Orçamento do Estado

A montanha a parir um rato

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Receber um pouco mais ao longo dos 12 meses dá liberdade ao trabalhador para escolher gastar tudo todos os meses ou poupar para as férias e para o Natal. Mas o inverso não é verdade.

Na semana passada, tivemos uma daquelas discussões bizantinas em que a política portuguesa é fértil. Estou a pensar na discussão sobre o subsídio de férias. Basicamente, a Assembleia da República decidiu obrigar todas as empresas a pagar, e todos os trabalhadores a receber, o seu salário anual dividido por 14 salários (os 12 meses mais os subsídios de férias e de Natal) em vez de receber apenas 12 salários um pouco mais gordos e dois meio-subsídios. Não sei se percebi muito bem a argumentação, mas pareceu-me que a ideia é que o trabalhador médio prefere receber os subsídios por inteiro de forma a ter mais dinheiro para gastar nas férias e nas prendas de Natal ficando com menos no resto dos meses

Como é relativamente fácil de perceber, é muito pouco lógico argumentar que os trabalhadores preferem receber os subsídios. Afinal de contas, os trabalhadores, se quisessem, podiam colocar de parte 8,3% do seu ordenado todos os meses e gastar o que tinham poupado nas férias (ou no Natal), simulando assim o pagamento dos subsídios por inteiro. Ou seja, receber um pouco mais ao longo dos 12 meses dá liberdade ao trabalhador para escolher gastar tudo todos os meses ou poupar para as férias e para o Natal. Mas o inverso não é verdade: recebendo 14 salários, é bem mais difícil para o trabalhador fazer de conta que recebe 12 salários mais gordos.

Ao discutir isto com os meus colegas, percebi que, na realidade, a Economia Comportamental explica por que motivo, às vezes, as pessoas preferem ter a sua liberdade de escolha restringida. No caso em concreto, receber 14 salários em vez de 12 evita que o trabalhador tenha de ter o autodomínio necessário para poupar para as férias e o Natal. É uma preocupação a menos, digamos assim.

Mas, ao mesmo tempo que me dei conta de que estas preferências são muito mais bem entendidas pelos comportamentalistas (chamemos assim aos teóricos da Economia Comportamental), também me dei conta de que os contributos das teorias comportamentais são bastante mais modestos do que inicialmente prometiam. É como se a Economia Neoclássica explicasse o preço da pizza — discutindo custos de produção, concorrência, diferenciação do produto e preferências dos consumidores — e a Economia Comportamental discutisse se a pizza deve ser dividida em 12 fatias ou em 14.

Estou a caricaturar, obviamente, mas, de facto, muitas vezes é esta a sensação que tenho. Muitas vezes, naquilo a que a Economia Comportamental chama comportamento irracional (ou, para recorrer ao título de um livro do último prémio Nobel da Economia, Richard Thaler, comportamento inadequado), eu apenas vejo um processo de ajustamento e de aprendizagem. Por exemplo, os comportamentalistas já explicaram por que motivo as pessoas gostam de fazer compras em saldos. Argumentam que o próprio acto de comprar, acreditando que se está a fazer um bom negócio, dá prazer ao consumidor. Já um neoclássico acha que as pessoas se limitam a comparar o preço que pagam por um produto com a utilidade que retiram do mesmo.

É muito provável que os comportamentalistas tenham razão. Mas, na verdade, parece-me bastante irrelevante. Nos anos 90, o meu irmão estava nos Estados Unidos e tinha algumas lojas de joalharia/bijuteria. Como os clientes apenas compravam jóias em saldo, o meu irmão tinha um saldo permanente de 30%. Ainda me lembro de, quando lá trabalhei numas férias, dizer a todos os clientes que entravam que havia um desconto adicional de 30% — repare-se no “adicional”, dando a entender que já tinha havido um desconto e que este era cumulativo. Obviamente, quando em casa definíamos os preços, tínhamos em conta esse “desconto” e, no fim, cobrava-se exactamente o pretendido.

O meu irmão não é caso único; 99% das vendas da JC Penney (uma grande cadeia de lojas nos Estados Unidos) são em produtos com saldo. Em 2012, o seu CEO anunciou que ia deixar de ter preços artificialmente altos e que, em vez disso, passaria a considerar preços mais baixos desde o início, acabando com os cupões de desconto. E, apesar de o CEO dizer que os preços finais eram basicamente os mesmos, a verdade é que as vendas caíram a pique e, rapidamente, tiveram de aumentar os preços para poderem fazer os devidos descontos.

