desilusão

Uma dúzia de minutos no relógio e, obediente ao chip, ao programa que Lopetegui lhe instalou na cabeça, Fabiano sai disparado da baliza. Corre, desliza, aponta o carrinho à bola, uns 15 metros para lá da fronteira da grande área, mas falha — acerta no pé de André Claro e deixa a baliza deserta. Falta, livre e expulsão. Os dragões ficam com menos um no relvado logo aos 12’, com um 0-0 no marcador e um jogo quase interior pela frente. E o que faz o Arouca? Muito pouco.

Ao arranque ousado, a pressionar, a querer ter a bola nos pés, a arriscar nos passes para as costas da defesa bem subida do FC Porto, a equipa de Pedro Emanuel, depois, pouco mais fez. Rematou muito, sim, mas de bem longe, e dos 14 pontapés na bola, só dois acertaram com a bola na baliza — um deles para provar que Helton, aos 36 anos, ainda aí está para as curvas que o obrigarem a fazer na baliza. De resto, o Arouca foi pior em tudo: nos passes certos, no tempo que passou com a bola, nas jogadas perigosas. Tudo. “Tivémos ansiedade perante um adversário de qualidade”, justificou Pedro Emanuel, ao dizer que “a equipa esteve sempre metida no jogo”.

Aos seus olhos, talvez. Pois o Arouca, em quase 80 minutos só ameaçou uma vez. É pouco, muito pouco para qualquer equipa que esteja no relvado com mais um homem que o adversário. Os comandados por Pedro Emanuel, mesmo conseguindo “muitos remates e cantos”, não conseguirem ter duas coisas — coragem e atrevimento para arriscar a sorte no Dragão. Algo que, a espaços, o Penafiel logrou fazer em Alvalade, há uma semana: até aos 7’ sofreu dois golos, mas aos 10’ ficou com mais um em campo e, até ao intervalo, marcaria um par de vezes para empatar o jogo.

Depois perdeu, sim, e Rui Quinta, na altura, sabia porquê: “O nosso subconsciente às vezes não nos ajuda muita. Começa a entrar na cabeça que o empate, se calhar, é bom e essa não pode ser a nossa filosofia.” O treinador do Penafiel lamentava a coragem que, aos poucos, fugira da mente dos seus jogadores, a mesma que não houve nos dirigentes do clube que, esta segunda-feira, o despediram e fizeram dele o sétimo técnico a fazer as malas na liga. E o segundo em Penafiel, pois Rui Quinta aterrara no clube em setembro, substituindo Ricardo Shéu, e sai agora após perder, em casa, frente ao Rio Ave (2-0). Fala-se em Carlos Brito, treinador que durante anos e anos andou pelo tal clube de Vila do Conde, para o substituir.

Veremos o que consegue fazer em dois meses e nove jornadas por realizar, sem tempo para mudar grande coisa nos hábitos de quem joga. Durante esse tempo, quem terá de mudar alguma coisa é Rui Vitória, homem das ordens na equipa que, desde 24 de janeiro, só conseguiu uma vez agarrar o que o treinador tem no apelido — a única nos oito jogos já feitos na segunda volta do campeonato. O Vitória de Guimarães perdeu pela segunda jornada consecutiva e, desta vez, até deixou que o Vitória de Setúbal, sete meses depois do arranque da liga, ganhasse finalmente um jogo longe de casa.

destaque

Em Guimarães, mesmo com o Vitória a cair e o quinto lugar, o último que faz reserva para um voo rumo à Europa, na próxima época, estar a salvo já só por quatro pontos, não deverá aparecer uma chicotada psicológica. Mas por alguma razão alguém lhe deu esse nome e, no caso da Académica, com razão. Desde 15 de fevereiro, dia em que Paulo Sérgio disse adeus a Coimbra só com uma vitória feita na liga, os estudantes não mais perderam. Sim, já lá vão quatro jogos a sorrir (três vitórias e um empate) que servem de prova para a boa decisão que foi colocar José Viterbo a dar ordens na Académica. Agora ganhou ao Nacional de Madeira e a equipa até já marca golos “de recreio”.

