Para a revista norte-americana The New Yorker, o petróleo é a chave do poder em Luanda. Num artigo publicado na edição de 1 de junho, a revista descreve como vivem os emigrantes na capital angolana que retrata como uma cidade marcada pela desigualdade extrema. Se o chamado “ouro negro” é abundante, os itens mais banais utilizados no dia a dia escasseiam, já que quase nada é produzido em Angola, conta a The New Yorker. As importações vão assim de laranjas a calças de ganga, passando por computadores e vinho. Quanto aos preços, esses são astronómicos.

A imagem que ilustra o artigo foi criada por Emiliano Ponzi, e mostra uma mulher angolana a transportar um garrafão equilibrado no topo da cabeça, como é habitual nos países africanos. Por detrás ergue-se uma cidade moderna, em construção, junto ao mar onde três iates marcam presença.

Nos últimos dois anos, Luanda foi considerada pela consultora Mercer como a cidade mais cara do mundo para imigrantes, à frente de Singapura ou Tóquio. A revista explica que uma lata de Coca-Cola pode custar 9 euros, os carros da marca Range Rover custam o dobro do preço do resto do mundo e as renda de uma casa num condomínio pode custar 15 mil dólares por mês.

A quantidade elevada de petróleo produzida em Angola é um dos temas aprofundados. O país africano está a produzir cerca de 1,8 milhões de barris de petróleo por dia, sendo que em África apenas a Nigéria produz e exporta mais. “Este ‘boom‘ transformou um estado falhado numa das economias com o crescimento mais rápido do mundo”, escreve a The New Yorker.

A revista considera que José Eduardo dos Santos, presidente de Angola há mais de 30 anos, se apercebeu (há muito tempo) que as petrolíferas estrangeiras que se deslocaram para Luanda são o segredo para o poder. Perante esta constatação, tem trabalhado afincadamente para acomodar petrolíferas como a Exxon-Mobil, a Chevron, a francesa Total, e a BP.

Ao contrário da maioria dos angolanos que vivem com menos de 1,8 euros por dia, os trabalhadores das petrolíferas ganham bons salários. Para dar um exemplo das desigualdades que se fazem sentir em Luanda, a The New Yorker refere que apesar de não haver passeios nem movimento nas ruas, podem-se ver estacionados automóveis como Porsche Cayennes, Audis, e BMWs.

“[O Governo] diz constantemente que vai diversificar a economia”, afirma Gustavo Costa à The New Yorker, o correspondente do Expresso em Luanda. “Sempre houve essa oportunidade. E pelo menos em teoria, ela ainda lá está. Mas o Governo construiu um certo tipo de sociedade só para si. Podemos chamar-lhe prosperidade, se quisermos, mas é incrivelmente frágil. Tudo pode terminar amanhã”.