A Escala de Scoville é um tipo de classificação usado para medir o grau de ardência ou pungência de plantas, nomeadamente malaguetas. Há as inócuas que picam pouco ou nada e por aí prossegue até ao picante intolerável. As sitcoms, o mais comum no palato de comédia para televisão, podem ser colocadas numa sistema semelhante: há aquelas que pouco ou nada picam, abraçando fórmulas testadíssimas e usando a bengala das gargalhadas enlatadas; e depois há aquelas que nos deixam a arder num misto de confusão e regozijo. Imaginem, portanto, uma escala que vai de “Big Bang Theory” (sitcom que tresanda a anos 90 e que só nos aquece por causa do reconhecimento estereotipado) a “Louie” (a série semi-autobiográfica do cáustico e torturado Louie CK, que por vezes até se afasta completamente do território do humor).

“Modern Family”, que estreia agora a sua oitava temporada (neste dia de Natal, a Fox Comedy passa os nove primeiros episódios, todos de seguida, a partir das 18h15), tinha tudo para ser um produto nada interessante e nada pujante. Morno, morninho. Sem piquinho. Em 2009, o território das sitcoms sobre famílias era um território estafado. Mais: a opção pelo estilo mockumentary só lhe dava um ar ainda menos original, depois do sucesso de “The Office” ter lançado a moda. Mas a saga de uma família dividida em três núcleos foi um êxito de audiência e de crítica instantâneo. Raras vezes os números batem certo com a validação do meio, mas “Modern Familiy” conseguiu essa proeza logo na casa de partida, com um primeiro episódio focado na adopção por parte do casal gay da trama. Óptimos diálogos, personagens consistentes e um tom muito próprio salvaram-na da maldição de ser mais uma série sobre desaguisados no lar. Reinventou o formato. E assim limpou os Emmy com a primeira temporada. E com a segunda. E a terceira. E a quarta. E a quinta.

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Mas quando David se torna em Golias, as pessoas deixam de torcer tanto por ele. A sitcom fez-se instituição e com isso vieram os primeiros bota-abaixo. Que os episódios eram todos semelhantes, que as personagens têm pouca sensibilidade, que o formato se estava a tornar óbvio. As audiências ressentiram-se (apesar de continuar com números de fazer outras sitcoms salivarem) e a crítica partiu em busca de pastos mais verdes e frescos de novidade. Nos Emmy deste fim-de-semana, a série estava nomeada mas não fazia sequer sombra aos seus opositores (foi “Veep” a vencedora). O campo de batalha das sitcoms sobre famílias viu surgir apostas como “The Goldbergs” (que opta pela nostalgia 80s), “Fresh Of The Boat” (sobre uma família taiwanesa nos anos 90 — a nostalgia de novo) e sobretudo “Black-ish”, que se destaca por se focar numa família afro americana e analisar recorrentemente questões raciais e até temas sérios como a brutalidade policial.

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A isto acrescente-se a tensão que paira dentro da própria estrutura de “Modern Family”. Steve Levitan e Christopher Loyd, os criadores, juntaram-se não por serem amigos mas por serem business partners, estrategas com um plano. Daí às diferenças criativas foi um pulinho. De tal modo que os episódios estão blindadamente divididos entre ambos os guionistas, com o mínimo de contacto possível (até os contratos são diferentes, tendo a separação sido efectivada na terceira temporada). Isto leva a que a série sofra de um certo complexo de Dr. Jekyll e Mr. Hyde: uns episódios são mais fofinhos e outros bem mais cruéis, delimitando claramente os tons díspares que Levitan e Loyd queriam dar à série. Os episódios menos delico-doces são mais óbvios a partir então da terceira temporada, mas os exemplos máximos são os arcos narrativos de “Under Pressure” (quinta temporada, episódio 12, no qual a filha do meio, Alex, consulta um psicólogo para saber lidar com a família) ou ” Three Turkeys” (sexta temporada, episódio 8, sobre como na verdade nenhum dos membros da família está para aturar os outros no Dia de Acção de Graças).

