Logo Observador
Bloco de Esquerda

O “Santo” Louçã

Autor
1.541

Como podem existir ainda dúvidas sobre as intenções de Louçã e do Bloco? Um mistério. Aliás, não deixa de ser irónico que uma estação de televisão privada ajude à sua beatificação política.

1. Há uma beatificação em curso de Francisco Louçã. As “missas” semanais na SIC Notícias, às sextas feiras, são o momento alto do beato Francisco. Fala com uma candura quase emocionante, tratando os jornalistas pelo primeiro nome, indicando uma proximidade humilde e simples. Estes, cheios de respeito, usam o termo “Professor” (muito gostam os portugueses dos Professores, e quanto mais ignorantes mais os admiram). Para reforçar o seu lado humano e culto, fala de livros no fim do comentário, mostrando que os seus interesses vão muito além da política, o que obviamente não passa de uma encenação de um politico profissional (os Portuguese também admiram imenso quem lê livros. Deve ser o único país da Europa onde ler livros é visto como uma prova de superioridade intelectual, mas o único onde manifestamente não é).

Mas o processo de beatificação do Santo Louçã não se limita à televisão da Carnaxide. O democrata cristão Bagão Félix também ajuda, com a coluna a três no jornal Público. O governo deu um grande empurrão, escolhendo Louçã para o Conselho de Estado e para um Conselho Consultivo do Banco de Portugal. Muitos portugueses começam assim a olhar para Louçã como um antigo radical transformado num simpático e erudito Professor, (aquele ar de sacristão também ajuda). Tudo isto não passa de uma ilusão. Louçã não deixou de ser um revolucionário defensor de um projeto político totalitário e, além disso, tem aperfeiçoado o seu profissionalismo político. Louçã não faz nada por acaso. As intervenções, as palavras, os gestos, os olhares, as posses obedecem a uma estratégia política. Em Louçã, tudo é político.

O que se passa na Venezuela mostra a natureza totalitária do pensamento de Louçã. Os movimentos neo-Marxistas europeus, sobretudo o Bloco de Esquerda e o Podemos, em Espanha, apoiaram desde o início a revolução e o regime de Chavez. Quando Chavez chegou ao poder em Caracas, era visto como uma inspiração e um modelo. Esta proximidade ao Chavismo foi sempre mais do que uma identificação ideológica. Houve uma relação orgânica próxima entre os neo-Marxistas ibéricos e os revolucionários venezuelanos. Fizeram uma aliança política, com contactos permanentes e apoios institucionais. Agora que o Chavismo está a chegar ao fim, submetendo o povo venezuelano à fome e à violência, tornou-se incómodo para os bloquistas falar do que se passa em Caracas. Por exemplo, nos sermões da SIC Notícias, nunca há uma referência sobre o que se passa na Venezuela. Louçã fala de tudo e mais alguma coisa, mas das mortes nas ruas de Caracas, nas ameaças aos portugueses que vivem na Venezuela, nada. Nem uma palavra. Para a versão beata de Francisco Louçã, a Venezuela deixou de existir.

Mais uma vez, o silêncio e as aparências não devem criar qualquer ilusão. Se um dia Louçã e o Bloco chegassem ao poder, tudo fariam para fazer de Portugal uma Venezuela europeia. Bem sei que parece absurdo, mas eles não o escondem. Atacam o capitalismo e a economia de mercado, não querem o Euro, defenderam Chavez desde a primeira hora, são Marxistas revolucionários. Eles nunca o esconderam. Sempre disseram que gostavam do socialismo Chavista e que não gostam da UE do Euro. Como podem existir ainda dúvidas sobre as intenções de Louçã e do Bloco? Um mistério. Aliás, não deixa de ser irónico que uma estação de televisão privada ajude a beatificação política de Louçã. Seria uma das primeiras vítimas de um poder bloquista em Portugal. Se há dúvidas, vejam qual foi o destino das televisões privadas nas Venezuela. Vão ver o que Chavez lhes fez.

O modo como Louçã trata as cativações orçamentais do governo mostra o político profissional. Por um lado, critica, mas de um modo suave, sem a agressividade do Bloco e do PCP. Mas por outro lado, responsabiliza o anterior governo pelo estado dos serviços públicos, acabando a defender o executivo de Costa. Mais uma vez, não vale a pena ter qualquer ilusão. Mariana Mortágua pode gritar e gesticular com Centeno na Assembleia da República, mas o Bloco dará o seu apoio e o seu voto ao Orçamento do próximo ano, e com as cativações que forem necessárias. O Bloco necessita de criticar as cativações para segurar o eleitorado mais radical e não o deixar regressar ao PCP, mas não fará nada que ameace a geringonça.

