Não faltam perguntas a colocar ao antigo presidente do Banco Espírito Santo (BES). Ricardo Salgado, que estará nesta terça-feira na comissão de inquérito que decorre no Parlamento, é o grande protagonista do drama do grupo e do banco com a marca Espírito Santo.

Líder incontestado desde o início dos anos 1990, o ex-presidente do BES concentrava em si, e em poucos leais, o comando do banco, do grupo e dos negócios que envolveram várias grandes empresas portuguesas, onde se destaca a Portugal Telecom.

Mesmo que Ricardo Salgado tenha nas últimas declarações públicas apelado para a responsabilidade solidária dentro do grupo, é inevitável que todas as atenções se foquem em si. O ex-líder do BES já afirmou estar disponível para prestar os esclarecimentos necessários na audição desta terça-feira. Aqui fica um guião possível dos muitos temas incontornáveis.

1. Causas e responsabilidades pelo descontrolo da situação económica nos negócios não financeiros do Grupo Espírito Santo (GES) que levaram à ocultação de dívida e irregularidades contabilísticas na Espírito Santo Internacional

2. Papel de conflito com Pedro Queiroz Pereira pela Semana no agravamento dos problemas financeiros do grupo, sobretudo pela visibilidade pública de problemas como o excesso de exposição dos fundos a empresas do GES

3. O contágio da crise do GES ao BES. A utilização dos fundos dos clientes para financiar o grupo, primeiro através dos fundos de investimento e depois de produtos vendidos aos balcões do banco.

4. Desrespeito pelas instruções do Banco de Portugal de criação de barreiras de proteção (ring-fencing) do banco em relação ao grupo.

5. Incumprimento de planos de reestruturação e saneamento financeiro das empresas não financeiras. Porque não foram vendidos ou demoraram a ser vendidos empresas e ativos

6. Concessão de crédito descontrolada e fora das regras do Banco Espírito Santo Angola (BESA) e demora em tomar medidas de saneamento financeiro e de gestão. Como foi obtida garantia soberana do estado angolano e o que aconteceria ao BES se não tivesse sido dada.

7. Como foi financiada a recapitalização privada do BES. Porque não recorreu aos fundos da troika? Teria feito diferença?

8. Ausência ou ineficácia dos mecanismos de controlo interno do banco e do grupo, em particular, dos conflitos de interesse entre acionista e BES, e de reporte contabilístico e auditoria.

9. Operações sob suspeita de terem beneficiado grupo, membros da família ou o próprio: venda da Escom, contrato dos submarinos, prenda de 14 milhões e correções e perdão fiscal.

10. Ocultação ou demora na prestação de informação sensível e grave a reguladores, acionistas e colaboradores próximos. Acreditava na solidez e futuro do banco quando vendeu aumento de capital de maio?

11. Sucessão. Porque resistiu tanto ao processo de sucessão quando eram já notórios sinais de desgaste público e perda de credibilidade e confiança?

12. Planos B e pedidos de ajuda. Alguma vez equacionou ou tentou recorrer a fundos públicos para recapitalizar o BES? Confiava mesmo que ia obter financiamento do Estado (caixa) ou de Angola? A quem recorreu mais? Quando percebeu que tudo (até o banco) estava perdido? E quando o assumiu para família, autoridades e colaboradores?

13. As culpas no período de vazio de poder. Qual responsabilidade e influência nas operações de realizadas em julho (obrigações intermediadas pela Eurofin e recompradas com grandes perdas e cartas de conforto à Venezuela) que fizeram disparar os prejuízos e precipitar a resolução.