Liberdades

Mais liberalismo ou menos socialismo?

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Para galvanizar a juventude para o liberalismo não basta o "argumento da superioridade moral do individualismo": é necessário remover o incentivo para que depender do salário de Estado seja atraente.

Foi com muito gosto que li o artigo do Telmo Azevedo Fernandes aqui, no Observador, com título “Liberalismo, sempre!” Inspirado pela honestidade e — porque não? — paixão emanada para um Portugal menos amarrado a um modelo medíocre e pouco robusto perante a conjectura externa, decidi escrever este texto como resposta, esperando, inclusivamente, que mais pessoas se proponham a fazer o mesmo, levando à constituição de um corpo documental que ajude a perceber onde estamos e para onde vamos como nação.

De facto, precisávamos de mais liberalismo. Porém, o problema desta escola de pensamento — assim como de outras —, em 2017, reside no sufixo *-ismo*. A ideologia dominante é a ausência de ideologia, uma convergência ecuménica de tudo para gerar uma amálgama de nada. A própria Geringonça encarna o conceito: agremiação de socialistas que parecem comunistas com bloquistas que parecem arrivistas e comunistas que parecem arcaístas numa heterogénea combinação de hipocrisia com oportunismo caracterizada pela ideologia dominante do *vamos-lá-ver-ismo*, a mutação do socialismo balofo em despesa insustentável do século XXI.

As pessoas respondem a incentivos. O incentivo é defender quem quer que afirme assegurar o salário e a reforma ao fim do mês. Com grande parte da população a depender de salário e reforma oriundos dos cofres do Estado, a ideologia natural é a da protecção do modo de vida e do que quer que aparente menos mudança. Nada que as leis fundamentais da termodinâmica não expliquem. Não é de estranhar que uma das noções mais criticadas pela *intelligentsia* durante a governação de Passos Coelho fosse a da inevitabilidade de saída da zona de conforto. Isso não!, tudo menos adaptar-mo-nos; queremos que nos assegurem que tudo correrá bem, que nada nos causará transtorno. Toma uma carinhosa festinha maternal na cabeça, meu menino; um dia falar-te-ei de entropia.

O que me leva à política de causas. As causas são a pontuação de um discurso desprovido de ideologia. São o enquadramento para que o nada intelectual e o vazio ideológico aparente incluir alguma componente política. Para não se discutir se é possível que uma minoria fustigada continue a manter o balofo aparelho de Estado, discute-se se o Estado deve providenciar uma forma legal de extrema-unção a que chamam eutanásia; em vez de se discutir se é possível manter uma carga fiscal elevadíssima e, mesmo assim, insuficiente para as despesas do Estado num mundo globalizado de concorrência que gera eficiência, discutimos se os homossexuais têm que ter acesso à instituição do casamento, aquela que há poucas décadas era considerada pelos progressistas como opressora da liberdade individual. As causas são, também, a forma como pessoas se podem afirmar num espectro de concorrência feroz através do “parecer bem”. Se o leitor quer ser chamado para conferências, simpósios, artigos de opinião, capítulos de livros, copos no Bairro Alto e convivência mais ou menos pacífica com o grupo restrito de urbanos que vê a província com a bonomia pitoresca associada aos rústicos, a probabilidade de o conseguir é muito maior se mostrar uma empatia fingida pelas minorias e causas esotéricas como as proto-religiosas de identidade de género.

As causas são irrelevantes para a mole humana dos portugueses. São o preço a pagar para que todos possamos fingir que nos interessamos por mais do que a nossa vidinha e a estratégia dos partidos para fingirem que professam ideologias ou, no caso dos mais autoritários, para as ocultar. As consequências são a engenharia social progressiva e o aumento do volume de queixas indignadas pelo absoluto nada, como as oriundas de “micro-agressões” ou do suposto ridículo direito a não ser ofendido.

Podemos ter mais liberalismo e podemos, inclusivamente, acabar por perder o epíteto de “país socialista”. Mas, para o efeito — e é aqui que discordo de ti, amigo Telmo —, para galvanizar a juventude, não basta o “argumento da superioridade moral do individualismo”: é necessário remover o incentivo para que depender do salário de Estado seja atraente. E, para isso, a demografia envelhecida e a falência do Estado obeso farão mais pela necessidade de mudança que qualquer acção que os liberais possam directamente promover.

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