O celacanto, peixe fabuloso cuja existência se equilibra entre a realidade e a ficção, procurado por cientistas loucos, entrou para a ficção portuguesa pela mão de Herberto Helder nesse singularíssimo Os Passos em Volta. Foi há 52 anos. Hoje sabemos que o celacanto era ele, o prodigioso poeta que mergulhou totalmente no temível poder da palavra e nunca se deixou capturar.

só lhe falta saber tudo,
só lhe falta a mulher para morrer com ele,
a mulher que há nele, no fundo,
a morta nele que de noite ressuscita,
e pelo dia todo de cada dia da terra
lhe rouba a alma
o ceptro
o segredo de ser senhor de tudo.

Há quase um ano, Herberto Helder (1930-2015) dava-nos este poema no dilacerante e polémico A Morte Sem Mestre, o livro trabalhado para desfazer o mito onde tantos o queriam encerrar. Como se  soubesse que as palavras que ali dizia eram as últimas, o maior poeta de língua portuguesa desde Fernando Pessoa fez o que sempre fez: baralhou, lançou a confusão, recusou-se a ser o que queriam que ele fosse.

Na noite de segunda-feira, um ataque cardíaco levou o bardo. O Observador sabe que ele deixou pronto um novo livro que sairá em breve pela Porto Editora.

Segundo fonte próxima da família, o corpo será cremado. Herberto entrou, como diz num poema, “pela porta improvável (…) alheio aos mortos e aos vivos/ou afrontando-os a todos?”. E agora Herberto?

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Em 1958, ele apareceu poeticamente com o poema de fulgor erótico e bíblico O Amor em Visita, publicado pelo iconoclasta Luiz Pacheco na editora Contraponto. Desenquadrado de escolas, apesar de acusar alguma convivência com os surrealistas e a poesia experimental, Herberto fez parte grupo de jovens artistas do Café Gelo antes de vagabundear pela Europa, ser guia de marinheiros em bairros de prostitutas, cortador de batatas, estivador, quase morrer num acidente de automóvel em Angola, ser director do serviço de bibliotecas itinerantes da Gulbenkian em Lisboa, bebedor diurno e nocturno nas tascas da Baixa e sempre, sempre um poeta obscuro e contínuo.

Cartoon Gelo

A magnífica galeria de frequentadores do Café Gelo em 1958, por onde também passava Herberto.

 

Um poeta do excesso, do verso longo, órfico e visionário, trabalhador incansável de metáforas e símbolos, mais voltado para os enigmas da vida do que para o banal quotidiano. Herberto construiu uma obra que é um universo inteiro, viveu para o ofício poético, estendeu a língua portuguesa a uma nova exuberância. A sua poesia, diz-nos o escritor António Cabrita: “é um coração que tem que ser comido à mão”.

Em 1964, numa das raras entrevistas que concedeu, Herberto Helder explica um pouco a sua posição perante a poesia, que é também uma posição perante o mundo:

“Os cinco livros que até hoje publiquei pouco significam agora para mim. O pouco significarem garante-me completa liberdade e isenção, em ordem a uma nova linguagem (…) Interessa-me, portanto, chegado que sou à convicção de me haver limitado, nos livros anteriores, a mover-me em círculo sobre uma linguagem esgotada – interessa-me, digo, muito menos executar uma gramática literária, destinada ao diálogo, do que perfazer um organismo internamente coerente e bastante. A comunicação será consequente, se for. De qualquer modo, bani a ideia do diálogo no meu estilo. Mas sinto-me ligado aos escritos antigos como alguém se pode sentir ligado a um paciente e doloroso erro…”

Recusando todos os mecanismos de mediatização, entrevistas, fotos, prémios, conferências, o poeta construiu paradoxalmente um mito que o tornou ainda mais apetecível para os media. Mais do que a sua obra, desejavam-se detalhes da sua biografia íntima, queria-se caçar Herberto como os ictiologistas loucos queriam caçar o celacanto (um peixe pré-histórico que se julgava extinto mas que foi descoberto em 1938 nas águas da África do Sul). Ele que conhecia bem as redes dispostas para o apanhar proibiu todos os amigos próximos de darem entrevistas sobre ele. Hoje, o poeta Helder Macedo, o mais antigo amigo de Herberto, recusa mais uma vez falar sobre ele dizendo apenas “o silêncio nunca nos interrompeu”. Será pois na sua obra que poderemos encontrar respostas. Como ele sempre quis.