Recreio é sítio onde, por vezes, os jogadores do Benfica, os poucos a quem mais se pede para atacarem, parecem estar. Assim o foi no sábado, quando Jonas marcou o primeiro golo contra o Braga, após se ver um, dois, três e quatro toques na bola, de primeira, entre ele, Lima e Gaitán, para trocar as voltas aos adversários e arrancar a equipa para a vitória (2-0). Esta é a tal nota artística que Jorge Jesus fala desde que ali aterrou, em 2009. Ela nem sempre aparece, mas quando o faz, coloca os jogadores a rirem-se como miúdos. Como aconteceu desta vez.

Os de Braga, portanto, perderam pela segunda jornada seguida — e o Sporting, o que está em Lisboa, ganhou dois jogos seguidos. Desta vez foi à Madeira vencer o Marítimo com um golinho de penálti, obra do habituée Adrien, o homem que nasceu em França e especialista se tornou a rematar bola quando esta para a 11 metros da baliza. Salvou-se a vitória para uns leões que nem sempre mostraram grandes coisas, mas, assim, conseguiram aumentar para sete os pontos de vantagem sobre os minhotos, no terceiro lugar.

Em cinco jogos contra os grandes em número de títulos, os arsenalistas somaram para já três pontos, três golos marcados e sete sofridos. Venceram o Benfica em casa, perderam sempre com o FC Porto e perderam em Braga com o Sporting (ainda vai jogar em Alvalade). Os minhotos, contra as restantes equipas, ganham, convencem e são melhores, mas para já ainda não deram o salto para se intrometerem nos três primeiros. Sérgio Conceição, aliás, bem o tem dito durante a época: o Braga pensa jogo a jogo, está aqui apenas para lutar e vai com cautela. A mesma que o treinador teve até quando o departamento de marketing do clube criou um vídeo motivacional para o jogo frente ao Benfica.

Resta lembrar algo que os dragões já conseguiram — o FC Porto de Lopetegui, esta época, já igualou os pontos com que o FC Porto de Paulo Fonseca e Luís Castro terminou o campeonato, na temporada passada. Já amealhou 61, quando ainda restam 27 por disputar.

frase

“Não temos agora a qualidade de jogo que já apresentámos noutra fase da época e há momentos em que se tem de ganhar mesmo não jogando tão bem.” Marco Silva tem razão: uma equipa das grandes, que tem a mira nos títulos, em ganhar, ganhar e ganhar, tem de o conseguir fazer mesmo quando o que mostra no relvado não é bonito. Fê-lo nos Barreiros, com o Marítimo à sua frente.

O problema é qual tal não aconteceu nos sete meses que já leva esta época. E mais: não aconteceu até quando o Sporting fez bem mais e melhor do que mostrou na Madeira. Fosse pela imprudência nas faltas (1-1 em Coimbra, com expulsão de William), no desacerto a rematar à baliza e oportunidades falhadas (1-1 em Alvalade, com o Belenenenses) ou na falta de rotação e agressividade (derrota por 3-0, em Guimarães), só à 27.ª jornada é que se viu ouviu o treinador dos leões dizer isto. O Benfica e o FC Porto também já venceram algumas vezes a jogar mal.

resultados

Paços de Ferreira 1-o Boavista
Benfica 2-0 Sporting de Braga
Vitória de Guimarães 0-1 Vitória de Setúbal
Belenenses 2-2 Estoril Praia
Académica 2-1 Nacional da Madeira
Gil Vicente 0-1 Moreirense
Penafiel 0-2 Rio Ave
Marítimo 0-1 Sporting

O Moreirense enfiou-se num autocarro e viajou até Barcelos para, a nove jornadas do final do campeonato, assegurar a manutenção na Primeira Liga. Coisa que não conseguira em 2012/2013, na anterior tentativa para ficar entre o topo do futebol português. Desta vez conseguiu-o com Miguel Leal, treinador que montou uma equipa com nomes pouco conhecidos, que raramente se desorganiza, e consegue incomodar qualquer adversário, como já o provou esta época. “Vou dormir tranquilo”, disse o técnico, após a vitória frente ao Gil Vicente. E para o ano cá estará o Moreirense que, por isso, festejou a preceito.