“Eu mando todos os dias bocas para o continente e vou continuar a mandar e, depois de deixar de ser presidente do Governo então é que eu estou à vontade para dizer o que ainda me falta”. O aviso de Alberto João Jardim foi feito este domingo à chegada à tradicional festa de Chão da Lagoa.

O presidente do Governo Regional despede-se este domingo à tarde do palco do tradicional comício do Chão da Lagoa enquanto líder do PSD-Madeira. O social-democrata já garantiu que não volta a candidatar-se a mais um mandato a presidente do PSD-Madeira, que lidera desde 1974. No dia 19 de dezembro deste ano, o PSD-M vai ter eleições internas — com uma segunda volta dez dias depois — para escolher o próximo líder.

Numa entrevista publicada este sábado no Expresso, Jardim confirmou que este era o momento certo para substituir a liderança do partido na Madeira, apesar de considerar que o arquipélago ainda não se cansou dele. Alberto João Jardim disse sentir-se mais distante deste Governo do que alguma vez se sentiu relativamente a um Governo do PSD, assegurando, no entanto, que não vai afastar-se da vida política. Mas não quer estar à frente do partido por agora. “Líder deste PSD-Madeira nem pensar”. Jardim acabou por pedir: “Não se metam na minha vida, esqueçam que eu existi. Deixem-me em paz”.

Difíceis de esquecer serão algumas das declarações polémicas que Alberto João Jardim foi fazendo ao longo de mais de três décadas. Reunimos algumas delas.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Os três lóbis

No ano 2000, quando foi apresentado o projeto para a descriminalização do consumo de droga, Alberto João Jardim opôs-se a esta lei, que considerou uma “asneirada e barbaridade”. Na festa do Chão da Lagoa desse ano, Jardim foi mais longe:

Muito do que sucede em Lisboa é porque há três lóbis que mandam hoje em Lisboa, que é o lóbi da comunicação social, o lóbi gay e o lóbi da droga.

“O comportamento do sr. Silva é causa de expulsão”

Em 2005, durante a campanha para as eleições legislativas, Alberto João Jardim foi muito crítico de Cavaco Silva, que admitiu apostar numa maioria absoluta do PS, considerando que esse era o melhor cenário para lançar a sua candidatura às presidenciais. Na altura, Cavaco Silva mostrou-se muito crítico da atuação do então líder do PSD, Santana Lopes, e Jardim ficou ao lado deste último. O presidente do Governo Regional da Madeira chegou a defender que Cavaco Silva fosse expulso do PSD:

Alberto João Jardim (AJJ): O comportamento do sr. Silva é causa de expulsão e espero que de uma vez por todas o partido deixe de ser politicamente correto e limpe o partido.

Jornalista: “Acha que o partido deve abrir um procedimento em relação a isso?”

AJJ: Acho que sim. Senão o partido não tem vergonha. Se não abrir um procedimento contra o sr. Silva.

Os “bastardos na comunicação social do continente”

Quando em 2005 saíram notícias sobre a acumulação da reforma com o vencimento de presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim atacou os jornalistas:

Há aqui uns bastardos na Comunicação Social do continente – eu digo bastardos para não ter que lhes chamar filhos da puta – que aproveitaram este ensejo para desabafar o ódio que têm sobre a minha pessoa. Não lhes basta mentir sobre a Madeira. Como são bastardos, e têm o complexo de bastardos, também, à mínima coisa, desencadeiam isso sobre mim.

“Os chineses estão a entrar por aí adentro”

Em julho de 2005, o presidente do Governo Regional da Madeira disse ser contra a entrada de imigrantes no arquipélago. Foi durante as festas de Santana que Alberto João Jardim criticou a entrada de imigrantes chineses, indianos e do leste da Europa.

Portugal já está sujeito à concorrência de países de fora da Europa. Os chineses estão a entrar por aí adentro. Os indianos a entrar por aí adentro e os países de leste a fazer concorrência a Portugal. E minhas senhoras e meus senhores… Está a fazer-me sinal porquê? Estão chineses aqui, é? É mesmo bom para eles ouvirem.

“O bando de loucos que está dentro da Assembleia Legislativa”

Em abril de 2008, Alberto João Jardim escolheu não receber o presidente da República Cavaco Silva numa sessão solene na Assembleia Legislativa da Madeira.

Eu acho bem que não haja uma sessão solene. Eu acho que o bando de loucos que está dentro da Assembleia Legislativa era uma péssima imagem da Madeira. Ver aquele fascista do PND e ver o padre Edgar [do PCP] e ver aqueles tipos do Partido Socialista. Eu acho que isso era uma imagem… Há coisas que me envergonham. Eu cá não apresento aquela gente a ninguém.

“Os espíritos que se auto-masturbam”

Durante a sessão de encerramento do XII Congresso Regional do PSD-M, Alberto João Jardim apoiou Luís Filipe Menezes na campanha para as eleições legislativas de 2009 e deixou ao antigo presidente da câmara de Vila Nova de Gaia um conselho para lidar com os críticos:

Deixe lá os espíritos que se auto-masturbam. Deixe esses espíritos andarem nas suas confabulações, nós temos muito que fazer para que Portugal volte, de novo, aos caminhos que precisa e necessita trilhar.

Equivalências a quatro licenciaturas

Comentando a polémica com a licenciatura do antigo ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares Miguel Relvas, Alberto João Jardim disse que ia pedir quatro equivalências a licenciaturas:

Alberto João Jardim (AJJ): Fiquei satisfeito porque agora também vou requerer várias licenciaturas para mim.

Jornalista: Isso é uma crítica ao sistema?

AJJ: Não é uma crítica ao sistema, é um direito meu, desculpe. Trinta e não sei quantos anos de Governo, engenheiro honorário declarado pela ordem dos engenheiros, doutorado honoris causa por uma universidade, presidente de várias associações filantrópicas. Trinta e tal anos de Governo, isto deve dar… Eu cá penso que isto vai dar para: veterinária, biologia, informática e astronomia. Vou requerer estes quatro cursos.