Num ano em que se espera que as nações cheguem a acordo sobre como evitar o aumento global da temperatura, o Papa Francisco dedicou uma encíclica à ecologia e às alterações climáticas. Ao mesmo tempo que o Vaticano divulgava o documento de seis capítulos aos bispos e fiéis, 16 cidades em seis continentes davam início a 24 horas de discussão global sobre as melhores inovações para combater as alterações climáticas – Climathon, organizado por Climate-KIC (Knowledge & Innovation Community).

Na primeira encíclica – “Laudato si’” (Louvado sejas) -, o Papa Francisco escolheu dedicar-se totalmente à “casa comum”, ao planeta Terra. “Uma boa mãe que nos acolhe nos seus braços”, como cantava São Francisco de Assis. E lembra que não é possível dissociar as pessoas da natureza, porque a humanidade faz parte da natureza. Citando o Patriarca Ecuménico Bartolomeu, diz: “Um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus.”

“À vista da deterioração global do ambiente, quero dirigir-me a cada pessoa que habita neste planeta”, escreveu o Papa. “Nesta encíclica, pretendo especialmente entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum.”E deixa um apelo: “O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar.”

“A destruição do ambiente humano é um facto muito grave, porque, por um lado, Deus confiou o mundo ao ser humano e, por outro, a própria vida humana é um dom que deve ser protegido de várias formas de degradação”, referia o Sumo Pontífice. Na encíclica que tem o ambiente e a ecologia como ponto-chave, não deixou de referir que nos devemos preocupar com os mais desfavorecidos. “São inseparáveis as preocupações com a natureza, a justiça para com os pobres, o empenho da sociedade e a paz interior.”

E refere que é tão difícil combater o aquecimento global como erradicar a pobreza. “Precisamos duma reação global mais responsável, que implique enfrentar, contemporaneamente, a redução da poluição e o desenvolvimento dos países e regiões pobres. O século XXI, mantendo um sistema de governança próprio de épocas passadas, assiste a uma perda de poder dos Estados nacionais, sobretudo porque a dimensão económico-financeira, de caráter transnacional, tende a prevalecer sobre a política.”

O Observatório do Clima, no Brasil, criou um pequeno filme onde o Papa Francisco aparece como o herói do combate às alterações climáticas.

No documento divulgado esta quinta-feira, o Papa acusa ainda a política e a economia de tenderem “a culpar-se reciprocamente a respeito da pobreza e da degradação ambiental”, dois aspetos que estão intimamente ligados. Espera assim que política e economia “reconheçam os seus próprios erros e encontrem formas de interação orientadas para o bem comum”.

O líder da igreja católica incitou cada pessoa a pensar sobre a missão que tem na Terra: “Com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta Terra?” Porque para o Papa Francisco, quem não perceber a própria missão no mundo, terá dificuldade em perceber os desafios ecológicos que lhe são apresentados.

E acrescenta uma pergunta que obriga a olhar para o futuro: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer? Esta pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária. Quando nos interrogamos acerca do mundo que queremos deixar, referimo-nos sobretudo à sua orientação geral, ao seu sentido, aos seus valores.”

“Tudo o que está na encíclica está em linha com a investigação científica”

John Schellnhuber, presidente do Climate-KIC e diretor do Instituto para a Investigação do Impacto do Clima (em Postdam, Alemanha), depois de ter sido convidado a participar num workshop da Pontifícia Academia das Ciências, no Vaticano, foi também um dos oradores durante a sessão desta quinta-feira.

O especialista em clima declarou ter estudado o texto da encíclica com “muito cuidado” e enalteceu a forma como se juntaram “duas forças poderosas do mundo: de um lado, fé e moral, do outro a razão e engenho. Enfrentamos uma crise dupla, uma crise ambiental e uma crise social”. Acrescenta ainda que: “Posso confirmar que tudo o que está na encíclica está em linha com a investigação científica.”

“Acho que a encíclica, ao ouvir a ciência e ao refletir sobre a ciência traz duas grandes mensagens: uma das mensagens vem da razão e do progresso tecnológico, a outra vem da fé, da moral, dos valores éticos e da cristandade”, confirma John Schellnhuber na fase final do discurso, acreditando que só com fé e razão se ultrapassará este problema.

Das mensagens a que se referia uma foi deixada pela astronauta italiana, Samantha Cristoforetti – “change climate change” (muda as mudanças climáticas) -, a outra por Francisco de Assis e referia-se à “ao irmão Sol e irmão vento, irmã água e mãe Terra”. “Estas duas mensagens combinadas preservam a criação”, concluiu o especialista, que em vários momentos do discurso se referiu à criação.

Na apresentação, o especialista em clima lembrou que é certo que o clima já variou muitas vezes na história do planeta, mas nunca tão depressa como agora. Alerta que os efeitos não vão ser graduais, vão ser repentinos e irreversíveis.

Quando se referiu aos 2º C de aumento de temperatura referidos no relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), John Schellnhuber preferiu usar uma metáfora, o próprio corpo humano. Falando diretamente para os presentes lembrou que dois graus podem não parecer nada – quando se sai da sala para o exterior as diferenças podem ser de dez graus -, mas quando estamos com febre dois graus fazem a diferença. Para o planeta também. Uma febre muito alta, com mais 5º C, podem levar à falência dos órgãos internos de uma pessoa e à morte. Com o planeta também.

Estas alterações vão fazer-se notar de uma forma mais intensa nos trópicos e subtrópicos, diz o especialista, referindo que tudo o que costumava acontecer a cada milhão de anos poderá começar a acontecer todos os anos. As regiões que poderão vir a ser mais afetadas são também aquelas onde a população é mais pobre, agravando a condição de vida destas pessoas. John Schellnhuber aproveita para acabar com o mito de que são os países mais pobres que têm mais impacto nas alterações no planeta. Os principais poluidores são a minoria mais rica, que juntos têm mais dinheiro do que o resto do mundo.

O crescimento económico descontrolado é como um cancro

Pegando nas questões mais ligadas à economia, mas também usando um exemplo de saúde humana, Carolyn Woo, presidente de Catholic Relief Services (nos Estados Unidos), lembra que o crescimento descontrolado da economia é como o crescimento descontrolado das células no organismo – origina um cancro. E dá exemplos dos sintomas da doença: acidificação dos oceanos, desflorestação, redução da camada do ozono, destruição dos terrenos aráveis e das fontes de água potável.

A professora e investigadora em liderança administrativa lembra que os recursos não pertencem às empresas, mas a todas as pessoas, e que o crescimento sustentável vai beneficiar não só o ambiente e as pessoas, como a própria empresa. As empresas que pensarem a curto prazo e não tiverem uma visão abrangente estarão condenadas ao fracasso.

“Os negócios não são apenas um empreendimento económico, são uma iniciativa humana. E por ser uma iniciativa humana, os negócios devem ser feitos por pessoas, para pessoas. E se continuarmos a fazer tudo como até agora, não sobraram muitos para ver os benefícios.”

“Acho que a encíclica é extremamente poética, inspiradora em termos espirituais, mas também muito, muito pragmática.” As perguntas colocadas pelo Papa Francisco podem ser respondidas pelas empresas de uma forma sustentável para que as pessoas deixem de ver os negócios como “um mal necessário”, mas os passem a ver como “um bem necessário”.

E para os mais céticos deixa uma mensagem: “Há pessoas que vão tentar descartar a mensagem do Papa, por falta de evidência.” Mas para Carolyn Woo não faltam são evidências sólidas. “Não podemos ignorar o que se está a passar só porque não gostamos do conteúdo da mensagem.”

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