Depois de uma manhã marcada por avanços e recuos num eventual acordo de cessar-fogo, permanente ou não, entre a Ucrânia e a Rússia, Vladimir Putin revelou um plano de sete pontos que diz ser necessário para estabilizar o conflito no leste do país. O esboço do acordo foi traçado pelo presidente russo durante o voo desta quarta-feira rumo à Mongólia e deverá refletir, segundo Putin, os pontos onde o presidente ucraniano Petro Poroshenko expressou entendimento.

“Durante a minha viagem da cidade de Blagoveshchensk [Rússia] para Ulan-Bator [Mongólia], tomei nota de algumas ideias para um plano de ação. Está aqui, mas tudo escrito à mão“, disse Putin aos jornalistas, numa conferência de imprensa já em território mongol.

Falando aos jornalistas durante uma visita de Estado à Mongólia, Putin pegou no bloco de notas onde teria anotado os pontos acordados depois de conversações com Poroshenko, e leu:

1. As milícias separatistas devem pôr fim às ofensivas militares nas regiões de Donetsk e Lugansk;

2. As forças armadas pró-Kiev devem retirar-se daquelas regiões do leste até um ponto em que já não seja possível atingir as cidades com bombardeamentos;

3. Implementar um controlo total e objetivo da comunidade internacional sobre a monitorização do cessar-fogo;

4. Excluir o uso de aeronaves de combate contra civis;

5. Libertar e trocar prisioneiros sem necessidade de estabelecer condições prévias;

6. Implementar corredores humanitários para refugiados e permitir a entrada de ajuda humanitária para Donetsk e Lugansk;

7. Criar ‘equipas de reconstrução’ para reparar as estradas danificadas, pontes, linhas de energia e outras infraestruturas destruídas na região.

O objetivo, segundo Putin, é que o acordo formal entre Kiev e as milícias separatistas seja assinado até à próxima ronda de negociações, agendada para sexta-feira, na Bielorrússia. “Espero que os líderes da Ucrânia apoie o progresso antecipado nas relações bilaterais”, disse, citado pelo canal de língua inglesa Russian Television.

Comentando a conversa telefónica que teve com o presidente ucraniano ao início do dia, Putin limitou-se a reforçar que os seus “pontos de vista sobre o caminho a seguir para resolver o conflito” estavam “alinhados”. As conversações entre os dois chefes de Estado parecem de facto estar a chegar a um bom porto, com a agência de notícias russa a afirmar mesmo que Poroshenko espera que as negociações da próxima sexta-feira resultem num “diálogo de paz significativo”.

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Antes, declarações de Poroshenko de que a conversa telefónica entre os dois tinha terminado com um acordo de “cessar-fogo permanente” (que o presidente ucraniano deixou escrito no Twitter esta manhã), criaram alguma controvérsia e levantaram mais alguma poeira nas tensas relações entre os dois países.

Foi o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, quem pôs um travão na declaração assertiva de Poroshenko, recusando que a expressão “cessar-fogo permanente” se possa aplicar a este caso porque “a Rússia não é parte do conflito”, disse, negando as acusações dos últimos dias de que a Rússia estaria a fornecer armas e equipamentos militares aos separatistas e que teria mesmo enviado tropas para o terreno. “Apenas discutiram o que se pode fazer”, reforçou esta manhã Peskov.

Os dois discutiram sobretudo “o que deve ser feito primeiro para travar o derramamento de sangue” e que “os pontos de vista dos dois presidentes coincidem num grau considerável”, disse.

Segundo o New York Times, a perspetiva de acordo, no entanto, não se vai traduzir em nada no terreno. O chefe do departamento político do ministério da Defesa da auto-proclamada República Popular de Donetsk, afirmou que as operações vão continuar como habitualmente. “Ninguém está a negociar o cessar-fogo com os representantes da República Popular de Donetsk”, disse Vladislav Brig, acrescentando que “enquanto houver soldados ucranianos no nosso território, não haverá cessar-fogo”.

Até à data, todas as tentativas de chegar a um acordo de tréguas entre Kiev e as milícias rebeldes do leste falharam em solucionar ou estabilizar o conflito naquela região do país, com os combates a continuarem permanentemente. Já morreram mais de 2600 militares e civis e mais de um milhão de pessoas abandonaram as suas casas depois do conflito ter estoirado no leste da Ucrânia, em abril, quando o separatistas pró-russos declararam a independência.

Os últimos dias têm sido inclusivamente de combates intensos, especialmente em torno da cidade portuária estratégica de Mariupol, com as tropas fiéis ao governo de Kiev a verem-se cada vez mais obrigadas a recuar. O agudizar de tensões levou o ministro da Defesa ucrâniano, Valeriy Heletey, a escrever ontem na sua página de Facebook que a Ucrânia está a atravessar uma “grande guerra” e que a Rússia é a única responsável.