Três metros são coisa pouca. Depende do ponto de vista, claro, ou da proporção, se quiser. Num pedaço de relva com as margens pintadas a branco e com áreas marcadas por linhas, é comum ver o retângulo desenhar-se à volta dos 100 metros de comprimento e 64 de largura. A coisa não costuma fugir muito disto e, quando foge, é sempre dentro de uns limites, para quem lá dentro anda atrás de uma bola não estranhar. Três metros podem ser coisa pouca, sim, mas notam-se. Mesmo que Jorge Jesus, como quem, pelas palavras, encolhia os ombros, dissesse que isso “não [iria] influenciar a forma de jogar” de quem vestir de encarnado.

Esses três metros eram os que faltavam, em largura, ao relvado do Arouca, comparado com o que o Benfica tem no meio de casa, no Estádio da Luz. Problemas o treinador não via, além de, e só talvez, fazer com que “os lances de bola parada” fossem “um pouco mais pormenorizados”. Não se reparou se o foram, mas, de facto, a redonda parou muito. E muitas vezes. Tantas quanto os ressaltos que, na primeira parte, dividiram a bola a meio campo e pouco a deixaram em paz, para rolar na relva e com passes com o tino que os chutões para a frente pouco têm.

Arouca: Goicochea; Iván Balliu, Diego Galo, Hugo Basto e Nelsinho; Nuno Coelho, David Simão e Artur; Iuri Medeiros, Kayembe e Roberto.

Benfica: Júlio César; Maxi Pereira, Luisão, Jardel e Eliseu; Samaris, Pizzi, Gaitán e Salvio; Jonas e Lima.

Porque Samaris e Pizzi apertados eram por David Simão e Artur, que só lhes davam espaço para lá da fronteira do meio campo. Sem médios para filtrar a bola, Jardel e Luisão iam, à vez, inventando passes à caça de Salvio, Jonas ou Lima, mais pelo ar do que pela relva. Gaitán, torcendo o nariz a tanta bola pelo ar, largava a linha e vinha pedir que a passassem para o pé, ao meio, para depois correr e fintar muito com ela. Espaços havia poucos e o Arouca preocupava-se mais em fechá-los a defender do que em abri-los a atacar.

Foi quase sempre assim até ao intervalo, aliás, só atacou uma vez. Jonas foi buscar a bola al meio campo, o pé direito atraiçoou-o e deixou-a sair. Lançamento para o Arouca, que depois de um ressalto sobrou para Nelsinho, lateral esquerdo que colocou tino num passe longo que pediu a Iuri Medeiros, escondido entre Jardel e Eliseu, que corresse. O extremo emprestado pelo Sporting obedeceu e, com um toque, fez o lateral esquerdo do Benfica dançar, tocou a bola do pé canhoto para o direito que, de primeira, rematou para a baliza. E para golo, o 1-0, logo aos 7’.

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Depois viu-se a histórias dos ressaltos e dos chutões, onde pelo meio só Salvio, aos 19’, com um remate parado por Goicochea, e aos 30’, com outro desviado pela barra, quando estava a dois metros da baliza, fez questão de tentar assentar um jogo que atabalhoado insistia estar. Os encarnados iam descansar durante 15 minutos quando pouco tinham feito para o merecerem e, no balneário, entre palavras irritadas, Jorge Jesus poderá ter-lhes dito uma coisa — mexam-se e desmarquem-se mais, e mantenham a bola colada à relva. Porquê? Pois, sendo mais estreito, num campo destes são os pezinhos que melhor tratam a bola que se costumam notar quando menos espaço há para fazer coisas com a bola.

Isso seria provado, mas, antes, e mesmo com metros de à vontade, Goicochea também provou como um guarda-redes pode e deve treinar o que faz com a bola — o uruguaio, aos 51’, recebeu uma bola atrasada pela defesa do Arouca e, quando a chutou, acertou em Lima que saltou à sua frente. O ressalto foi ter com Jonas, que a uns 25 metros da baliza, teve a calma e a mira certas para rematar a bola rasteira. O 1-1, e o novo golo do brasileiro no campeonato, entraria junto a um dos postes. E o Benfica, aqui sim, acordava e ia buscar a intensidade que lhe faltara na primeira parte.

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Logo no minuto seguinte, um ressalto que fez a bola passar sobre a defesa do Arouca pediu a Lima para sprintar: o avançado apanhou-a, dominou de peito e, com Jonas sozinho na área, preferiu rematar de canhota, na passada, e fazer a bola passar um pouco por cima da barra. Jesus, no banco, gesticulava e berrava em desaprovação. Os encarnados, já com Talisca em vez de Samaris, pressionava e queriam recuperar todas as bolas bem perto da área do Arouca, que já poucos passes conseguiam fazer a chegar a Iuri ou Kayembe, os extremos em quem pretendia confiar para lançar contra ataques.

E o Benfica, lá está, ia conseguindo trocar os passes rasteiros e montar as jogadas com mais de três passes que, até aí, não se viram. Aos 58’, um desses passes obrigou Nico Gaitán a gastar as pernas numa corrida junto à linha, na esquerda, para não deixar a bola sair. Conseguiu-o e até cambaleou, mas logrou cruzar a bola para a área, rumo ao primeiro poste — onde estavam os pés de Jonas que, rodeado e com pouco espaço para inventar, desviou um defesa com um toque na bola para o lado contrário ao que o corpo denunciara. Depois rematou, Goicochea defendeu e atirou o ressalto para o segundo poste, onde estava Lima para marcar. 2-1, 11.º golo do brasileiro e um suspiro de alívio para os encarnados.

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Haveria um segundo, quando Hugo Basto, aos 62’, agarrou Lima após o avançado lhe oferecer um cabrito (fez a bola passar-lhe por cima da cabeça, para a ir buscar mais à frente) maldoso e obrigar o defesa a pará-lo em falta. O brasileiro estava a poucos metros da área e já sem outros adversários perto. O árbitro, portanto, achou que um cartão vermelho se justificava. E, com um homem a menos, o Arouca passou, de vez, a existir apenas para defender, organizar-se a defender e, depois, esperar ter pernas e energia para aproveitar as bolas que fosse recuperando.

Até ao final assim o foi: os de encarnado a dominar a bola, mesmo sem rotação e rapidez a circulá-la, e os de amarelo a correrem atrás dela. Pelo meio houve, sim, uma bola que foi ter com Ola John, à esquerda, e até lá já estaria à espera do que o holandês ia fazer — dominá-la, cortar para dentro e levá-la para o centro do relvado. Assim o fez, mas não durante muito tempo, pois o extremo levantou a cabeça, viu Lima a arrancar e soltou um passe que fugiu aos defesas e encontrou-se com o avançado, que à frente de Goicochea rematou para fazer o 3-1. E o 12.º golo na liga, cinco a menos que os 17 de Jackson Martínez.

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Depois do susto, do desatino e de um jogo que, às tantas — com o sol de meia tarde, os gritos e barulho dos adeptos bem audíveis e a bola que mais tempo passava no ar –, mais parecia ser da distrital, o Benfica atinou, aumentou a intensidade, pressionou o adversário e, com um brinde de Goicochea pelo meio, conseguiu revirar o resultado e puxar o encontro para o seu lado. Os encarnados, com esta vitória, continuam com mais quatro pontos que o FC Porto e não abanam na liderança do campeonato.