Na mão segura uma garrafa com um resto de uísque. O corpo magro da mulher bamboleia ao mesmo tempo que grita “independência”, “não quero saber, independência”. Tenta ser captada pela câmara de televisão. Mas desiste e acaba por deitar-se no alcatrão da praça principal de Glasgow, a George Square, ao lado de um rapaz que teima em abanar a bandeira azul da Escócia.

Restam poucos mais resistentes, depois de uma noite em que aquela praça recebeu centenas de pessoas pela independência da Escócia. No chão há muito lixo. Como nas ruas de acesso à praça. Há duas mulheres sentadas junto à estátua de Sir Walter Scott – um novelista escocês – que choram. Outra rapariga empurra a amiga num carrinho de compras. Riem e divertem-se.

Este é o ambiente depois do dia que marcou mais um episódio da história do Reino Unido. A 18 de setembro de 2014, mais de 85% dos eleitores registados na Escócia foram às urnas, num movimento cívico nunca antes registado e 1,6 milhões votaram pela independência do País, mas mais de dois milhões preferiram ficar num Reino Unido que irá delegar mais poderes a Edimburgo. São 7h00 e os resultados oficiais foram divulgados há uma hora. Mas sem grande surpresa. Durante a madrugada foram oficializadas previsões que mostravam que a Escócia iria manter-se no Reino Unido.

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O lixo nas ruas de Glasgow revela uma noite agitada

Os polícias estão juntos, em grupo. Separam-se por causa de dois miúdos que acabam por ser identificados. O polícia escreve o nome e a morada das crianças num bloco de papel. Eles estão sentados no banco impávidos e serenos. Ao lado, alheio à atuação policial, um rapaz segura uma coluna portátil na mão. As batidas da música alegram a companheira, que dança. Parece já terem esquecido o que os trouxe ali. Ambos desconhecem que, por esta hora, o primeiro-ministro britânico David Cameron está a fazer a sua primeira declaração oficial. E agradece à Escócia por não ter abandonado o Reino Unido.

John, 48 anos, escapa ao perfil destes resistentes. E até diz que a única pessoa “feliz com estes resultados é David Cameron”. De calções e de ténis, perfumado como quem tomou o banho da manhã, está sentado noutro banco, em torno da mesma estátua, a de Sir Walter Scott. Olhar preso no edifício da frente que diz qualquer coisa como “Glasgow é as suas pessoas”.

“Estou triste com o resultado. Não estive aqui ontem à noite mas tirei hoje o dia de folga para poder estar aqui a comemorar”, diz ao Observador.

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John, 48 anos, votou “sim”.

A ideia era comemorar, mas os resultados estão estampados no seu rosto, ainda incrédulo. Há três semanas fez questão de viajar até ao norte da Escócia, nas Highlands. Queria votar num lugar característico escocês. Escolheu as montanhas, em Glen Court, e até se fotografou com o boletim de voto já com a cruz assinalada no “Sim”. Queria fazer parte da História. O boletim seria enviado via postal, tal como foi permitido a todos os que não pudessem deslocar-se às urnas na noite de 18 de setembro.

Depois do voto, as sondagens trouxeram-lhe mais esperança. O movimento pela independência, encabeçado pelo nacionalista Alex Salmond, atingira os 48%, estava a dois pontos da metade. “Eu sabia que, como país independente, a Escócia ia passar por uma fase complicada. Mas estava disposto a isso. Eu não votei por mim”. Diz que votou pela filha, de dois anos e meio, e pelos escoceses. Pelo seu futuro.

“Sabia que uma Escócia independente não intervinha na guerra do Iraque e que uma Escócia independente teria o poder político mais próximo dos cidadãos”.

Nem tudo são motivos de tristeza. “Tenho a certeza que foi por causa da última sondagem que David Cameron prometeu mais poderes à Escócia. E por aí já temos uma vitória”.

Na loja de conveniência os jornais chegaram às horas habituais. Com exceção do “The Herald”, diz o funcionário, sem perceber porque lhe perguntam. É ainda manhã e as ruas estão silenciosas. Um som diferente do final de tarde do dia da votação. Era uma ambiente de festa, agora é de ressaca. Uma Glasgow de ressaca e de volta ao Reino Unido.