Só que não é fácil rastrear na poesia portuguesa uma obra poética ou ficcional semelhante. Herberto Helder não tem antes nem depois, apesar de muitos o tentarem imitar. Mas não basta usar os dois pontos no meio de um verso para fazer verdadeira poesia. Depois de um poema de Herberto nunca nos podemos virar para o lado e adormecer. Fica-se intoxicado pelas suas palavras e pela construção imagética onde elas repousam. A nossa cabeça estremece e assim fica durante horas e dias. Aquilo que trouxe para a poesia portuguesa em termos de forma e conteúdo, trazendo clássicos como Camões, textos bíblicos como o Apocalipse, imagens arcaicas da sexualidade e do corpo feminino nos seus ciclos de fertilidade e morte, fazem com que nenhum poeta hoje possa escrever sem se posicionar perante ele –tem obrigatoriamente que conhecer o mais rebelde dos poetas portugueses.

A sombra da morte

“A cabeça ficara marcada invisível, mas quando me deitava de costas, na escuridão, sentia uma queimadura na têmpora, a crosta fervendo por baixo, da nuca à testa. Interpretava-a como uma cicatriz que me acompanharia até à morte, o emblema de uma guerra assombrosa de que já esquecera os pormenores e o sentido. Estava ali, ficava ali para sempre, confundia-se insondavelmente com o destino. No entanto, essa marca garantia que eu era livre, que findava nela (…) o meu destino seria daí em diante irredutível, não me sujeitava a nenhuma regra alheia (…) porque o prestígio da poesia é menos ela não acabar nunca do que propriamente começar (…) Vivemos demoniacamente toda a nossa inocência.”

Servidões

“Servidões”, de 2013

 

Entrar neste texto que abre Servidões (2013) significa podermos aceder a um espaço mais íntimo, quase autobiográfico, do mais desconhecido e mais amado poeta português da segunda metade do século XX e início do século XXI (a unanimidade crítica, contudo, só foi alcançada em 2008 com a ficção A Faca Não Corta o Fogo).

Depois de quase 60 anos e 30 livros  a escrever o sublime num arrebatamento onde o humano se projecta e se refracta no devir cósmico, desocultando ligações arcaicas e obscurecidas, resgatando os milénios, a cadeia de antepassados da história à cultura, da mitologia à religião, Herberto escreve aquilo que Maria Estela Guedes, a primeira a debruçar-se ensaisticamente sobre a obra do poeta (Herberto Helder, Poeta Obscuro, 1979), diz serem o seus “livros negros”: A Faca Não Corta o Fogo, Servidões e A Morte sem Mestre.

“Nestas últimas obras a morte é uma presença que se torna igual à vida. Já não há separação entre o belo e o terrível, o alto e o baixo, ele é um homem magoado, sem horizonte, como qualquer pessoa fica a partir de uma certa idade. Quem criticou estes livros e os considerou menores não compreendeu que eles são apenas a outra face da mesma moeda, de quando o arrebatamento já não segura a esperança”, afirma a crítica, que não via Herberto desde os anos 70 mas sabia ser uma das poucas cuja opinião o poeta considerava.

A Morte Sem Mestre

“A Morte Sem Mestre”, último livro de Herberto, de 2014

 

Já sobre estes obras recentes escreveu Helder Macedo: “O Herberto nunca perdoou. Servidões é o corolário da sua intransigência, o testemunho da sua fidelidade a si próprio. Por isso é também um livro fantasmático escrito neste tempo dos amigos mortos. Recordo alguns que não quero esquecer. Dos pintores, o João Vieira, o Gonçalo Duarte, o João Rodrigues, o José Escada. Dos escritores, o José Manuel Simões, o José Sebag, o Manuel de Castro, o José Carlos Gonzalez, o Virgílio Martinho, o António José Forte, o Ernesto Sampaio (…). A Morte Sem Mestre é um livro de dilacerante poesia e de extraordinária coragem. É o testemunho de uma alma que se recusa ser roubada, mesmo pela morte que não pode estar longe, escrito quando a morte já não pode ser oculta na linguagem em que se manifesta por ser uma realidade cronologicamente próxima que é o fim de toda a linguagem e de toda a poesia. Mais ainda, é o livro de um poeta que recusa imitar-se a si próprio. Que desnuda a sordidamente gloriosa matéria humana que sustenta o mito em que o pretenderam neutralizar. É carne viva arremessada a canibais desdentados.”

