A noite era de festa e a fanfarra criou-se porque a ocasião celebrava a reforma de Ed Donovan, porta-voz dos serviços secretos (United States Secret Service) norte-americanos. Vários agentes estariam presentes, entre eles Mark Connoly, número dois na hierarquia de comando da força de segurança privada de Barack Obama, presidente dos EUA, e George Ogilvie, um alto supervisor da agência destacado em Washington. Feitas as despedidas ao recém-reformado, ambos entraram no mesmo carro, pertencente ao governo, e rumaram à Casa Branca, onde criaram problemas.

Assim arranca a história que, esta quinta-feira, o Washington Post publicou, descrevendo o episódio que se terá passado a 4 de março, na passada semana. Um que não acabou bem, pois, quando chegaram a uma das ruas que ladeia o edifício que serve de residência oficial ao presidente norte-americano, os dois agentes depararam-se com uma operação policial — as autoridades estavam a bloquear uma rua, já no complexo da Casa Branca, demarcando a zona com fita devido às suspeitas que, pouco antes, surgiram devido a uma embalagem que fora encontra na área.

Pouco passava das 22h30 quando, perante este cenário, os dois agentes pararam o carro e mostraram os distintivos, para se identificarem. As luzes no capô do veículo, contudo, estavam acesas, segundo relatos de testemunhas, que o Post não identificou. De repente, contudo, o agente que segurava o volante arrancou com o carro, rompeu a fita e acabaria por conduzi-lo contra uma barreira de proteção, localizada uns metros à frente. Ambos terão consumido bebidas alcoólicas na festa onde tinham estado num bar de Washington, pouco antes.

As críticas de Jasson Chaffetz, deputado republicano no Congresso dos EUA e chefe do sub-comité responsável pela Segurança na Casa Branca.

O agente da polícia responsável pela tal operação — a segurança na Casa Branca é assegurada tanto por forças policiais, como pelos serviços secretos — quis deter os dois agentes e submetê-los a um teste de álcool, no local. Mas um supervisor dos serviços secretos, que assistira ao episódio, insistiu que Mark Connoly e George Ogilvie seguissem caminho. O Washington Post escreve que as normas de segurança no complexo ditam que, por exemplo, as forças de segurança soltem cães quando alguém quebra, ou chega, às barreiras de segurança nas quais o carro acabou por embater.

O United States Secret Service, agência responsável por assegurar a segurança do presidente dos EUA, ainda não reagiu ou emitiu qualquer comunicado relativo a este incidente. O diário, porém, citando fontes ligadas ao processo, adiantou que ambos os agentes já foram destacados para projetos fora do terreno, sem deveres operacionais — quando, por norma, o procedimento que a agência adota após casos de indisciplina ou conduta errónea passa por suspender as pessoas em causa. E não têm sido poucos.

Um caso entre muitos

Em outubro, por exemplo, um intruso conseguiu chegar à Ala Este da Casa Branca, depois de saltar a vedação, evadir-se de dois agentes e ultrapassar várias barreiras de segurança no edifício. Barack Obama e a família tinha abandonado pouco antes o complexo. O episódio acabaria por levar à demissão de Julia Pierson, diretora dos serviços secretos. Em fevereiro, aliás, e após apontá-lo como o seu substituto interino, Obama confirmou Joseph Clancy, ex-chefe da sua força de segurança privada, como novo diretor dos serviços secretos.

Obama, portanto, contrariou o conselho que o Departamento de Segurança Interna lhe dirigira, o ano passado, sugerindo que o presidente nomeasse alguém exterior à agência para liderar a entidade.

Em outubro de 2013, a polícia alvejou uma mulher que conduziu um carro para lá das barreiras de proteção da Casa Branca e obrigou vários agentes a persegui-la. Acabaria por morrer. Em 2012, cerca de uma dúzia de agentes dos serviços secretos foram apanhados com prostitutas e a consumir bebidas alcoólicas em Cartagena, na Colômbia, dias antes de Barack Obama discursar numa cimeira que se realizou na cidade. Quase todos foram demitidos da agência.

Já foi aberto um inquérito às alegações deste mais recente inquérito. Mas não pela agência — a investigação será conduzida pelo próprio Departamento para a Segurança Interna da administração norte-americana. “Caso uma má conduta seja identificada, serão tomadas medidas apropriadas de acordo com as regras e regulamentos”, disse apenas Brian Leary, atual porta-voz dos serviços secretos. E mais, para já, não se sabe.