O clásico, o super, não o hiper-mega-super-inflacionado aqui do lado (em Espanha), está rasgado. Como sempre. Mais do que jogar e fazer coisas bonitas com a bola, veem-se pés a entrarem de sola, faltas a torto e a direito e muitos ressaltos. A Bombonera não perdoa e o estádio está barulhento como sempre. Nervos e picardias nunca faltam, mas a ocasião ajuda a que, desta vez, o dérbi dos dérbis em Buenos Aires seja mais quentinho que o habitual: jogam-se os oitavos de final da Copa Libertadores e, na primeira mão, o River Plate vencera 1-0. Agarrem-se e tenham cuidado, porque, assim, o Boca Juniors tem de remontar e está ali tudo reunido para que a duelo ferva.

Até fervilha bastante, mas em 45 minutos a tampa não lhe salta. Ninguém remata uma bola para dentro da baliza e golos no hay. E a Bombonera não gosta disto: o estádio grita, esfola gargantas com berros e mostra que a missão ali é despachar o rival. Só que alguém se deixa levar pela fervura e, vendo uma nesga de espaço entre as barreiras que circundam o relvado e separam o adepto do jogador da bola, decide a aproveitar. Espera que o árbitro apite para o intervalo e, assim que a equipa do River Plate se aproxima, larga o gás pimenta. E pronto, o caldo entorna-se: vários jogadores agarram-se à cara, enchem-na com água e arma-se a confusão.

https://www.youtube.com/watch?v=eiLXxjBa0L4

Toda a gente foge do relvado e o homem do apito não tem hipótese — uma hora e 45 minutos depois desta confusão, decide suspender o jogo. Isto aconteceu a 15 de maio e, entretanto, a CONMEBOL, entidade que manda no futebol sul-americano, castiga o Boca e dita que seja o River a seguir para os quartos-de-final da Libertadores. O país choca-se, não por isto, mas pelo gás pimenta que estragaram um Superclásico que coloca o mundo a juntar, na mesma conversa, Argentina, o futebol e a violência. Tudo enquanto os argentinos procuram um culpado. Ainda se chega a noticiar que fora a polícia a lançar o gás pimenta. Mas não.

No estádio há câmaras e, nos dias seguintes, alguém vasculha as imagens gravadas em busca de quem teria atacado os jogadores do River Plate. É por aí que se deteta um homem, vestido de amarelo e com um gorro azul a tapar-lhe a cabeça, a fazer movimentos e gestos estranhos na bancada. Chega-se à conclusão que sim, foi mesmo ele. O problema é que se demora a saber que adepto é este e apenas se chega lá porque Adrián Napolitano se chega à frente. “Quando me apercebi, quis morrer. Fi-lo sem me dar conta, caiu-me o mundo em cima. Pensei que não havia câmaras e que isto não ia chegar a tanto”, disse, quando teve de deixar mensagem no telemóvel do jornalista que não lhe atendeu a chamada — sim, Adrián quis denunciar-se.

https://twitter.com/MarcoTorsiglier/status/599068845031170048

(Mensagem que Marco Torsiglieri, antigo jogador do Sporting e hoje no Boca Juniors, publicou no Twitter, após a suspensão do encontro.)

Por isso pegou no telefone e ligou a Gustavo Gabria, um conhecido repórter argentino da revista Olé. E a partir do momento em que a história rebentou foi um instante até se descobrir tudo e mais alguma coisa sobre Adrián Napolitano. E uma delas até serviu para lhe dar uma alcunha — El Panadero, ou O Padeiro. Tudo porque, ao que parece, o pai de Napolitano é proprietário de várias padarias na zona sul de Buenos Aires, capital argentina. O Padeiro tem 31 anos, é casado, pai de uma filha e louco pelo Boca Juniors desde pequenino. “Há 25 anos que vou aos jogos. Todos me conhecem: sou um trabalhador que acorda às 4h da manhã e nunca estive preso. Nunca imaginei que ia chegar a este ponto”, confessou ao jornalista.

Tanto chegou que, agora, por sua causa e não só — além do Padeiro, as autoridades identificaram outros dez adeptos suspeitos de terem participado no episódio que suspendeu o jogo –, os argentinos não param de discutir a questão da segurança nos estádios de futebol. “Foquem-se na forma como funciona a violência no futebol, porque esta pessoa saiu disfarçada do estádio e, através das câmaras, vimos como lhe foram indicando como podia sair”, criticou Daniel Pablosky, o fiscal da Unidade Especial de Delitos Desportivos que está responsável por liderar a investigação ao caso, citado pelo El Universal. Já em 2012, aliás, Napolitano integrava um grupo de adeptos do Boca que agrediu alguns elementos da claque do Independiente, outro clube argentino.

O fiscal já disse que as filmagens mostrarão que Adrián Napolitano teve ajuda de funcionários do clube para se encaminhar para fora do recinto. Mesmo assim, um juiz retirou a ordem de detenção do Padeiro na esperança de que ele compareça em tribunal da mesma maneira que foi descoberto — de livre vontade. Caso Napolitano decida por lá aparecer, não deverá ser punido com mais de 16 meses de prisão, escreve o jornalista que recebeu a mensagem do Padeiro, embora a pena prevista para estes casos vá de um mês a três anos.

Os advogado de Napolitano, pelos vistos, até acreditam que não existem provas suficientes para lhe imputar o que seja. “Ainda não vi nada que o incrimine. Sou adepto do Boca e o caso indignou-me, mas há que ver se é mesmo ele”, disse um dos representantes do El Panadero, que o Olé apenas identificou como Carluccio. Talvez o tenha dito porque este Padeiro não é um padeiro qualquer: ao que parece, conhece muita gente. A imprensa argentina pôs-se a investigar e, das redes sociais, desenterrou fotografias que Adrián Napolitano tirou, por exemplo, a bordo de um avião com uma antiga candidata à câmara de Buenos Aires — que, por sinal, era apoiada por Cristina Kirchner, presidente do país.

As suspeitas de que o Padeiro terá abandonado o estádio La Bombonera com ajuda de funcionários do clube também não ajuda. Daí as críticas a Daniel Angelici, presidente do clube que é amigo e aliado de Mauricio Macri, governador de Buenos Aires e candidato às próximas eleições presidenciais na Argentina. Ou seja, o gás pimenta que saiu da mão de Adrián Napolitano está a ter implicações que não param de crescer. E tudo veio do homem que, em 2001, então numa entrevista para um programa da TyC Sports, uma estação de televisão argentina, fez uma confissão: “A minha vida é o Boca, acordo e penso logo no Boca.” Ao que parece, pensou demasiado.