A meteorologia previa mais uma tarde de sol, mas ninguém ali contava com tanto pó e um final de dia tão frio. Com o passar das horas, o vento amainou e a Lua manteve-se esplêndida. A avaliar pela distribuição das pessoas pelo recinto, este último dia foi o mais diverso. Ocorreram alguns atrasos fora do habitual e até falhas técnicas, mas o público será sempre o último a dizer se foi bom ou mau. Nós voltámos a andar quilómetros de palco em palco mas achámos que valeu a pena. Seguimos com os nossos destaques do terceiro dia do NOS Alive.

O sol ainda estava alto (18h40) quando o compositor norte-americano Cass McCombs se apresentou na tenda Heineken de óculos escuros, não fosse a falta de movimento estragar-lhe a perspetiva. Guitarra, baixo e bateria, cumpriu com rigor o que se espera de um artista com sete álbuns editados numa década de carreira. O ritmo da sua música é conhecido, e por isso não foi de espantar que o resultado fosse um espetáculo a que quase toda a gente assistiu sentada. Na linha da frente, um casal reparou que estava a ser filmado para os ecrãs laterais e fez questão de dar um beijo apaixonado para toda a gente ver. Foi do mais animado a que se assistiu naquela hora. De resto, pouco mais foi que aborrecido. Seguramente, não foram nem o local nem a hora certos.

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Seguiu-se a primeira (in)justaposição do dia: The War on Drugs no palco Heineken (19h50) e SOHN no Clubbing (20h). Ao quarteto da Pensilvânia juntaram-se dois músicos, mais do que suficiente para garantir uma hora de indie rock poderoso, feito com guitarras agressivas mas muito bem usadas para construir as melodias longas que lhes conhecemos. A banda (de que já fez parte Kurt Vile) encheu o recinto, muitos jovens mas também muitos daqueles que estavam ali para ver a banda que viria a fechar a noite no palco grande. E os The War On Drugs aqueceram-nos bem. Exímios em esticar os instrumentais, deixaram para o fim “Under The Pressure”, a faixa de abertura do novo “Lost In The Dream”. Durou quase nove minutos, mas a anestesia prolongou-se.

Ali ao lado (e ao mesmo tempo) um nome a tornar-se importante, mas na eletrónica. Estreante na carreira a solo e nos discos, o londrino SOHN (Christopher Taylor) vestiu-se de preto dos pés à cabeça, literalmente – ao estilo Hijab. Posicionou-se ao centro do palco, de frente para o público, e de cada lado um músico virado para ele, também de preto mas sem a cabeça coberta pelo manto. E foi dali que orquestrou com o corpo as entradas e as saídas de cada música do seu álbum de estreia, “Tremors”. Improvisou bastante, no ritmo da eletrónica mas sobretudo com a voz, que se revelou magnífica, em especial no tema “Tempest”, cantado em versão a capella. Infelizmente, quase ninguém reparou, estavam todos virados de costas a ver os aviões da NOS a fazer acrobacias.

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O grande momento que pôs toda a gente a dançar foi o tema “Artifice”, que apesar de menos elaborado que na versão gravada não perdeu riqueza, pelo contrário, rearranjou-se com o improviso. SOHN foi simpático e bateu palmas ao público que se foi juntando. Seguramente que para alguns, passou a ser um artista a seguir. Nada que nós não tivéssemos já sugerido.

Uma hora mais tarde (21h05), casa cheia outra vez no palco Heineken para receber os Unknown Mortal Orchestra. São uma “orquestra” de três elementos que se dividem entre os Estados Unidos da América e a Nova Zelândia. Foram um trio competente e barulhento, com destaque para a postura peculiar de Ruban Nielson. Todo ele é uma figura, e um excelente guitarrista. A audiência conhecia-os bem, e aplaudiram em conformidade, como quando tocaram “So Good at Being in Trouble”, um dos momentos altos. Sarilhos dos bons.

A meio da noite, a segunda sobreposição: Foster The People, Phantogram e PAUS, todos a atuar ao mesmo tempo. Mais pernas houvesse.

No palco principal o relógio já estava 10 minutos atrasado (22h35), mas lá apareceram os californianos Foster The People. Têm apenas dois álbuns editados, mas estão carregados de singles muito fortes e dançáveis, e foi isso que se viu, muita gente a dançar, quase todos a mexer ou a bater o pé, foi quase nula a indiferença. Muito profissionais musicalmente, cumpriram com as regras de um bom alinhamento e foram entrelaçando temas mais e menos conhecidos, sem nunca baixar o ritmo. Resumimos a sua atuação da seguinte forma: foram eles que justificaram a enchente da noite no palco NOS. Acertámos no nosso destaque.

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No palco do meio estava (22h35) pela primeira vez em Portugal, a dupla nova-iorquina Phantogram (com mais dois músicos), e uma Sarah Barthel (vocalista) ligada à corrente. Saltou saltou saltou, mas manteve uma voz firme. O som pareceu-nos excessivamente alto (o que é recorrente no Clubbing, talvez devido à posição relativa com os outros dois palcos), mas a audiência manteve-se curiosa e agarrada aos singles que popularizaram a banda, como por exemplo “Mouthful of Diamonds” (de “Eylid Movies”, 2010).

Na outra ponta atuavam os portugueses PAUS (22h30). Duas baterias no meio do palco, frente a frente, quase entrelaçadas, e nelas dois homens que com quatro baquetas fazem jus ao nome: os PAUS foram uma máquina de fazer barulho (no bom sentido), e o público adorou. Eram milhares. Despediram-se dizendo “façam o bem e não sejam má onda”. Anotado.

O palco Heineken foi outra vez pequeno (ontem foi quase sempre) para acolher os londrinos Daughter (23h55), que tiveram uma enchente de que não estavam à espera – à conta do final dos Foster The People, mas não lhes tiramos o mérito. Elena Tonra tem mesmo uma voz magnífica, e só foi pena que o palco estivesse tão escuro. É uma opção que algumas bandas tomam, a de aparecerem apenas como silhuetas. Porque não gostam de se expor? Porque “a música é que é importante” ou porque assim se cria mais “ambiente”? Além de ouvir, nós queremos “ver” os artistas de que gostamos. São opções difíceis de entender e que se estavam a repetir no Clubbing naquele mesmo instante. Os conterrâneos Jungle (00h15) entraram atrasados e também às escuras. A batida e as vozes de J. & T. (mistério…) foram imediatamente reconhecíveis, isto num coletivo que em apenas um ano se tornou num caso sério no universo disco beat, muito à conta deste vídeo. A respetiva música, tocada às escuras, ficou para o fim.

No palco principal (00h15) atuavam os cabeças de cartaz: The Libertines. A expetativa era grande, mas o que vimos não foi mais do que mera curiosidade para a grande maioria. Banda importante no movimento punk rock na viragem do século, são hoje conhecidos mais pelos problemas pessoais de Pete Doherty (um dos membros fundadores da banda) do que pela música que fizeram. E o que nos apresentaram nesta reunião foi um “best off” de encher o espírito dos mais saudosistas. Mas temos de dizer que Doherty nos pareceu em boa forma, e por isso não nos vamos admirar que estas apresentações “raras” possam bem ser um ensaio geral ou teste para um regresso da banda com música nova. Correu bem.

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Noite alta, a batida a acelerar e o Alive a chegar ao fim. Da Rússia (Sibéria) para Algés, a Dj e produtora Nina Kraviz (01h10) entra no palco Clubbing de mochila às costas. Sorri, mete as mãos à cara como quem diz “tanta gente!” (e estava, cheio), tira uma fotografia ao público, coloca os auscultadores ao pescoço e aí vai ela, rabo de cavalo ao ritmo da batida durante uma hora de dance music alinhada ao milímetro. Ao contrário das bandas e artistas que não se deixam ver ou preferem trabalhar às escuras, Nina Kraviz dança ao ritmo da luz. Sempre a sorrir e a dançar, toda ela é uma festa. Também por isso, está entre as melhores do mundo.

Ao lado e à mesma hora, o australiano Chet Faker (01h20) pôs o palco Heineken à pinha. Apenas ele, um teclado, uma caixa de ritmos e um microfone. Batida forte e voz firme, bem disposto e comunicador, foi anunciando as suas canções ou antes – palavras dele – as suas “jams”. Tem apenas um álbum editado (“Built on Glass”, lançado em abril), mas o público conhecia-o bem. Destaque para “Drop the Game”, que lhe valeu uma ovação retribuída atirando (espalhando) aquilo que estava a beber. O público também estava com calor.

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E foram precisamente as pessoas que definiram este último dia, pela forma como se distribuíram pelos palcos. Houve gente para os encher a todos e ao mesmo tempo. Mérito também para a organização, claro, que foi capaz de fechar o evento com um cartaz heterogéneo (algo nunca fácil de gerir, diga-se de passagem). Foi o dia musicalmente mais interessante, com grande destaque para os palcos secundários. E não só nosso, destaque também do público, é sempre ele que nos diz se é bom ou mau.

E People, assim se acabou a edição 2014 do (agora) NOS Alive. Para o ano há mais, nos dias 9, 10 e 11 de julho. Estivemos em permanência no Twitter onde partilhámos estes e outros momentos. Na próxima semana voltamos a usar a etiqueta #ObsFEST para seguir a rota dos festivais de verão, desta vez a partir da Herdade do Cabeço da Flauta.