Logo Observador
Crónica

Quanto tempo falta para seu casamento acabar?

Autor
2.681

O que vejo por aí são dezenas e dezenas de casais que resolver decretar o fim do casamento simplesmente porque andam se desentendendo muito. E, sobretudo, por banalidades.

“Não sei se meu casamento aguenta até o fim desse ano”, disse uma amiga. Ela começou a narrar que as coisas estavam cada vez mais difíceis, que as opiniões dela e do marido nunca se harmonizavam, que estavam sempre se desentendendo e viviam aborrecidos um com o outro. Então eu perguntei “e o que vocês já fizeram para tentar resolver isso?”. Ela me olhou como se eu tivesse feito uma pergunta estranha, inesperada e sem cabimento.

Percebi nesse momento que eles tinham tomado os desentendimentos e aborrecimentos como verdades absolutas dentro da relação. Consideraram-nos fatos contra os quais não havia nenhuma condição de lutar, dando-lhes uma espécie de vitória automática.

Realmente, dividir a vida com alguém não é uma tarefa fácil. Porque, se frequentemente nos aborrecemos com nós mesmos (não guardei as roupas que estão em cima da poltrona, esqueci de pendurar a toalha, esqueci a garrafa de água para fora da geladeira…), não é difícil imaginar a dificuldade de lidar com os erros do outro. E essa é a apenas uma pequena parcela dos desafios da vida a dois. Porque os projetos podem destoar muito uns dos outros e a forma de ver a vida pode ser oposta.

E, realmente, quando duas pessoas já têm perspectivas muito diferentes acerca do futuro, o casamento perde o sentido. Quando não é mais possível fazer planos conjuntos, dividir projetos e harmonizar ideais, a relação torna-se inócua. E não faz sentido algum manter uma vida partilhada apenas em nome das aparências, da segurança financeira ou do comodismo. Nessas horas, de fato, os casamentos precisam ser repensados.

Mas não. O que vejo por aí são dezenas e dezenas de casais que resolver decretar o fim do casamento simplesmente porque andam se desentendendo muito. E, sobretudo, por banalidades: a louça na pia, a programação do domingo, o horário do banho do filho, a quantidade de azeite na comida, o canal da televisão, o volume do despertador, o horário do sexo, os cabelos na escova, os sapatos no meio do caminho.

As pessoas vão ficando irritadas com o trânsito, cansadas do trabalho, angustiadas com prazos, preocupadas com os filhos e simplesmente resolvem descontar essas frustrações em cima dos seus maridos ou mulheres, como se eles fossem os culpados por tudo isso. É preciso manter as aparências no escritório, nos controlar dentro do carro, manter a calma com os filhos… Mas com a pessoa que se ama, vira uma espécie de vale tudo, de válvula de escape, algo do gênero “aqui, eu sempre posso dizer que a culpa é do outro”.

Como advogada, acho o divórcio um instituto jurídico fantástico, que garante a liberdade e o livre arbítrio das pessoas. Também acho o casamento um contrato bastante moderno, que hoje em dia existe principalmente por causa do amor. Acho natural que exista gente que apenas viva junto e gente que se case. Gente que se separe e gente que se divorcie. O que não consigo achar natural é ver gente jogando casamento fora por causa de coisinhas tão medíocres e contornáveis.

É mesmo uma dinâmica estranha. Parece que as pessoas estão achando mais fácil encarar um divórcio, aguentar a dor, mudar de casa, mudar a vida dos filhos, suportar a dor dos filhos, lhes impor novas rotinas, do que simplesmente sentar para conversar, dispor-se a mudar de comportamento, pegar mais leve, esforçar-se mais. Virou um 8 ou 80: ou o casamento dá certo sozinho ou as pessoas se separam. As pessoas confundem aborrecimento com falta de amor. As pessoas não estão dispostas a ceder em nenhum momento, nem a colocar os interesses do casal num patamar tão relevante quanto o dos seus próprios interesses.

Acho que, de fato, se o futuro que as pessoas desejam não é mais o mesmo e se os planos não conseguem ser conjuntos, é mesmo melhor se separar. Mas se o problema é só a convivência, a chatice, as alfinetadas, é muito inconsequente (e muito egoísta) jogar um casamento no lixo. Quanto tempo falta para o seu casamento acabar? Talvez ele possa ser resgatado. E talvez nem seja uma tarefa tão difícil assim. Talvez ele nem esteja acabando, mas esteja parecendo mais fácil pensar que sim.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Crónica

A estranha geração dos adultos mimados

Ruth Manus
191.403

O fato de termos sido criados com cuidado e afeto pelos nossos pais, começou a confundir-se com uma espécie de sensação de que todos devem nos tratar como eles nos trataram.

Crise Política no Brasil

Carta a Michel Temer

Ruth Manus
1.408

Como se faz para olhar de frente para aqueles que conhecem a nossa podridão sem nenhum tipo de constrangimento? Como se faz para não se importar com nada,e seguir em frente com os nossos objectivos?

Crónica

Quem viaja muito a trabalho tem sorte?

Ruth Manus
661

Viajar toda hora só é uma sorte quando tais viagens são por turismo voluntário ou por outra razão mais nobre. Viajar por necessidade ou por imposição não tem lá muita graça.

Crónica

A estranha geração dos adultos mimados

Ruth Manus
191.403

O fato de termos sido criados com cuidado e afeto pelos nossos pais, começou a confundir-se com uma espécie de sensação de que todos devem nos tratar como eles nos trataram.

Verão

Crónicas de Verão – O Amor

Paulo de Almeida Sande
105

Digam-me os leitores que esta crónica é fútil, inútil, ignorável; digam-me que amar é irrelevante, porque só amamos por capricho, um fútil devaneio, e no fundo, lá no fundo, é a nós mesmos que amamos.

Crónica

Liberdade de Impressão

Miguel Tamen

Na maioria dos casos, as outras pessoas não costumarem ficar impressionadas com as nossas opiniões; ocupadas com o que haverão de dizer, não mostram no geral interesse por aquilo que nós temos a dizer

Crónica

Quem viaja muito a trabalho tem sorte?

Ruth Manus
661

Viajar toda hora só é uma sorte quando tais viagens são por turismo voluntário ou por outra razão mais nobre. Viajar por necessidade ou por imposição não tem lá muita graça.

Crónica

As qualidades das qualidades

Miguel Tamen

Uma acção generosa a que se chega depois de uma análise ponderada tem qualquer coisa de deliberado que a faz parecer-se com a avareza; e pensar em ter coragem é uma variedade de cobardia. 

Crónica

A filosofia pelo fado (IV)

Miguel Tamen

Um grande fado nunca depende dos sentimentos de quem canta: depende de se achar que os outros não têm sentimentos.