Carpool Autárquicas com Paulo Vistas: “Aprendi com Isaltino Morais tudo o que se deve e tudo o que não se deve fazer”

24 Agosto 2017290

Um dia depois de estoirar a polémica da candidatura de Isaltino, Paulo Vistas entrou no carro do Observador. Admite herança, mas também "problemas". E diz que há candidatos que davam "bons vereadores"

Chega sisudo e com passos firmes em direção a um dos carros do Observador. “É neste que vamos?”, diz logo a seguir a uns “bons dias” apressados, apontando para o carro de apoio das filmagens do Carpool Autárquicas. Não era esse. Vamos antes no Smart: duas pessoas, três câmaras GoPro, dois microfones. E um ar condicionado a meio gás. “Ok, com casaco ou sem casaco? Se calhar tiro o casaco e a gravata”. Sim, talvez seja boa ideia. O estilo é descontraído, e o calor no dia 10 de agosto é muito. Mas Paulo Vistas não faz caso do conselho. Mantém o casaco e a gravata, e vamos lá. Afinal, é o presidente da Câmara de Oeiras.

Por estes dias a guerra autárquica no concelho está ao rubro. A entrevista com o atual presidente e candidato independente pelo movimento Oeiras Mais à Frente (antigo movimento encabeçado por Isaltino Morais) já estava marcada há dias e foi cair em cheio no centro do furacão. Nem 100 metros o Smart tinha percorrido, e já Paulo Vistas dizia que não tinha “problema nenhum em falar da polémica”. Queria ir direto ao ponto. “Acho que o dr. Isaltino está a utilizar a teoria da conspiração, e está a utilizar a vitimização para condicionar uma decisão judicial”, atira de rajada. Seguir-se-iam acusações de que a candidatura de Isaltino Morais tinha enviado agentes da PSP aos pontos de recolha da candidatura de Paulo Vistas, que o tinha feito inclusive “várias vezes”, o que, no seu entender, provava que a candidatura de Isaltino Morais não estava de acordo com a lei.

Sentir-se-ia aliviado se de facto o Tribunal considerasse inválida a candidatura de Isaltino Morais? Ficava sem adversário? [A decisão sobre o recurso chegou quatro dias depois, dia 14, e foi uma decisão a favor de Isaltino]
Respeito todos os adversários, mas o que me é exigido, enquanto putativo candidato, é que cumpra a lei. Portanto é o que eu exijo aos outros candidatos. Se a candidatura do dr. Isaltino não cumpriu a lei, então não pode ser candidato.

E acha de facto que não cumpriu a lei?
Acho.

Começou por desviar o assunto, mas afinal estava com vontade de falar. Momentos antes tinha estado no seu gabinete na câmara a ver as notícias da manhã e tinha-se irritado com o facto de os jornais estarem a cavalgar a onda do seu grau de amizade com o juiz Nuno Tomás Cardoso — que tinha rejeitado, em primeiro lugar, a candidatura de Isaltino em função de irregularidades no processo de recolha de assinaturas. Isaltino Morais denunciou publicamente o facto de Paulo Vistas ser padrinho de casamento do juiz. E Paulo Vistas respondeu alegando que também Isaltino tinha estado presente no mesmo casamento. Agora, no lugar do pendura do carro do Observador, defende que não vê qualquer problema nessa ligação pessoal: “Todos somos seres sociáveis, conhecemos pessoas”. Além do mais, diz, já não fala com o afilhado, que exerce funções no tribunal de Oeiras, “há vários anos”.

O afilhado juiz. “Há vários anos que não falo com ele”

Começou por dizer que não havia fundamento nem verdade nas acusações do de Isaltino Morais, mas depois confirmou que era padrinho de casamento do juiz Nuno Cardoso.
E confirmo, claro.

Portanto a vossa relação de proximidade é indiscutível. Não acha que o juiz devia ter pedido escusa do processo?
Isso tem de perguntar ao juiz. Não estou aqui para dar a minha opinião. Relativamente a questões da justiça são questões da justiça, e as questões da política são questões da política. Eu falo de política. Só soube quem era o juiz, tal como todos os candidatos de todas as candidaturas, depois do dia 8 [de agosto], após ter proferido o despacho.

