Seis escritores anfitriões da gala anual do PEN American Center cancelaram a presença no evento por discordarem da atribuição do prémio Liberdade de Expressão e Coragem ao jornal satírico francês Charlie Hebdo. Consideram que o jornal é intolerante e que o ataque à redação, onde morreram 12 pessoas, não entra no âmbito da proteção do prémio.

A decisão do PEN American Center de homenagear o jornal satírico francês Charlie Hebdo com o prémio anual de reconhecimento pela coragem na defesa da liberdade de expressão foi divulgada em março, mas agora os romancistas Peter Carey, Michael Ondaatje, Francine Prose, Teju Cole, Rachel Kushner e Taiye Selasi anunciaram que não vão participar da homenagem, marcada para o dia 5 de maio, no Museu Americano de História Natural, em Manhattan.

Peter Carey considera que atribuir o prémio ao Charlie Hebdo é ir além do que ele representa: defender a liberdade de expressão da opressão dos governos. “Foi cometido um crime hediondo, mas é um caso de liberdade de expressão que justifique a defesa por parte do PEN América?”, disse ao New York Times. E acrescentou: “Tudo isto se complica com a aparente cegueira do PEN em relação à arrogância cultural da nação francesa, que não reconhece a sua obrigação moral para com uma grande parte da população, e sem poder”.

Num artigo para a The New Yorker, da autoria de Teju Cole dois dias após os atentados de 7 de janeiro, o escritor acusou o Charlie Hebdo de se centrar em “provocações racistas e islamofóbicas“. Com palavras menos fortes, Rachel Kushner decidiu não ir à gala por considerar que a publicação francesa tinha uma espécie de visão secular e que promovia a intolerância cultural. Por se sentir desconfortável com a decisão, enviou um e-mail para a direção do PEN a anunciar que não iria comparecer.

O presidente do PEN desvalorizou a situação, sublinhando que a decisão pode ser controversa, mas que o número de escritores descontentes não é significativo, dado o universo de cerca de 60 escritores no total. Na altura da decisão, a organização lembrou que “é função dos satíricos de qualquer sociedade livre desafiar o poderoso e o sagrado, desafiando os limites de forma a que a liberdade de expressão fique cada vez mais forte e livre para todos nós”.

A redação do Charlie Hebdo, em Paris, foi atacada por dois fundamentalistas islâmicos no dia 7 de janeiro. 12 pessoas morreram, entre as quais dois polícias. Nos dias que se seguiram, a discussão em torno da liberdade de expressão e dos seus limites dominaram as conversas e debates em várias partes do mundo. Quase quatro meses depois, a discussão continua no PEN American Center.