Voltando à discussão sobre neoclássicos e comportamentalistas, no imediato, os comportamentalistas têm razão, e, de facto, as pessoas querem descontos, o que quer dizer que dão utilidade à sensação de fazer um bom negócio. Mas, nos fundamentos, os preços são explicados pela teoria neoclássica. É como se os neoclássicos nos dissessem que o preço deve ser 100€, enquanto os comportamentalistas nos dizem que isso é uma estupidez completa porque, na verdade, o preço certo é de 200€, ao mesmo tempo que é atribuído um desconto de 50%.

Esta sensação de que os efeitos práticos da Economia Comportamental são bastante mais modestos do que o alegado pelos seus principais autores acontece-me por diversas vezes. Por exemplo, qualquer comportamentalista saberá dar-nos várias estratégias para que as pessoas reduzam o consumo de bebidas açucaradas. Se calhar, a primeira delas será a de pôr as bebidas saudáveis em prateleiras mais acessíveis. Já eu acho que isso apenas terá efeito durante duas ou três semanas, até as pessoas perceberem onde estão as bebidas que realmente querem. Um neoclássico dirá que, se se quer reduzir o consumo destas bebidas, a forma eficiente de o fazer será criar um impostos específico sobre elas, aumentando o seu preço. E, realmente, desde que o governo introduziu o IABA (Imposto sobre o álcool, as bebidas alcoólicas e as bebidas adicionadas de açúcar ou outros edulcorantes), o consumo destas bebidas desceu.

Uma área onde a Economia Comportamental tem tido muito sucesso é a da poupança. Como levar as pessoas a poupar mais? Muito provavelmente, o comportamentalista achará o subsídio de férias ou de Natal obrigatório uma excelente medida e sugerirá que o mesmo seja pago na forma de um título de aforro. Nada tenho contra, e tenho a certeza de que uma medida deste tipo teria alguns efeitos. Mas, do ponto de vista agregado, duvido que sejam enormes. Países como os Estados Unidos ou o Reino Unido, que têm aplicado estas teorias para estimular a poupança, viram-na a aumentar, mas a verdade é que as taxas de aforro ainda estão muito longe do almejado.

Um campo onde se acreditava que estas teorias teriam um impacto enorme era o da saúde. Em particular, contava-se que os comportamentalistas nos ensinassem estratégias para que os doentes obedecessem às prescrições. Lendo os comportamentalistas, fica-se com a ideia de que basta um sms enviado no momento certo para que o doente não se esqueça de tomar os seus medicamentos. Mas a realidade, acredito, é bastante diferente. Com a quantidade de sms que recebemos (só a propósito da ‘Black Friday’ recebi mais de 10), o mais provável é que ao fim de algum tempo deixemos de dar importância aos sms e, ao invés, ponhamos os telemóveis no silêncio para não incomodar.

Ontem, ao discutir este assunto com um estudante de doutoramento, o Luís Sá, que está a trabalhar no domínio da Economia da Saúde, fiquei a saber que mesmo nesta área os resultados são decepcionantes. Num artigo publicado na revista médica JAMA Internal Medicine, em Agosto deste ano, vários médicos estudaram como os doentes reagiam a estes incentivos comportamentalistas. Ao longo de um ano, estudaram o comportamento de 1500 pessoas que sofreram um enfarte agudo do miocárdio. Dividiram, aleatoriamente, os doentes em dois grupos. Um grupo teve a monitorização tradicional. O outro grupo teve direito a um acompanhamento mais cuidado que incluía: frascos de medicamentos electrónicos que comunicavam ao hospital se os doentes estavam ou não a tomar os medicamentos, atribuíam pequenas lotarias (tipo raspadinhas) a quem tomava os medicamentos direitinhos (raspadinhas que tinham uma probabilidade de 20% de ter um prémio de 5 dólares e de 1% de um prémio de 50 dólares), amigos do paciente que eram notificados se estes não tomassem os medicamentos, etc. etc.

E quais os resultados? Não há diferenças estatisticamente significativas entre um grupo de doentes e o outro. Cito directamente da conclusão: «uma intervenção junto dos doentes que incluía frascos de comprimidos com comunicação wireless, incentivos com raspadinhas e apoios sociais não melhorou significativamente nem a adesão às prescrições médicas nem a saúde de pacientes que sobreviveram a um enfarte agudo do miocárdio».

Sublinho que não estamos a falar de uns doentes com problemas menores, mas sim de pessoas que sofreram ataques cardíacos. Se nem com este público a Economia Comportamental obtém resultados satisfatórios, o que esperar do seu impacto geral? Apesar de o galardoado com o Prémio Nobel da Economia deste ano, bem como alguns outros anteriores, ser desta área, a verdade é que esta ex-heterodoxia, que em tempos prometeu abalar o edifício neoclássico, é uma promessa adiada.

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