durava há seis anos. Durante duas décadas, Fernando Conceição colecionou pins, moedas, CDs, vinis, estatuetas, cartas e até peças fora do comum.
O ketchup dos Queen, que toda a gente acha imensa piada. Ele lá descobre estas coisas. É o ketchup, é vodka e é a cerveja. A cerveja fui eu com ele comprá-la de propósito a Londres.
Cada peça tem uma história e um significado especial, e há uma que Fernando não venderia nem por 1 milhão de euros. Está no canto da sala, bem à vista.
Esse Freddie em tamanho real era o objeto preferido dele da coleção. Foi uma aventura.
Em setembro de 2011, aniversário de Freddie Mercury, Helena Calado quis fazer uma surpresa a Fernando: uma viagem. Começar o dia em Montreux, na Suíça, onde Freddie Mercury passou os últimos anos de vida, e acabar a viagem em Londres, no Reino Unido, para uma festa relacionada com os Queen.
A recompensa foi exatamente este Freddie em tamanho real, que estava na entrada da festa. Havia dois e as drag queens que estavam à entrada da festa reconheceram-nos, porque ele ia com o casaco amarelo, e reconheceram-nos da exposição em fevereiro, que tínhamos lá estado, e reconheceram o Fernando. E no final da festa perguntaram se ele queria o Freddie, e ele diz automaticamente: "Sim, claro que quer". E, portanto, era 1h da manhã em Londres e andávamos pelas ruas de Londres com o Freddie. Ele com o Freddie debaixo do braço. Ainda por cima chovia. Eu já estava tão cansada que eu dizia: "Eu vou a gatinhar para o hotel, eu já não aguento mais". Ele dizia: "Só mais um bocadinho, aguenta".
Helena vai tentando conter as lágrimas.
Eu tive que montar um quarto aqui na sala pra ele e a cabeceira da cama dele era o Freddie. Está ali na foto. A cabeceira era a cama dele e as médicas vinham cá à casa e metiam-se com ele, porque tinha a cama mais gira de sempre. Vamos ter 50 discos de "Bohemian Rhapsody".
Helena ajoelha-se perante um compartimento do móvel por baixo da televisão para procurar a primeira peça da coleção de Fernando.
Está aqui. Espera aí. Deixa-me cá pôr. Para meter isto na ordem. A coleção começou com o single do "Crazy Little Thing Called Love", quando ele tinha 15 anos, que o irmão comprou, deu-lhe a ouvir e ele, coisa de irmãos, disse com o maior dos desprezos: "Sim, a música é gira, mas não é nada de especial". A seguir o irmão virou costas e ele foi a correr comprar.
Na grande vitrine, na sala daquele prédio em Queluz, há também réplicas de adereços, como a imponente coroa vermelha de um dos inesquecíveis looks de Freddie Mercury. Mas são os fatos iguais aos do vocalista dos Queen que chamam a atenção. Fernando vestia-se como Freddie e nem o bigode escapava.
Ele só deixou crescer o bigode por causa do Freddie Mercury. Só mesmo aí em agosto começava a deixar crescer para setembro ter o bigode. Só nessa altura mesmo. Fomos uma vez comprar um bigode falso e que ele utilizava depois noutras circunstâncias.
E porque havia centenas de peças na coleção de Fernando, apenas uma pessoa podia limpar o pó.
Ele nunca me deixou limpar o pó, não deixava ninguém mexer. Era ele que o fazia. Estes tempos foram complicados.
Helena emociona-se.
Eu disse: "Ok, eu limpo e tu estás aqui a ver e vais me dizendo como é que queres, não queres". Mas a cada dia que passava, as coisas ficavam um bocadinho mais complicadas e não dava. E eu ainda não tive coragem de mexer. Ainda não tive coragem de tocar, de mudar as coisas de sítio. Porque depois posso mexer e mudar as coisas de sítio e não queria ainda estar a mexer.
Até ao final do ano, Helena Calado está decidida a dar um novo destino à coleção É guardada em caixotes ou é vendida como um todo a um único colecionador.
É que nós que estamos aqui temos sempre de olhar para o painel.
É difícil.
É, porque o Fernando dedicava muito tempo a isto e nós ajudávamos e vivíamos isto com ele. Era a paixão dele e nós divertíamo-nos imenso com ele e brincávamos com ele com isto. No fim era a força dele.
Há também a possibilidade de a cidade de Montreux, na Suíça, receber a coleção. Duas amigas de Fernando, também frequentadoras de festas e encontros dos Queen, criaram uma petição para esse efeito.
Foram elas que me sugeriram: "Porque é que não levamos a coleção do Fernando para Montreux? Tu importavas-te?" Eu disse: "Não, não me importo. Acho que não há ideia melhor e que nada faria mais feliz o Fernando, até porque ele está lá e ter a coleção lá acho que faz todo o sentido. Mas isso é possível?" Elas disseram: "Bom, só não será possível se não tentarmos". Eu disse: "Ok, vamos em frente, vamos tentar".
Montreux, a cidade onde Freddie Mercury passou os últimos anos de vida, mas também um sítio muito especial.
É um dos nossos sítios preferidos, é onde o Fernando está, é onde ele está a descansar e espero que esteja a descansar com o Freddie. E é um dos sítios onde, por exemplo, até o mais pequeno diz que queria ir morar, porque é realmente um sítio paradisíaco. Ele sempre disse duas coisas: que queria ser cremado e que gostava de estar em Montreux. E, portanto, nós tentámos realizar isso. Assim que nos entregaram as cinzas, metemo-nos num avião e fomos. E deixámos as cinzas no lago, em frente à estátua. Era o que podíamos fazer. Dizia uma coisa muito engraçada, que é verdade: o Freddie não morreu, apenas deixou de fazer música. E eu, quando ele morreu, disse exatamente a mesma coisa. O Fernando também não morreu, apenas deixou de carregar no play. Agora é transpor isto para algum sítio onde possa continuar a ser apreciado.
Helena Calado quer assim dar uma nova vida às peças de Fernando Conceição. O desejo é um: que as centenas de objetos relacionados com os Queen possam ficar também na cidade suíça que é de Freddie Mercury, mas também de Fernando.