Como é que tomou conhecimento da decisão?
Sou notificado enquanto primeiro proponente, tal como o meu mandatário. Portanto, quando fui notificado, tomei conhecimento de quem era o juiz. Hoje não sei quem é o juiz que vai analisar o recurso, penso que nem o dr. Isaltino saiba. Há o risco de também esse juiz ser amigo do dr. Isaltino e ser meu amigo.

E não vê problema nisso? Não há incompatibilidade?
Nós somos seres sociáveis, nós conhecemos pessoas. Fui padrinho de casamento do juiz, é um facto. Mas o dr. Isaltino também esteve presente no casamento.

É diferente o grau de proximidade, suponho que seja seu amigo de casa.
Não, não é.

"O dr. Isaltino já não é minha família, procurou outra família. Isto acontece quando um pai ou uma mãe sai da família, procura muitas vezes outra família, outra mulher, outro marido".

Não se alonga na amizade com o juiz, mas alonga-se na rutura com o amigo de longa data Isaltino. Paulo Vistas conhece bem a câmara de Oeiras e conhece bem aquele que liderou a autarquia durante 24 anos. Desde 2005 que era seu vice-presidente, assumindo depois o lugar cimeiro no movimento independente quando Isaltino se viu envolvido num processo judicial. Nas autárquicas de 2013, com Isaltino na prisão, foi Paulo Vistas o candidato pelo movimento IOMAF e, embora tenha dividido o lugar nos outdoors com o rosto do antigo presidente, foi ele que saiu vencedor. Depois disso, mantiveram o contacto, seguiram-se várias visitas à prisão, e Vistas estava lá quando Isaltino foi libertado em 2014. Depois disso, as relações esfriaram, sobretudo quando se começaram a aproximar as autárquicas deste ano. Quem iria na frente?

Quando é que se chatearam?
Não me chateei propriamente, mas tenho assistido às declarações públicas do dr. Isaltino e tenho ficado triste.

Quando é que foi a última vez que falou com ele?
Foi um jantar, acho eu, que estivemos os dois num restaurante em Paço de Arcos em 2016, no final de 2016.

Sobre esta polémica da candidatura não falaram pessoalmente?
Não, não falámos.

A relação com Isaltino. “Aprendi com o dr. Isaltino tudo o que se deve fazer e tudo o que não se deve fazer”

Paulo Vistas exalta-se quando lembramos que era considerado o “delfim de Isaltino”. Prefere antes lembrar que é atualmente presidente da câmara e que foi, durante oito anos, vice-presidente e vereador. “Eu não fui delfim, fui vice-presidente de Isaltino. Ser vice-presidente não é ser delfim. É ser vice-presidente. Orgulho-me de ter pertencido a essa equipa, agora o dr. Isaltino saiu desta família e escolheu outra”.

Não é que renegue as amizades. Isso não faz. “Não renego as amizades. Nunca reneguei, nem tão pouco reneguei a amizade com o dr. Isaltino quando esteve na prisão”, diz. Chegou a visitá-lo quantas vezes? “Várias vezes, só não o visitei mais porque um preso só pode ter três pessoas em cada visita, e muitas vezes quando eu o ia visitar ele já tinha lá três visitas, e não podia entrar”, explica. “Não tinha uma situação privilegiada pelo facto de ser presidente de câmara”.

O afastamento foi apenas depois de terem percebido que iam ser adversários ou já vinha de trás? Foi Paulo Vistas que recusou voltar a ser número dois, voltar a ser vice-presidente dele, ou foi Isaltino Morais que não quis ser o seu número dois?
Recusar ser numero dois? Eu sou presidente de câmara.

Exato, seria voltar atrás.
Fui eleito presidente de câmara em 2013, eu não herdei poder, o poder foi-me dado nas urnas.

Foi eleito associado ao movimento de Isaltino Morais.
Fui eleito associado a um projeto que também era meu. E fui eleito pelo que esse projeto fez e prometeu fazer.