Mas no meio disto tudo, “Modern Family” vai continuando um valor seguro. Fórmula? Talvez, porque acertou à primeira naquilo que devia ser. E nem assim perde algum risco: “Connection Lost”, o episódio 16 da sexta temporada, passa-se totalmente num abrir e fechar de janelas no laptop da mãe de família Claire, resultando em vinte minutos irrepreensíveis.

Mesmo assim, nenhuma sitcom consegue ultrapassar as cinco ou seis temporadas sem acusar cansaço. Chegados à oitava temporada de “Modern Family”, já quase não há crianças no elenco (sobram Lilly e o recentemente adicionado Joe) e alguns entretanto adultos não são tão interessantes quanto isso (estou a olhar para ti, Luke). Mas mesmo assim continua a ser boa televisão, da qual podemos até tirar bons conselhos para a nossa própria família muito moderna. Há oito mandamentos, o equivalente um por cada temporada.

Os mandamentos de uma família moderna

Compreenderás que todas as famílias precisam de um optimista de serviço: Phil Dunphy é adorável. Não, não é uma criança (às vezes parece), é um agente imobiliário pai de três filhos. Vê sempre o copo a transbordar. Se às vezes isso irrita os cínicos de serviço? Claro, mas alguém tem que ver o lado bom das coisas e com isso puxar os outros.

Apreciarás crianças sarcásticas que fazem comentários que não são para a idade delas: Lilly, a filha adoptiva de Cam e Mitch, tem a melhor cara de pau da série. Tem a capacidade infantil de gritar que o rei vai nu, mas a acidez de uma velhota de 70 anos que já não tem nada a perder.

Aprenderás que um casal é um casal, independentemente da orientação sexual: sempre que o tema da adopção por homossexuais vem à baila, as redes sociais enchem-se das melhores citações de Mitch e Cam (“Sabem quem tinhas pais hetero? O Adolf Hitler.”). Não foram os primeiros personagens gay em comédia para massas, mas foram dos mais influentes. O facto de nunca se beijarem na série suscitou petições e deu origem ao episódio “The Kiss” (episódio dois da segunda temporada), no qual se discute o desconforto de Mitch com demonstrações públicas de carinho. No fim do episódio, beijam-se discretamente no background de uma cena.

Refletirás sobre como as famílias misturam amor e ódio: a já mencionada cisão quase ideológica entre os criadores da série faz com que os episódios mostrem o melhor e o pior de fazer parte de uma família. Como escreveu Douglas Coupland, todas as famílias são psicóticas. Admiti-lo é o primeiro passo.

Respeitarás aquele que está fora do seu habitat natural: Gloria, a explosiva colombiana, é mais do que uns seios avantajados. A sua falta de destreza na pronúncia americana presta-se a graças, mas não se fica por aí. No episódio “Queer Eyes, Full Hearts” (temporada seis, episódio sete), Gloria farta-se das bocas e proclama: “sabes quão esperta eu sou na minha língua? “. Tornou-se numa frase chave, amplamente partilhada por pessoas que não moram no seu país natal.

Perceberás que as dores de crescimento afectam todos: ser criança não é fácil. Ser adolescente não é fácil. Notícia de última hora: ser adulto também não. Todos os personagens acusam o toque quando a vida os obriga a mudar.

Partilharás as tuas bizarrias com aqueles que não podem fugir de ti: os teus familiares. Cam adora a sua dupla vida como Fizbo, o palhaço. Phil acha que foi o melhor cheerleader de sempre. Claire é obcecada em assustar pessoas no Halloween. Se não podemos mostrar o mais destrambelhado à equipa que a genética nos deu, então podemos a quem?

Filosofarás que muita da nossa existência é uma sucessão de enganos e desenganos: a comédia de enganos é uma constante em “Modern Family” (ver, por exemplo, o puzzle de mal entendidos que é “Las Vegas”, o episódio 18 da quinta temporada). Às vezes parece que cada um está no seu planeta e que até a comunicação mais básica é física quântica. Why can’t we all just get along?

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa