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Ainda falta um ano e meio, mas pelas notícias da última semana ninguém diria. As eleições presidenciais já estão na estrada. E não faltam pré-candidatos ao lugar de Aníbal Cavaco Silva. Avaliando pelos nomes falados, é até possível que as presidenciais de 2016 sejam uma espécie de regresso ao passado: a duas voltas, como aconteceu em 1986.

À direita, a corrida foi aberta por Pedro Santana Lopes, que deu uma entrevista ao Expresso considerando “altamente estimulante” uma candidatura às presidenciais contra António Guterres. “Sei o meu percurso de vida, o que conheço do meu país, a experiência de áreas e funções ao longo da minha carreira e acho que um Presidente da República tem que ter provas dadas nos diferentes setores da sociedade”, afirmou.

As palavras de Santana foram, de imediato, aplaudidas na direção de Passos Coelho. A razão? Chama-se Marcelo Rebelo de Sousa, um indesejado por alguns na São Caetano à Lapa. “Não tem perfil para isso. Tem dúvidas de que fará de Belém um antro de intrigas?”, afirmou ao Observador um conselheiro do primeiro-ministro. Santana, aos olhos dos ‘passistas’, dá pelo menos garantias de fidelidade. “Reúne todas as condições para exercer o cargo de Presidente da República com responsabilidade e isenção e sentido de Estado”, disse ao Público a vice-presidente do PSD, Teresa Leal Coelho. “Mas, como o próprio Santana Lopes diz, o futuro a Deus pertence. Veremos se se apresenta às eleições. Mas se o fizer será um bom candidato”, acrescentou.

No comentário na TVI, no dia seguinte à entrevista de Santana, Marcelo Rebelo de Sousa assinalou que “está aí muita gente para Belém” e que, por isso, vai haver umas “primárias curiosas” à direita. Primárias é a expressão que Santana mais tem usado: sabendo que não faltam outros interessados à direita, o ex-primeiro-ministro sugeriu no Expresso que fossem todos à corrida — para mobilizar mais votos da direita e forçar uma segunda volta eleitoral. Foi ao ponto de desafiar o CDS a apresentar um candidato da sua área política.

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Marcelo, curiosamente, vai acumulando apoios para uma eventual candidatura no CDS. António Pires de Lima e Nuno Melo já disseram que o ex-líder do PSD seria o candidato de direita com mais hipóteses de ganhar essas eleições.

“Esta talvez ainda não seja a hora da verdade, mas a leitura nessa matéria é razoavelmente linear. As várias sondagens que tenho visto têm coincidido que, neste momento, talvez o professor Marcelo Rebelo de Sousa seja aquele que tem melhores condições para disputar umas eleições representando o espaço do Centro e da Direita democrática”, afirmou o atual ministro da Economia, a 29 de junho numa entrevista à TSF.

Mas Pires de Lima admitiu também que estas eleições tivessem duas voltas, algo que não acontece desde a primeira eleição de Mário Soares como Presidente da República — a histórica batalha contra Freitas do Amaral: “Gostaria que PSD e CDS apoiassem um candidato num momento decisivo, pode ser na primeira ou segunda volta das presidenciais, que tivesse possibilidade de as ganhar e ganhasse”.

Em 1986, apresentaram-se cinco candidatos: Diogo Freitas do Amaral (apoiado pelo CDS e PSD), o ex-primeiro-ministro Mário Soares (PS), a ex-primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo, Francisco Salgado Zenha (apoio do PRD do ainda presidente António Ramalho Eanes) e Ângelo Veloso (PCP), que viria a desistir. Como nenhum dos candidatos conseguiu ultrapassar a fasquia de 50% dos votos, teve que haver uma segunda volta entre os dois mais votados: Soares e Freitas.

A verdade é que as declarações de Santana agitaram as águas. Esta sexta-feira, em declarações aos jornalistas, o provedor da Santa Casa disse que tinha ficado “sensibilizado” por as suas palavras terem tido eco. “Neste momento, estou interessado em fazer o meu mandato. Não é por falar em presidenciais, que sou candidato. O professor Marcelo Rebelo de Sousa fala nisso há cinco anos. Mas fico sensibilizado. É sinal de que ouvem o que eu digo, porque noutras alturas não ouviam”, disse.

“Desde que saiu de primeiro-ministro que ele sonha candidatar-se a Presidente ou mesmo tentar voltar a ser primeiro-ministro”, confere ao Observador um apoiante de Santana.

Desta vez, uma eventual corrida tem um sabor acrescido para o atual provedor da Santa Casa, que se chama Marcelo. Santana culpa o atual comentador da TVI por ter sido um dos que ajudaram ao derrube do seu Governo no final de 2004. Na altura, também na TVI, o professor de Direito fez duras críticas ao Governo do social-democrata e envolveu-se numa polémica sobre censura, na sequência de declarações do ministro Rui Gomes da Silva.

À direita, não se deve esquecer ainda Rui Rio. Nos últimos meses, o ex-presidente da Câmara do Porto tem repetido que não sabe o que o futuro lhe reserva, abrindo a porta a uma candidatura presidencial. E, num encontro com António Costa, chegou mesmo a dizer que tipo de exercício presidencial defende: “O próximo Presidente da República deve ser mais interventivo” porque “estamos num momento histórico em que as coisas são diferentes do passado”. O contraste com Santana é flagrante, tendo este optado pelo perfil de um PR que “ajude sempre o Governo”.

Joaquim Ferreira do Amaral, que foi candidato presidencial em 2001 com o apoio do PSD, considera positivo a existência de vários candidatos e de uma segunda volta. “Quantos mais candidatos, melhor. Haver várias candidaturas não enfraquece uma posição ideológica”, afirmou ao Observador.

O que falta saber — e será central na definição do puzzle à direita — é isto:

  • Quem avança primeiro e quando;
  • Se essa candidatura inaugural vai travar, ou não, os outros interessados no cargo (e respetivos apoiantes);
  • Como reage oficialmente o PSD, que estará sempre condicionado pelas legislativas que se vão realizar poucos meses antes, em outubro de 2015 e pela negociação de uma eventual coligação com o CDS.
  • Se houver divisão entre os sociais-democratas, que fará isso à própria campanha das legislativas, em termos de mobilização ou divisão interna?

À esquerda, António Guterres é consensual entre os dois blocos em que o PS está dividido. Tanto costistas como seguristas desfazem-se em elogios ao ex-primeiro-ministro que se demitiu em 2001, na sequência de uma derrota pesada nas autárquicas, e que agora é Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. “Não quero ser candidato, mas não faço juras eternas; há sempre uma probabilidade, mesmo que mínima, de isso acontecer”, disse em maio, numa declaração cautelosa que contrasta com a forma categórica como até aqui falava de presidenciais.

Costa veio dizer que Guterres “era seguramente o melhor que a esquerda poderia ter” nas eleições presidenciais. E António José Seguro destacou que “são os cidadãos que estão disponíveis para ser candidatos a Presidente da República que se apresentam” — ao mesmo tempo que outros dirigentes como Eurico Brilhante Dias se congratulavam com as palavras de Guterres.

Este sábado, Mário Soares faz uma declaração ao Expresso para dar o seu apoio ao ex-primeiro-ministro: “Para a nossa esquerda, não há outro. Guterres é o melhor”. O atual alto-comissário na ONU “dava um bom Presidente da República”, assim como “também dava um secretário-geral da ONU”.

Nem tudo são certezas. Até há poucos meses, Guterres apresentava-se como possível candidato a secretário-geral da ONU, cargo esse que ficará vago no próximo ano. E mesmo a sua aparente mudança de tom sobre as presidenciais, dá ânimo mas não certezas.

Se Guterres não quiser, quem sobra na ala socialista? Eis um segredo bem guardado, com a certeza de que será sempre menos forte que o ex-primeiro-ministro.

Mas a esquerda não é só o PS. O PCP tem, por norma, apresentar sempre candidato presidencial. O BE pode lançar Francisco Louçã, que desde que saiu da liderança do BE tornou-se uma espécie de senador dessa área política. Há um ano, Louçã escreveu no DN um artigo dizendo que as presidenciais seriam um desafio central para a redefinição da esquerda. Entretanto lançou-se num movimento pela renegociação da dívida. E até criou um blogue no Público, onde discute economia com o centrista Bagão Félix.

Por outro lado, existe ainda Manuel Carvalho da Silva, que tem a simpatia da esquerda que não se revê no BE, como Ana Drago ou Daniel Oliveira, uma dupla que acaba de lançar um novo projeto político.

E ao centro convém não esquecer Fernando Nobre, que se candidatou em 2011 sem o apoio de partidos e teve 14% dos votos, e que já avisou que está em reflexão sobre uma nova candidatura.