"Os parques empresariais são trabalhatórios, funcionam das 8h às 20h, ao contrário dos dormitórios. E hoje entendo que é um erro criarmos estes parques monofuncionais, sem habitação e sem serviços"

Insistimos várias vezes para tentar perceber em que se baseou a rutura e como é que os munícipes de Oeiras olham para esta velha amizade, que culminou numa separação em toda a linha e em trocas de acusações graves. Paulo Vistas diz que não estão “de costas voltadas”, porque o seu combate é apenas Oeiras. E recorre a Freitas do Amaral, e até a Zita Seabra, para explicar que às vezes a vida é assim mesmo: começa-se num partido, num movimento, e depois muda-se de família. No hard feelings.

Paulo Vistas passa a bola a Isaltino: ele é que deve explicações, e e ainda não as deu. “Foi uma opção dele, pessoal, e ele nunca a explicou às pessoas que o acompanharam desde sempre e que fazem parte da assembleia-geral da Associação Oeiras Mais à Frente. O professor Freitas do Amaral foi fundador do CDS, e quando saiu do CDS, o CDS não desapareceu e não deixou de se chamar CDS. A dra. Zita Seabra quando saiu do PCP, o PCP não desapareceu quando ela foi para o PSD. O dr. Isaltino decidiu sair, e porque é que há-de ser por essa razão que este projeto deixa de existir? Isto não é um projeto individual”, diz, referindo-se ao nome do movimento IOMAF, que antes queria dizer Isaltino – Oeiras Mais à Frente e agora mantém a sigla substituindo o “I” de Isaltino por um “I” de independentes.

Como é tratado na rua? Se as pessoas o associam a Isaltino Morais, o facto de serem agora adversários não lhes faz confusão?
Tenho 45 anos, todos vividos em Oeiras. Na rua há pessoas que me tratam por Paulo, há pessoas que me tratam por presidente, há pessoas que me tratam bem, pessoas que concordam comigo. Estudei aqui, conheço as pessoas de Oeiras não só por ter estado como vereador, vice-presidente e presidente: conheço as pessoas porque esta é a minha terra. É a minha gente.

Mas sempre foi associado a Isaltino Morais. Em 2013, nos cartazes da campanha, aparecia sempre ao lado dele. E agora são adversários.
Militei no PSD com Isaltino Morais, fui expulso do PSD com Isaltino Morais, fui fundador da fundação Oeiras Mais à Frente com Isaltino Morais. Fui vice de Isaltino, nunca reneguei o passado, estou grato ao passado, mas a minha preocupação é olhar em frente. O mundo mudou. E o tempo não para: podemos parar os relógios, mas o tempo não. Este é um novo tempo e eu estou disponível para trabalhar neste tempo. Aprendi com Isaltino tudo o que se deve fazer e tudo o que não se deve fazer.

O que é que não se deve fazer?
Ao nível da gestão autárquica… Sinto que estou capaz de liderar os destinos de Oeiras nos próximos oito anos. Aprendi muito do que se deve fazer e do que não se deve fazer.

Como por exemplo?
Sei lá, ao nível da gestão autárquica a melhor aprendizagem é quando nós trabalhamos, realizamos, fazemos. Por exemplo, agora vamos visitar os parques empresariais. Os usos monofuncionais são uma das coisas que aprendi que não se deve fazer. Ou seja, Oeiras conseguiu atrair grandes empresas nestes parques de escritórios. Hoje Oeiras depende da receita gerada por essas grandes empresas. Oeiras a par de Lisboa, e talvez Cascais, são os únicos municípios a nível nacional que não recebem um euro do Orçamento do Estado. A nossa receita provém das famílias (IRS), das empresas (através da derrama), do imobiliário e do IMI — e temos o IMI mais baixo de sempre, nós reduzimos essa carga às famílias. Esses parques empresariais hoje são “trabalhatórios” e hoje entendo que é um erro criarmos estes parques monofuncionais, sem habitação, sem serviços.

E vai baixar mais impostos?
Vou baixar mais impostos. Até porque a liquidez da câmara nos permite de forma séria propor a redução de impostos. Hoje temos uma liquidez na ordem dos 60 milhões, fruto de um trabalho feito com muito rigor e critério, de combate ao desperdício, fechar o que dava prejuízo e não acrescentava valor, de acrescentar e reformar.

