Lisboa

Apaguem as luzes de Carnaval

Autor
2.024

Antigamente dava gosto atravessar as ruas e ver pais e filhos, avós e netos pela mão, a passearem devagar, com tempo para admirar as luzes de Natal. Agora é um desgosto percorrer as mesmas avenidas.

Abomináveis luzes estas, que espalharam pela cidade de Lisboa, quase todas frias, azuis, brancas, geladas, ou em combinações coloridas de tal maneira histriónicas que ficamos meio estonteados. Nas ruas da Baixa o carnaval é total e há laços e laçarotes pendurados entre prédios que parecem gigantescas mascarilhas venezianas. As colunas do Teatro Nacional D. Maria II foram recobertas de uma terliça toda branca florescente, em quadrados, e quando aquilo acende a fachada torna-se deslumbrante aos olhos de quem adora entradas de casino. Que moda esta, das luzes hiper coloridas, dos mantos eléctricos cheios de brilhos, das inconcebíveis teias de aranha iluminadas que nada têm a ver com a época, nem com a nossa cultura. Já nem falo dos ícones, porque deixou de haver anjinhos e até o pai Natal e as suas renas foram despedidos.

Não sei quem escolhe as luzes ano após ano, mas estão à vista as intenções e os propósitos. É um azar que no Natal se acendam luzes de Carnaval, mas se ao menos estas luzes de feira fossem menos azuis e mais douradas, ou encarnadas e quentes, a cidade brilharia de outra maneira. Assim parece tudo comprado na ‘loja do chinês’ (sem ofensa para os chineses, note-se, até porque conheço muitos, muito bons, e tenho grandes alunos na universidade que nasceram ou vieram da China e, até agora, não houve um único que não fosse inspirador para nós, professores!) e muitas ruas e avenidas parecem alamedas a dar entrada para uma gigantesca feira popular.

Antigamente dava gosto atravessar as ruas e ver pais e filhos, avós e netos pela mão, a passearem devagar, com tempo para admirar as luzes de Natal, mas agora é um desgosto percorrer as mesmas avenidas. Passamos e fugimos, a tentar não olhar. A fingir que não vemos, para não embaraçar ninguém. Deixou de ser um programa, pois ninguém se orgulha de ter parte da cidade iluminada com luzes verde-farmácia-choque, conjugadas com encarnados eléctricos e azuis metálicos, tudo muito feio e tudo muito triste. Ou então muito feérico, mas despropositado.

Há excepções, felizmente, mas são poucas. E nem sequer estão todas no perímetro do centro histórico da cidade. Muitos dos bairros mais antigos de Lisboa foram desfeados com estas luzes de marquise, todas néon, a brilhar como pedras falsas, num novo-riquismo desconcertante. Para cúmulo, não há harmonia entre luzes colocadas ou permitidas numa mesma praça. No Rossio, por exemplo, há de tudo. Árvores de troncos iluminados a encarnado e dourado (vá lá, valha o bom senso), mas descombinadas com um sem-número de enfeites aleatoriamente pendurados, que não condizem com nada, mais algumas lojas hiperbolicamente cobertas de prateados e azuis, a flashar sobre quem passa.

As luzes de natal não são uma futilidade, nem se acendem e apagam de um dia para o outro, muito pelo contrário! Há procedimentos complexos, as montagens são demoradas e tudo obedece a preceitos camarários. E se assim é, pergunto mais uma vez quem se encarrega de escolher as luzes? E quem aprova estas e não outras? E quem assina os recibos e paga as facturas? Será que escolhem tudo isto num catálogo? Será que compram online? Será que confiam demais nos fornecedores e aprovam de olhos fechados, sem ver o efeito final? Sinceramente não sei, mas custa-me acreditar que ninguém veja o que está à vista, pois todos sabemos que é também graças às luzes de Natal que o comércio floresce nesta época. Os comerciantes sabem isso e as autoridades camarárias idem. Então, se assim é, porque não escolher melhor e com mais critério?

E porque não tentar manter as luzes que Lisboa sempre teve nos bons tempos, quando eram todas muito mais bonitas, bem desenhadas e cuidadas? Há uns anos as luzes eram quentes, douradas, encarnadas e prateadas. Havia luzes verde-escuro, lindas e bem conjugadas, não havia este verde-falsete, hiper brilhante, todo plástico e sem graça. Custa imenso ir de mal em pior. Ninguém gosta de sentir que passa de cavalo para burro, mas na verdade é o que acontece em matéria de luzes de Natal. E não só, infelizmente.

Claro que há coisas muito mais graves e prioritárias, sei isso muito bem, não precisam de me lembrar, mas há um tempo para tudo e cada coisa tem o seu lugar. Estas luzes feias ferem os olhos e a sensibilidade, é impossível deixar de o dizer. Pode ser que não esteja sozinha, nesta minha desolação, e se assim for, pode ser que no próximo ano substituam quem fez estas encomendas. Ou mudem de fornecedores, se for caso disso. Se calhar eles nem têm culpa e até mostram catálogos com coisas bonitas. Talvez não fosse pior pagar uma viagem low-cost aos encarregados das luzes de Natal para verem como se faz noutras cidades da Europa, onde os pontos de luz são fabulosamente simples e enchem árvores, ruas e avenidas de beleza e alma.

Enfim, numa altura em que Lisboa ainda está caótica e cheia de estaleiros, em que as filas de trânsito são cada vez mais densas e as horas de pára-arranca nos fazem perder tempo e revirar os olhos de impaciência, num tempo em que há cada vez menos lugares de estacionamento e menos carruagens no Metro, em que muitos transportes públicos demoram eternidades a chegar, é impossível não nos determos nas luzes de Natal sem nos indignarmos com estes ponchos sul americanos postos em oblíquo a todo o comprido do Príncipe Real, bem como com os fios que caem tristemente das árvores, quais guias a precisarem de ser podadas imediatamente.

Perante a escolha deste ano, preferia apagar quase tudo o que se acendeu e guardar para o Carnaval. Gostava de voltar a ter a minha cidade com a sua habitual dignidade. Lisboa como era antes, com enfeites de Natal tradicional. Ou, então, como se vê em Londres e Nova Iorque, onde todos os anos as árvores e ruas se enchem de pontos de luzes natalícias. Também sem ícones e sem referências religiosas, mas muito simples e muito bonitas. Acima de tudo despretensiosas. Passamos a vida a tentar recuperar tradições e a dar lustro ao que é antigo, mas desta vez Lisboa parece Las Vegas.

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