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Um governo nos arames

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Vejamos se Costa, que tão maquiavelicamente manobrou o caminho para chegar a primeiro-ministro, lhas consegue dar. Não confundo desejos com previsões e, apesar de prever o pior, desejo-lhe o melhor.

Lembro-me de, em tempos, ter lido uma entrevista a Cavaco Silva, ainda primeiro-ministro, em que lhe perguntaram se via alguma vantagem em ser economista. De memória, lembro-me de Cavaco ter respondido que a principal vantagem era ter bem interiorizado algumas ideias fundamentais, como a noção de escassez e de custo de oportunidade. Ou seja, Cavaco sabe bem que é vão procurar a melhor solução, apenas pode procurar a melhor solução entre as alternativas possíveis.

É por não conseguir imaginar melhor alternativa à indigitação de Costa que me surpreendeu todo o tempo que Cavaco demorou a chegar a esta conclusão. Fiquei também admirado com a lista de enigmas que Cavaco deu a António Costa. Se as respostas não agradassem a Cavaco, o que faria? Não indigitaria Costa como primeiro-ministro? Por muito assustadora que seja a ideia de ver Catarina Martins e Jerónimo de Sousa a segurar um arame em cima do qual António Costa faz equilibrismo, qualquer outro governo seria pior. É a TINA aplicada à formação de governo: There Is No Alternative!

Durante estes 50 dias, o Presidente da República comportou-se como as minhas filhas. A mais nova, tal como Cavaco, quando é obrigada a fazer o que não quer, arrasta os pés muito devagarinho. É assim todas as noites quando tem de ir para a cama. São 10 minutos a fazer um percurso que demora meio minuto. Já a minha filha mais velha, sete anos, quando não quer fazer uma coisa, costuma, à primeira, gritar que não faz. Depois, torna a dizer o mesmo, mas com uma voz mais suave e, claro, insiste mais uma vez que não quer fazer, já muito baixinho. Depois, lá se conforma e faz o que tem a fazer, murmurando para si mesma contra a injustiça de que é alvo. Também ela me faz lembrar Cavaco a gerir esta crise. Num primeiro discurso, quando indigitou Passos Coelho, falou muito grosso dando a entender que se recusaria a indigitar um governo com o apoio de partidos que fossem contra a NATO ou contra as regras do Euro. Num segundo discurso, quando deu posse a Passos Coelho, voltou a dizer o mesmo, mas de forma mais suave, ficando a ideia de que poderia mesmo dar posse a Costa num futuro próximo. Finalmente, ontem, quase conformado, mandou uma lista de perguntas, voltando a insistir nos mesmos temas, mas deixando claro que faria o que tem a fazer. Já hoje, tomou devida nota das respostas e “indicou” Costa como primeiro-ministro. As minhas filhas não fariam melhor.

Mas, reconheço, posso estar a ser injusto. Afinal, as instituições têm os seus ritmos. Este tempo serviu não só para o Presidente se convencer, mas também para convencer os dirigentes e apoiantes do PSD e CDS.

A única vantagem de Costa ter esperado tanto tempo é que ficámos logo a conhecer a composição do seu governo. Quatro mulheres em 17 ministérios. Ainda bem que não há quotas. Se, por absurdo, houvesse uma quota mínima de um terço, Costa ver-se-ia obrigado a escolher duas ministras incompetentes para ocupar o lugar de dois dos 13 competentes ministros. Era uma pena escolher alguém tão incapaz em detrimento de outrem, apenas por razão do seu sexo.

Ironias à parte, há alguns erros de casting óbvios. Por exemplo, não percebo que experiência tem um investigador oncológico, há 15 anos fora do país, para ficar com o Ministério da Educação. No Ministério da Educação, terá de enfrentar uma das máquinas do Estado mais difíceis de gerir. Lidará com super-agrupamentos escolares, enfrentará interesses corporativos instalados, organizará concursos e colocações de professores sempre problemáticos. É certo que às vezes é bom vir alguém de fora com ideia arejadas, mas neste caso, num ministério que está constantemente em guerra, sempre com avanços e recuos nas mais diversas áreas (seja na avaliação de professores, seja nos exames dos alunos), seria bom procurar estabilidade. A escolha de alguém que vem de fora, e cujas ideias são desconhecidas, é demasiado arriscada. Mas há mais surpresas. Augusto Santos Silva não é conhecido pela sua diplomacia, pelo que me surpreende nos Negócios Estrangeiros. Mas, em tempos de guerra, até é capaz de ser uma boa escolha. Não sei se não será inédito ter um pai e filha e marido e mulher no mesmo governo, mas pode ser que esta estranheza passe com o tempo.

Regra geral, o primeiro-ministro António Costa apresentou nomes fortes e que, se tivessem condições, poderiam desempenhar bem os seus cargos. Centeno, Caldeira Cabral (declaração de interesses: sou seu amigo e colega), Leitão Marques, Manuel Heitor, Vieira da Silva (adivinhem se falo do pai, da filha ou de ambos), Van Dunem têm créditos firmados. A dificuldade será mesmo garantir que tenham condições. Vejamos se Costa, que tão maquiavelicamente manobrou o seu caminho para chegar a primeiro-ministro, lhas consegue dar. Não confundo desejos com previsões e, apesar de prever o pior, desejo-lhe o melhor.

PS. Temos direito às nossas opiniões, mas não aos nossos factos. No meu artigo da semana passada, entre outras coisas, disse que o Ministério da Educação de Crato não reduziu as transferências para os colégios privados. Alexandre Homem de Cristo, a quem agradeço, apresenta dados objectivos que contrariam esta asserção (ver o ponto 2 desta entrada). Fica a correcção feita.

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