Sobre o Taguspark e o Lagoas Parques, os principais parques empresariais do concelho de Oeiras, Paulo Vistas desvaloriza o facto de haver empresas a sair, por se queixarem da dificuldade de acesso e da falta de serviços associados, preferindo sublinhar que outras que “estão a entrar”. É o caso da Novartis, por exemplo, que foi “um grande ganho”. Então e como se resolvem os problemas de acessibilidade e trânsito que dificultam a vida das pessoas que lá trabalham? O autarca e candidato tem a resposta na ponta da língua: “A maneira de resolver o problema é trazer habitação. Se quem aqui trabalha morasse perto, não tinha necessidade de se deslocar. Não tinha necessidade de usar o automóvel, se calhar até podia fazer o percurso a pé. Se este é um espaço onde já há serviços, tem de ter comércio e habitação”.

Então porque é que ainda não pôs em prática a ideia? Afinal, é o presidente da câmara há quatro anos. “Porque quatro anos é pouco tempo no que diz respeito ao planeamento, o planeamento é feito no médio e longo prazo. E nestes quatro anos fizemos aquilo que se estava a tentar fazer há dez anos: aprovamos o plano diretor municipal”, diz.

“Sempre critiquei os que punham de lado todos os projetos só porque eram dos outros”

Quando paramos no Vale do Jamor para verificar o equipamento e tirar fotografias, Paulo Vistas aproveita para fumar uma cigarrilha. Também isso ainda tem em comum com Isaltino Morais, que no carpool gravado dois dias antes tinha confessado ter deixado o habitual charuto e ter-se “virado um bocadinho para as cigarrilhas”. Quando retomamos viagem, Paulo Vistas lembra-se de agradecer a Pinto da Costa por ter dito publicamente que o estádio nacional do Jamor era no município de Oeiras, e não em Lisboa. Agradecimento feito. Acena aqui e ali a quem passa, mas nem sempre é correspondido. O pequeno carro a dizer Observador não ajuda.

À passagem pela marginal, “a paisagem mais bonita” que conhece, vai mostrando obra feita — ou continuada. Costuma fazer praia em Santo Amaro, mas prefere caminhar e correr ao longo da orla ribeirinha. Infelizmente, não tem barco na marina de Oeiras. Gaba-se sobretudo do terceiro troço do Passeio Marítimo, “lançado e inaugurado” pelo atual executivo ao fim de muitas “vicissitudes”. Um troço que, ao contrário dos anteriores inaugurados por Isaltino, já foi projetado com uma área para peões e outra para bicicletas, e que se tornou no “melhor ginásio” de Oeiras. Às críticas de que não fez obra nos últimos quatro anos, responde com centros de saúde.

"Esta marginal infelizmente tem um volume de tráfego muito elevado. No futuro uma das vontades que tenho é encontrar uma solução para reduzir drasticamente este volume de tráfego"

Que tipo de solução propõe para o congestionamento de trânsito na marginal?
A criação de uma via longitudinal norte, paralela À A5, em que desvio o trânsito que vem de Cascais para Lisboa, ou de Lisboa para Cascais, daqui da marginal. Esta marginal passa a ser uma avenida em que as pessoas possam usufruir e desfrutar, e deixa de ser uma barreira entre o Tejo e o município de Oeiras.

O Passeio Marítimo está quase todo reabilitado, mas falta um excerto. Para quando o troço Paço de Arcos – Caxias?
Estamos a rever o projeto, havia um estudo prévio mas punha em causa o areal da praia de Caxias. E portanto entendemos que era preciso estudar uma solução de ligação de Caxias à futura marina de Paço de Arcos que não pusesse em causa a praia, que tem um areal que as pessoas utilizam bastante no verão.

Para quando então?
No próximo mandato, é uma obra que irei contemplar no programa eleitoral.

