Não queria escrever este texto. Sinto que ao fazê-lo serei interpretado como tentando agarrar-me a uma quimera, a um tempo que já não existe; e, contudo, ao escrevê-lo, reconheço que apenas manifesto as dores de crescimento de uma infância que acabou passada em terra imaginária congeminada na minha mente. Uma terra povoada de míticas figuras e pensamentos liberais, que, a qualquer custo, rejeitariam heroicamente qualquer legislação que vise permitir o extermínio de pessoas.

Genocídio dos inúteis. Chamam-lhe eutanásia, talvez pela impunidade que o escárnio sobre outros tem, mas é disso que se trata: do extermínio, pelo aval de estado, por agente executor ao serviço deste, de pessoas a quem o próprio estado falha em providenciar meios para que reconheçam a dignidade em vida. Chamam-lhe “morte digna”, como porventura um guarda de campo de concentração também chamaria, naquele jeito jacobino de que a guilhotina purifica. No nosso tempo, pela guilhotina da dita misericórdia de livrar o mundo dos que só dão despesa, dos feios, dos paralíticos, dos malcheirosos, porém, o princípio é o mesmo. Hoje são doentes, amanhã, pela permanente redefinição de liberdade, poderão ser os que padecem da condição incurável de terem pele mais escura. Albinos, aborígenes, esquimós, ciganos. Muçulmanos ou católicos. Tanto faz qual é o ser a cessar de o ser: o estado julga o seu sofrimento e termina-o. E nós aplaudimos. Nunca foi estado eficiente para nada, mas desta é que é, desta é que vai ser infalível a aferir sofrimento e vontade. Nunca confiou nas pessoas para nada, mas desta é que vai ser, se diz que quer morrer, é garantido, não restam dúvidas, confie-se: tiro na nuca, guilhotina ou injecção letal. Injecção letal é melhor, não é preciso limpar nada no fim.

Sem pejo, sem nojo e sem a misericórdia de um esgar dos cínicos, reiteram que é a liberdade. Nenhum usa fralda ou sequer é maneta, mas sabem exactamente em que consiste a tal de liberdade: resume-se à benesse que o estado providencia, um rebuçado atirado à plebe inútil, não esclarecida, uma mole de meros objectos materiais cuja função é pagar impostos e desistir de viver em prol da causa, o próprio estado, quando passam a receptores de pensões de subsistência. Só se existe para servir o senhor feudal da perpétua máquina trituradora de humanidade.

Muito se argumenta sobre rampas descendentes, nomeadamente dos perigos de atribuir ao estado a decisão de aceitar ou rejeitar o que alguém faz com a vida – incluindo abdicar dela – através de acto burocrático e meramente administrativo. São argumentos válidos, mas este país não é para argumentos, nem estes servem para coisa alguma. Não, este é um país onde os humanistas de serviço encontram um Ramón Sampedro em cada esquina, uma massa informe de sofredores ansiosos por terminarem a vida, impedidos de o fazer conquanto a bondade do legislador não lhes proporcionar a absolvição de um pecado laico, o de não servirem mais o país. Não são seres com famílias, com filhos ou com pais, são seres autónomos, isolados do mundo, cuja cessação de existência por via estatal não causa dor a alguém, só júbilo comunitário pela nossa própria arrogância individualista, a que nos permite sermos isoladamente livres, sem responsabilidades, sem obrigação para com outros. Morreu o contribuinte com determinado número e aquilo nem é gente. São drones, objectos fonte de receita e originadores de despesa. Autorização, absolvição, expulsão do demónio da civilização que insistiu, com altos e baixos, progredir para a imoralidade de penas de morte, agora a moralizar como acto de heroísmo o pedido de inexistência. Pedido, não: a exigência. É criar uma população, começando por cada corredor de hospital, que cumpra o sonho húmido de uma população canónica de belos apresentadores de televisão, vegans que não consomem sal, não fumam, não bebem, não vão à tourada e tratam o cão por filho. Ou, quem diz apresentadores de televisão, diz de políticos, de deputados, de jornalistas e de cronistas, de gente educada, bonita, sapatinho fino, pop stars que nunca se peidam. Estado eugénico, como dantes, seja quem for o Abrantes.

Isto vai ser aprovado. Como expliquei, não pretendo parar o inevitável “progresso” que liberais e socialistas desejam. Há-de haver um velho a pedir para que o matem e há-de noticiar-se a vitória da humanidade que foi clinicamente conceder-lhe a ida para o matadouro. E, logo a seguir, notícia sobre o “tratamento humano” para galinhas. Proibição do foie gras, coma-se antes o inútil ex-criador de gansos paraplégico. Todos baterão palmas, festejando a derrota do obscurantismo religioso, a vitória do novo Iluminismo da “liberdade”, o mesmo Iluminismo que enojado de sangue de touro dá vivas ao sangue humano e que finalmente acabou com o interregno da pasmaceira com abolições de pena de morte. Até a Greta deve achar bem, logo está certo. How dare you? How dare you não me executarem?

O novo partido Iniciativa Liberal apoia a barbaridade. Não lhe chamam carrasco, chamam-lhe médico sem saberem em que consiste essa profissão; não lhe chamam execução, chamam-lhe “suicídio assistido”. No entanto, por muito que se pintem de liberais, não conseguem retirar o cheiro a jacobinos. Que lhes faça bom proveito, a eutanásia. No meu mundo imaginário, o que agora abandono, estes jacobinos fazem bem menos falta do que os desgraçados que condenarão à morte. Na velha tradição jacobina, também acabarão na guilhotina. Sempre em frente, soldados! Mas, no mundo real, neste admirável mundo novo, é nesta paragem que saio do autocarro. Não faço qualquer falta às ideologias de guilhotinas. Às ideologias que tornam hospitais em campos de morte. Isto é tempo de voltar para a caverna, senhores, é regressar às catacumbas de onde nunca devia ter saído. Fui ver o mundo à procura de luz e só encontrei o horror da escuridão.