Estavam ambos de gravata azul, perfeitamente alinhados. Quer no discurso, quer nos elogios rasgados que teceram a um e a outro. O Presidente da República condecorou esta manhã Durão Barroso com o Grande Colar da Ordem do Infante D. Henrique, pela sua “extrema competência, sabedoria e dedicação” ao projeto europeu – mas também, e principalmente, pela ajuda que deu a Portugal. E o ex-presidente da Comissão Europeia agradeceu, emocionado, “tamanha distinção”, que o levou a chegar a uma conclusão: “foi correta a decisão que tive de tomar em 2004” quando se demitiu do Governo.

“Não encontramos outro político português que tenha obtido tão grande relevo na cena internacional”, começou por dizer Cavaco Silva, que tomou a palavra para prestar uma “justíssima homenagem” àquele que levou Portugal à presidência da Comissão Europeia durante os últimos dez anos. Falou em nome próprio, mais enquanto Aníbal Cavaco Silva do que propriamente enquanto Presidente da República que, por ser Grão-Mestre das ordens honoríficas, tem o dever institucional de galardoar determinadas personalidades. Os elogios foram redobrados e desdobrados – e é raro ouvir Cavaco Silva neste registo, mesmo que a cerimónia seja propícia a isso mesmo.

Lembrando os tempos em que foi primeiro-ministro e teve de participar em várias reuniões do Conselho Europeu, quando ainda Jacques Delors era presidente, Cavaco quis mostrar que conhece bem o funcionamento da Comissão e sublinhar que ele próprio – “como poucos” – pôde testemunhar e acompanhar de perto o trabalho desempenhado por Durão Barroso ao longo dos últimos dez anos.”Acompanhei de perto e sei bem que desempenhou um papel decisivo para que a Europa ultrapassasse as crises por que passou na última década”, nomeadamente a crise das dívidas soberanas, que chegou a pôr em causa o projeto europeu, disse o Presidente da República.

“Eu, como poucos, posso testemunhar como o dr. Durão Barroso deu sempre uma especial atenção a Portugal”, disse Cavaco Silva.

Mas Cavaco Silva não se limitou a comparar Durão Barroso a Jacques Delors. Foi mais longe, quase dizendo que o português superou o francês. Para Cavaco, os tempos da governação comunitária de Delors, que antes de Durão tinha sido o único a cumprir dois mandatos à frente do Executivo, foram “exigentes e complexos” – com o desmoronamento da União Soviética, a unificação da Alemanha pós-muro de Berlim, a invasão do Kuwait pelo Iraque. Mas o tempo de Durão Barroso foi ainda “mais exigente e mais complexo”, garantiu. Foram tempos difíceis, não só pelos fatores externos da crise económica internacional, mas também pela quase duplicação do número de Estados membros, que passaram de 15 para 28 durante a era barrosista, bem como a dificuldade em lidar com esses 28 diferentes governos. Neste ponto, Cavaco não quis deixar de dar um recado aos Executivos nacionais, ao atual ou ao anterior, que por vezes acham que “ficam melhor na fotografia se atirarem as culpas para Bruxelas de um problema que só a eles diz respeito”.

Os elogios foram para o trabalho desempenhado na Comissão Europeia, mas principalmente pela “ajuda” e “prestígio” que o Presidente da Comissão deu a Portugal. Segundo o Presidente da República, o “feliz resultado” que Portugal teve nas negociações do quadro financeiro plurianual e também no alargamento das maturidades e na descida das taxas de juro deveu-se sobretudo a Durão Barroso.

Quando tomou a palavra, para agradecer “tamanha distinção”, faltaram palavras a Durão Barroso. “Faltam-me as palavras devido à emoção do seu gesto e das palavras generosas que acabou de proferir”, começou por dizer o ex-primeiro-ministro português, dirigindo-se a Cavaco.

Mas as palavras acabaram por surgir. Primeiro, para dizer que a distinção que recebeu nesta segunda-feira serve, sobretudo, para duas coisas: “ver o reconhecimento do meu país e verificar que foi correta a decisão que tive de tomar em 2004”, quando abandonou o cargo de primeiro-ministro no Executivo português para assumir as funções de topo em Bruxelas. Não há arrependimentos, portanto. Assim como parece não haver rancor da parte do atual Governo e do Presidente da República.

E, para o provar, Barroso quis sublinhar que, ao longo dos últimos dez anos, Portugal esteve sempre no topo das suas prioridades. “Sempre quis defender o interesse de Portugal, porque não havia contradição com o interesse europeu”, disse, acrescentando que “sempre esteve em mim a convicção de que estava também a executar um programa português”. Primeiro português, só depois presidente da Comissão Europeia, disse.

Lembrando os desafios “excecionais” com que se deparou em Bruxelas, Barroso quis mostrar que a Europa está melhor hoje do que há dez anos, apesar de querer também reforçar o recado já deixado pelo Presidente de que a União Europeia não pode resolver todos os problemas dos vários governos. “Não se pode pedir à UE que resolva todos os problemas, que muitas vezes têm competência única dos Estados membros, e os governos não podem vangloriar-se quando corre bem e culpar Bruxelas quando corre mal”. O desemprego, diz Barroso, é um desses problemas que persistem e que tem de ser resolvido no âmbito nacional.

A assistir à cerimónia de homenagem de atribuição da Ordem Honorífica, que decorreu esta manhã em Belém, estava o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, e o ministro da Presidência, Luís Marques Guedes, acompanhados de alguns membros do Executivo. Curiosamente, à falta do vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, a equipa ministerial do CDS esteve em peso – Assunção Cristas, António Pires de Lima e Pedro Mota Soares -, dando-se pela falta de muitos elementos do Governo, ocupados possivelmente com as audições no Parlamento no âmbito da proposta de Orçamento do Estado para 2015. Mas, além do Executivo, estiveram também outras personalidades, como Manuela Ferreira Leite, que foi ministra das Finanças no governo de Durão e que, por isso, fez questão de estar na primeira fila para ver o agora ex-presidente da Comissão Europeia ser agraciado.

Do lado da oposição, não houve representantes. Nem do PS, nem dos partidos mais à esquerda.

No fim, houve tempo para uma fotografia de família, num momento que não estaria previsto no guião. Cavaco Silva chamou a família de Durão Barroso – mulher, filhos, genros e neto -, que estava em peso a assistir à condecoração, e, pegando na mão de Maria Cavaco Silva, pediu que registassem o momento. Quem chegasse atrasado e apanhasse a cena a meio, quase diria que parecia uma passagem de testemunho.