Porque não avançou já neste mandato?
Roma e Pavia não se fizeram num dia. Se neste mandato, em quatro anos, conseguimos inaugurar este novo troço, depois de termos tido uma providência cautelar, e mesmo assim conseguimos lançar a obra, terminá-la e inaugurá-la, e se a par disso ainda fizemos muitas outras obras… É que muitas vezes sou acusado de que não se fez nada nestes quatro anos, mas temos um novo centro de saúde lançado e concluído em Algés, um novo centro de saúde lançado e concluído em Carnaxide, e um novo centro de saúde que em breve estará concluído em Barcarena. Portanto, em quatro anos apenas, concretizamos obra e inauguramos três equipamentos que não megalómanos mas que respondem de facto às necessidades das pessoas.

Chegados à Cruz Quebrada viramos para a velha fábrica da Lusalite. É um velho problema, devido à acumulação de amianto, mas Paulo Vistas garante que os “relatórios feitos pela Inspeção Geral do Ambiente mostram que, para já, não há problemas com o amianto”. A questão é outra: o plano de pormenor que foi aprovado pela câmara para a construção de um grande empreendimento naquele lugar. Os custos ficarão inteiramente nas mãos de privados. “Na execução do plano, o privado está obrigado a demolir e a remover o amianto”, diz, sublinhando que alguns dos projetos do estádio nacional — como a construção de uma marina no Vale do Jamor — já estavam previstos no plano original, há “mais de 10 anos”, pré-2005, e que são por isso “uma herança” deixada de executivo para executivo.

Até quando procura mostrar obra feita — e fá-lo muitas vezes — o nome de Isaltino Morais é incontornável. É que muitas das obras são continuidade dos projetos lançados pelo anterior autarca. É o caso do Passeio Marítimo, como é o caso do Parque dos Poetas, que Paulo Vistas se orgulha de ter inaugurado — “inaugurado e construído” — a terceira fase.

Não faz caso das críticas, contudo. “Estou a dar continuidade a um projeto do qual fazia parte, nunca menti ao eleitor, o que disse aos eleitores em 2013 era que o meu projeto era de continuidade. E se estamos a servir as pessoas, e se servimos com verdade, vontade e transparência, então vale a pena correr todos os riscos. Sempre critiquei no passado os governos que chegavam ao poder e punham na gaveta ou no lixo todos os projetos apenas porque eram dos outros. Isso fazia com que o país não andasse para a frente, não se desenvolvesse. Se fui crítico disso, fazia sentido que quando chegasse à câmara pusesse de lado os projetos que eram de outro executivo?”, questiona.

No que se refere a heranças, apesar de o seu critério não ser de classificar como más as decisões dos outros, também aponta erros e defeitos. “Estou grato ao que foi feito pelo meu concelho, recebi muita coisa boa”, diz Paulo Vistas. “Mas também recebi muito problema”. O comboio SATU, a coqueluche de Isaltino Morais, é o primeiro “problema” da lista.

E o que fazer ao SATU? “Não sei… Tem de se encontrar outra solução. Um metro de superfície, por exemplo. Não sei…”

“Esta é outra herança”. É assim que Paulo Vistas o identifica quando o carro do Observador passa ao lado da estrutura superior onde em tempos circulava o comboio não tripulado SATU — Sistema Automático de Transporte Urbano. Depois de ter sido apelidado de “comboio fantasma”, o SATU deixou de circular em maio de 2015. A linha nem chegou a ser construída conforme planeado, ficando-se por pouco mais de 1km, de Paço de Arcos ao Oeiras Parque. A ideia inicial de Isaltino Morais era que aquele transporte fosse pelo menos até ao Lagoas Parque, depois até ao Tagus Park, e no limite, até ao Cacém (já no concelho de Sintra). Mas ficou muito aquém disso e acabou por ser desativado.

Pode ser a coqueluche de Isaltino, que continua a dizer que vai retomar o projeto, mas não é seguramente a prioridade de Paulo Vistas. Que nem sabe o que fazer à estrutura que ali está, inacabada e inutilizada.

Mantém o projeto inicial, de continuar a construção pelo menos até ao Lagoas Parque?
Possivelmente já não com este sistema terá de se encontrar outra solução, um metro de superfície, por exemplo.

E o que se faz à estrutura?
Não sei, terá de se encontrar outra solução, não sei. Demolir esta estrutura é um custo muito elevado, não se justifica….