Como todos os movimentos revolucionários, o Bloco é sobretudo um partido de poder. O discurso ideológico não passa de um embrulho para disfarçar as estratégias de poder. A realidade política nacional impede que o Bloco faça alguma coisa que ponha em causa o apoio ao governo socialista. Os bloquistas sabem que quem derrubar a geringonça e provocar eleições antecipadas, será penalizado pelos portugueses. Ninguém quer eleições antecipadas. Por isso, o Bloco apoiará o governo até 2019. A verdade é simples. Para manter o seu eleitorado e o poder que a geringonça lhe dá, o Bloco aceita a degradação dos serviços públicos e é cúmplice do governo no exercício da austeridade escondida. O discurso anti-austeridade não passa de uma encenação cínica.

Mas há uma segunda razão que explica o apoio do Bloco ao governo até 2019. Louçã não quer eleições antecipadas. O Bloco faz o que Louçã quer. Já toda a gente percebeu que Louçã continua a fazer política e a liderar o Bloco. Aquelas meninas com cara de más e sorrisos de anjos não passam de funcionárias políticas do Bloco e de Louçã.

O Santo Louçã tem duas ambições políticas. Ser ministro das Finanças em 2019 ou candidato presidencial em 2021. Se em 2019, o PS precisar do Bloco para chegar à maioria absoluta, haverá uma coligação governamental. Nesse caso, como é habitual, o partido menor terá o MNE ou as Finanças. O Bloco nunca poderá ter a chefia da diplomacia nacional por causa das suas posições radicais em matéria de política externa (como é conveniente para Louçã, o Bloco ser contra a NATO). Resta assim a pasta das Finanças. E depois do Conselho de Estado e do Banco de Portugal, quem poderá dizer que Louçã é um radical em matéria de finanças públicas? E não é verdade que há uma longa tradição nacional de escolher Professores de Economia para o ministério das Finanças? A tradição é tão forte que ultrapassa divisões de regimes e de famílias políticas.

Mas se o PS alcançar a maioria absoluta, ou continuar a precisar da geringonça a três, e o Bloco continuar excluído do governo, uma candidatura a Belém será o destino de Louçã. A sua “saída” do Bloco serve esse propósito. Louçã precisa de crescer mais do que o Bloco e entrar no eleitorado do PS. Num cenário de Costa ainda em São Bento, em 2021, Louçã aspira a tornar-se no principal candidato presidencial das esquerdas. Uma derrota honrosa com Rebelo de Sousa, defendendo os “valores” da esquerda serve para marcar posição para o pós-Marcelo, o que verdadeiramente lhe interessa. Sabemos que Costa está convencido que a sua habilidade tudo derrota, mas ao deixar Louçã entrar no eleitorado do PS, ajudando à santificação de Louçã, pode estar a criar um monstro que um dia terá que combater.

2. Discordo daqueles que defendem as demissões dos ministros da Administração Interna e da Defesa. Nada adianta. Eles não são o problema. O problema é o governo. E, se saírem, não me espantaria que os substitutos fossem piores. Quem defende a demissão, acredita que Costa escolherá melhor da próxima vez? Eu não acredito.

3. Já não vale a pena discutir as famosas férias do PM. Fica apenas uma observação. Portugal inteiro reparou que, num momento crítico para o país, o PM foi de férias e o Presidente ficou a trabalhar. Com o tempo, a discussão sobre a marcação ou a desmarcação das férias será esquecida. Mas a comparação entre Costa e Marcelo ficará para sempre na memória dos portugueses.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Estado

Acabou o namoro entre Marcelo e Costa

João Marques de Almeida
3.651

“2017” não é, claramente, “2016” O estado de graça de Costa acabou-se. Regressado das férias, cometeu um erro enorme: para relativizar o roubo das armas de Tancos, traiu o Presidente da República.

Fogo de Pedrógão Grande

Não veio o diabo mas veio o inferno

João Marques de Almeida
1.083

Como não podia deixar de ser, no meio da irresponsabilidade geral, não faltaram os apelos do primeiro-ministro à “unidade nacional”. Perante uma crise, os instintos do Estado Novo surgem imediatamente