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Rui Agostinho, esta manhã surgiu a notícia de que uma bola de fogo foi avistada nos céus do sul da Península Ibérica na madrugada de segunda-feira, portanto, cerca das 04:00. Queríamos perceber consigo, enquanto professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e também enquanto astrofísico, qual é a explicação para este fenômeno? É um fenômeno raro, costuma acontecer ou é algo pouco usual que deveríamos estar atentos e estudar um pouco melhor?

Este é um fenômeno regular que acontece todos os anos. Portanto, nesse sentido, não é nada de espetacular ou algo nunca visto, longe disso. Está ligado com a chuva de meteoros designada pelas Leônidas. Não sei se as pessoas sabem, mas as chuvas de meteoros são recorrentes todos os anos na mesma época, no mesmo mês. E há muitas ao longo do ano. Esta aqui tem o pico máximo de número de meteoros que entram pela atmosfera à volta de 17 de novembro e também é conhecida por ter, dentro dos meteoros, alguns que são mais brilhantes do que os outros. Portanto, eles são designados por bolas de fogo. Mas, em particular, existem bolas de fogo que são muito lentas, são bólides, e passam no céu em velocidades extremamente baixas. Esta última que foi avistada não corresponde a um bólide desses, é apenas um meteoro um pouco mais brilhante do que o normal. Foi extremamente rápida, pelos cálculos dos astrônomos espanhóis, que têm as câmeras que monitorizam o céu. Câmeras de vídeo que estão constantemente a responder aos pontos luminosos que aparecem no céu. O cálculo deles é que terá entrado a 227 mil km/h. Isto é três vezes a velocidade média com que estes meteoros associados a esta chuva de estrelas cadentes. Estrelas cadentes é o termo popular em Portugal, que esta chuva de estrelas cadentes tem. Tipicamente anda pelos 80, 90 mil km/h. Portanto, esta foi um pouco mais rápida e em termos do brilho que faz, o que se sabe é perfeitamente conhecido, que é o quê? Os restos do cometa Swift-Tuttle. Por quê? Porque esta chuva de meteoros está associada aos detritos deixados por este cometa. Os cometas têm órbitas periódicas em torno do Sol e alguns tantos deles passam na zona orbital terrestre também. Ora, quando a Terra cruza essa zona, embate contra estes detritos que são deixados no espaço. Como a velocidade da Terra é de, em média, 108 mil km/h, a velocidade relativa entre estas pedras que estão, podemos dizer erradamente, a flutuar no espaço, faz com que elas entrem pela nossa atmosfera a cerca de 100 mil km/h. Às vezes mais, às vezes menos, porque estes objetos não estão exatamente parados no espaço. Ora, essa velocidade é enorme. E o que é que acontece? A nossa atmosfera é densa. Estas pedras, pequenas pedras, eu estou a dizer pedras, mas há uma variedade de estruturas geológicas. Desde aquelas que são apenas pedras, as condritas carbonáceas, até aquelas que são mais ricas em ferro. Mas qualquer uma delas, ao entrar pela atmosfera, sofre um atrito tremendo na nossa atmosfera, tipicamente a 80, 100 km de altura, o aquecimento é tal, atingem milhares de graus, que elas ficam incandescentes. A maior parte delas desfazem-se e estas mais brilhantes, efetivamente ao explodir, para além de deixarem um rastro luminoso forte, esse rastro luminoso provém do quê? Do aquecimento da atmosfera, da ionização dos átomos na nossa atmosfera. Moléculas passam a átomos, os átomos ionizam, emitem luz e a própria pedra em si também aquece imenso, fragmenta-se e desfaz-se. Portanto, o brilho final que aparece nas imagens tem a ver com este fenômeno físico, que é a fragmentação do objeto que atingiu milhares de graus. A coloração vem dos gases que estão na nossa atmosfera e alguma composição química que os minerais ali têm. Portanto, dá um fenômeno lindíssimo, é um fenômeno luminoso, em particular nas próximas noites. Acontece que esta chuva de meteoros é conhecida por produzir alguns destes meteoros muito mais brilhantes, popularmente também designados por bolas de fogo, apesar de não serem tão vistosas quanto os bólides. Os bólides são muito mais interessantes porque entram na nossa atmosfera com velocidades extremamente baixas a comparar com isto. E que nos permitem o quê? Vê-las durante um período de tempo muito mais prolongado. Portanto, é possível seguir aquilo no céu e tornar-se um espetáculo fenomenal.

Rui Agostinho, então nos próximos dias podemos esperar mais bolas de fogo a sobrevoarem os céus no sul da Península Ibérica.

Exatamente. Portanto, este é um fenômeno que apanha, em relação à noite do pico máximo, mais umas duas semanas para trás e para frente. Portanto, quem tiver bom tempo à noite, vá para o campo. Eu digo vá para o campo, quem está na cidade, obviamente, não poderá. Quer dizer, poderá fazer, não é tão prático. Mas é bom ter o quê? Ter um céu escuro. Note-se que a maior parte dos meteoros que entram pela atmosfera são de fraca luminosidade. Isto implica que dentro de uma cidade nem se conseguem ver. Mas se fugirmos ao céu luminoso de uma cidade, então é possível ver uma maior quantidade deles. E de facto temos a próxima semana para poder observar este fenômeno. Vale a pena fazê-lo. Vale, em particular agora com as Leônidas, porque são conhecidas nas últimas décadas por produzir uma série de meteoros altamente brilhantes.

Rui Agostinho, não lhe querendo roubar mais tempo, peço-lhe só para me esclarecer uma dúvida com que fiquei durante a entrevista. Portanto, esta bola de fogo está ligada a esta chuva de meteoros, as Leônidas, não é? É isso que agora vai continuar mais duas semanas.

Exatamente. É isso mesmo.