Apesar das dúvidas quanto ao projeto para o SATU, Paulo Vistas assegura: O SATU só terá sucesso se for gerido de forma integrada e sem custos para o orçamento municipal. “A minha ideia é que seja a gestão das linhas — de Cascais ou Sintra — a integrarem este sistema”, diz, sublinhando que não permitirá, “como outros candidatos propõem”, que sejam as finanças municipais a suportar os custos da construção das restantes fases do projeto. Farpa lançada.

"É preciso ligar perpendicularmente as duas linhas férreas, de Sintra e de Cascais, e isso esteve previsto no projeto anterior para o SATU, mas não há condições para que seja o orçamento municipal a sustentá-lo -- como alguns candidatos dizem"

Porque falharam negociações com PSD? “Há candidatos que dariam grandes vereadores”

Apoiar ou não apoiar Paulo Vistas foi um tema que gerou dúvidas e debate no PSD. O calendário autárquico definido pelo partido para decidir apoios, candidatos e coligações tinha como meta o final de março. Mas dias antes de acabar o prazo ainda não havia decisão: ia o PSD apoiar o atual presidente Paulo Vistas, ex-militante — ou mesmo Isaltino Morais que chegou a ser convidado — ou iria ter candidato próprio? O PSD optou por não apoiar o autarca, lançando o nome de Ângelo Pereira, presidente da concelhia do PSD/Oeiras, e atual vereador do executivo de Paulo Vistas, apoiado igualmente pelo CDS. Paulo Vistas é evasivo neste tema.

Esperava ter o apoio do PSD?
Sempre estive disponível para ter o apoio de todos os partidos e de todas as forças, nunca fechámos a porta a ninguém. A única pergunta que fazemos a quem quer integrar o nosso movimento é se está disponível a trabalhar por Oeiras.

O PSD esteve até à ultima para decidir. O que falhou nessas conversações?
Isso terá de perguntar ao PSD.

Falou com Pedro Passos Coelho na altura?
Não, nunca falei com Passos Coelho.

Não falou com Passos Coelho, e com Carlos Carreiras [coordenador autárquico do PSD]?
Sobre este tema das autárquicas? Também não.

Ângelo Pereira é vereador com pelouros no seu executivo. Não é estranho ter um vereador a concorrer contra si?
Não. Já no passado isso aconteceu. Não há nada de estranho, e tenho uma boa relação com os candidatos e com os vereadores, independentemente de haver vereadores com competências delegadas e vereadores sem competências delegadas.

Quanto a eventuais acordos de coligação: se vencer, faz acordo com o PSD?
Estarei disponível para fazer acordos de coligação com todos, como sempre.

Com Isaltino Morais?
Com todos, sem exceção. Acho que há candidatos que podem dar grandes vereadores.

Como por exemplo?
Vários. Quase todos.

Neste momento da conversa, Paulo Vistas fez uma pausa longa antes de dizer “quase todos”. Joaquim Raposo, o candidato do PS, pode vir, nesta perspetiva, a ser uma ajuda útil a quem quer que seja o vencedor — a luta pelo primeiro lugar deverá estar entre Vistas e Isaltino. Mas Vistas prefere não dizer nomes. Quase todos os candidatos dariam bons vereadores, sendo que “há candidatos” que dariam “grandes vereadores”.

A viagem à boleia do Observador estava quase a chegar ao fim.

Mantém o que dizia, de que Isaltino Morais era o melhor autarca de sempre?
Não, não, eu…oiça… O que eu disse foi que o dr. Isaltino foi o melhor autarca de sempre. Naquele tempo, naquele contexto. E acho que os oeirenses devem estar gratos ao que o dr. Isaltino e a sua equipa fez…

Mas agora é preciso mudar esse discurso para convencer os eleitores a não votarem nele e a votarem em si.
Deixe-me dizer o seguinte. Não é mudar o discurso, o que mudou foi o mundo, o que mudou foi o tempo. Quer dizer… o Marquês de Pombal também foi um excelente estadista, repare a obra que ele fez aqui em Oeiras, o vinho, os palácios, a vila… Foi.

Foi passado. E o que foi já não volta a ser. Por agora fica pelo menos a comparação entre Isaltino Morais e o Marquês de Pombal.

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