Um poeta que não tinha onde caber

Nascido no Funchal a 23 de Novembro de 1930, com ascendência judaica, Herberto Helder de Oliveira viu morrer-lhe a mãe aos oito anos de idade — e talvez por isso, a figura materna associada à beleza, à loucura e à morte é uma das imagens recorrentes da sua lírica.

Aos 17 anos muda-se para o continente, ingressa na faculdade de Direito em Coimbra, que abandona, viaja pela Europa. Essa viagem é ficcionada em Os Passos Em Volta, essa obra ímpar da literatura portuguesa, onde diz: se eu quisesse enlouquecia.

No final dos anos 50 envolveu-se na campanha de Humberto Delgado, depois partiu para Angola, onde trabalhou como repórter, viveu ainda nos Estados Unidos, e só depois do 25 de Abril de 74 se fixa em definitivo em Portugal. Pelo meio há amores e desamores, casamentos e dois filhos, Gisela Ester Pimentel e o jornalista Daniel Oliveira.

Reconhecido como um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, Herberto é um artista muito amado, um poeta de culto e um homem enigmático. Recusou em 1994 o prémio Pessoa, no valor de 35 mil euros, apesar de viver com uma reforma de apenas 600. Em 2007, foi proposto pelo PEN Club português para ser candidato ao Nobel da Literatura. Mas ninguém duvida que, caso tivesse ganho, teria recusado.

Depois de publicar na Contraponto e na &etc, o poeta passou a publicar na Assírio & Alvim, mantendo uma fidelidade absoluta ao seu editor Manuel Rosa. Em 2014, Herberto surpreende tudo e todos ao aceitar mudar-se para a Porto Editora, publicar um livro envolto em estratégias de marketing e — pasme-se — deixar-se fotografar para a objectiva do fotógrafo Alfredo Cunha.

Foto de Alfredo Cunha

Herberto Helder fotografado no início de 2015 por Alfredo Cunha

 

As fotografias foram reveladas recentemente no Facebook do seu novo editor, Manuel Alberto Valente, e são um testemunho comovente da face envelhecida do bardo, por mais que saibamos que como dizia Octavio Paz, a obra do poeta é a sua biografia, e portanto nenhuma fotografia nos dará uma imagem tão fiel de Herberto quanto as suas palavras. Ou, como escreveu a filóloga italiana Maria Bocchicchio: “A beleza extraordinária dos seus textos é, em si mesma, um acto poético de transfiguração do mundo. Como na Bíblia, eles abrem a pista para que o homem em toda a sua solidão existencial e anímica possa contactar e dialogar com o transcendente.”

Disco Herberto

Um dos discos onde Herberto lê alguns dos seus poemas, este lançado em 1968

 

Apesar não se expor, Herberto editou em 1968 um single em vinil onde lê alguns dos seus poema, entre os quais, “Havia um homem que corria”, e, mais tarde, um outro intitulado Poemas de Herberto Helder, que circulam hoje no YouTube e onde podemos ouvir a sua voz densa e solene: “e a minha cabeça estremece”.

 

Recentemente, Herberto voltou a repetir a experiência num CD que acompanha o livro A Morte sem Mestre.

Em tempos de sôfrego mediatismo, Herberto impressionava-nos pelo seu majestático silêncio, pela contínua capacidade de escrever poemas assombrosos. Nunca deixou que a sua dor “se tornasse académica”, mas agora começa uma nova vida que “tem que passar obrigatoriamente pelas universidades e pelos currículos escolares”, como diz Maria Estela Guedes. “Herberto nunca será um poeta popular. É um poeta amado por muitos, mas lido por poucos. Agora há que tratar de trabalhar na sua fama para que ele passe a ser lido por muitos.”

Tantas horas passadas sobre a notícia da morte do mestre, quase nenhum político se manifestou, e só os funcionários habituais da poesia e da cultura vieram a público falar de Herberto. Os amigos, como Helder Macedo ou Manuel Rosa, preferem guardar o silêncio que ele gostaria que guardassem. Mais do que nunca, é hora de ler a sua poesia. Como ele disse num poema antigo:

a sombra carregará os meus sentidos
de distância
como se tudo fosse o cheiro
que as ervas pungentemente perdem
através do silêncio.