O Governo deve ser firme perante os EUA para conseguir contrapartidas que, perante a extinção de centenas de postos de trabalho, minimizem os estragos e sustentem a economia da ilha Terceira, defendeu esta tarde o deputado social-democrata Joaquim Ponte, depois de reafirmar que o PSD quer ouvir o ministro dos Negócios Estrangeiros sobre a matéria.

A decisão do Governo norte-americano de reduzir o efetivo militar na Base das Lajes, nos Açores, que levará ao despedimento de cerca de 500 trabalhadores portugueses até ao próximo outono, esteve esta tarde em debate no Parlamento por iniciativa do PSD. Numa declaração política, o deputado açoriano Joaquim Ponte lembrou o que o ministro Rui Machete disse há uma semana na abertura do seminário diplomático sobre a necessidade de haver consequências caso o desfecho da questão das Lajes não fosse o mais favorável, mas acrescentou que essa “firmeza” deve ser visível daqui para a frente, depois de a decisão estar consumada.

“Esta firmeza tem de manter-se e reforçar-se por forma a conseguir contrapartidas que sustentem a economia dos Açores, da Ilha Terceira e, em especial, do concelho da Praia da Vitória, evitando o recurso à emigração e o consequente empobrecimento, envelhecimento e despovoamento do concelho e da Ilha Terceira”, afirmou o deputado do PSD, que chegou a questionar indiretamente o Governo pela forma como foram conduzidas as negociações entre EUA e o Estado português:

“Não compreendemos a rapidez com que, de um estudo elaborado pelo Departamento de Defesa norte-americano se passou a uma decisão sem que, aparentemente nenhuma negociação tenha existido com o Estado português”, disse.

E perante a “complexidade e dimensão do problema”, o PSD pediu que o Parlamento se unisse em torno da procura de soluções para aquilo que o deputado Joaquim Ponte caracterizou de “difícil encruzilhada”. O CDS fez eco do apelo social-democrata e os partidos à esquerda apontaram o dedo ao Governo, que “ficou aquém” no processo de negociações com os EUA, na opinião dos socialistas.

Respondendo ao apelo, o deputado socialista Carlos Enes afirmou que o PS estava “empenhado” no esforço de defesa da população e da economia dos Açores, mas que apontou responsabilidades ao Governo que, disse, ficou “muito aquém do que lhe competia”, escudando-se no argumento de que “a diplomacia exige sigilos”. Recuperando declarações do presidente do Governo regional dos Açores, o deputado do PS disse mesmo que a decisão unilateral dos EUA representava uma “monumental bofetada no Estado português”.

“Ou há imperialismo ou não há emprego”

Para a bancada comunista, que sempre se manteve crítica da presença dos EUA nos Açores, a decisão norte-americana é “preocupante” pelo valor que tem para a economia da região e pela forma como afeta a vida das pessoas.

“Obviamente que não nos orgulha o facto de existir uma base norte-americana nos Açores e que tenha ficado ligada à guerra do Iraque. Mas a verdade é que é uma das principais fontes de emprego na Terceira e por isso percebemos o valor que tem para a economia da região”, disse António Filipe, que sublinhou que o que deve ser feito agora, depois de consumada a decisão, é ouvir o ministro dos Negócios Estrangeiros para saber “o que está a ser falado no plano diplomático para que a economia açoriana seja compensada pelos prejuízos alcançados por esta decisão unilateral”.

A intervenção do deputado comunista motivou um comentário do centrista Telmo Correia que, em jeito de provocação, congratulou a cedência da bancada do PCP e espicaçou os comunistas: “Ou há Nato ou não há, ou há imperialismo ou não há emprego, senhor deputado”, disse entre risos das bancadas da maioria.

Segundo o deputado social-democrata Joaquim Ponte, se a redução prevista se concretizar estima-se que, no próximo outono, 25% da população ativa do concelho da Praia da Vitória, onde se insere a Base das Lajes, esteja desempregada e que o PIB da região sofra uma quebra de 30%.