A expressão “o peso das palavras” parece encontrar em Donald Trump a sua personificação. Após as críticas aos imigrantes mexicanos durante o discurso de anúncio da sua candidatura às primárias para a presidência dos Estados Unidos em 2016 na semana passada, o comité do México decidiu fazer um boicote ao concurso Miss Universo, evento do qual o empresário é coproprietário, e não enviar a sua representante à competição. De acordo com Lupita Jones, diretora do concurso “Nuestra Belleza México” e ex-Miss Universo, “a competição é um evento onde predomina a amizade e a união” e que “Donal Trump está a prejudicar o concurso”.

A decisão do comité mexicano não foi uma exceção. Desde que declarou que os mexicanos “trazem drogas, crime e violadores aos Estados Unidos” e propôs a construção de um muro ao longo da fronteira mexicana, diversas emissoras de televisão relacionadas direta ou indiretamente com o concurso anunciaram o fim das relações empresariais com Trump.

É o caso da Televisa, o maior conglomerado de meios de comunicação da América Hispânica e a quinta maior emissora do mundo em lucros, que anunciou esta quinta-feira que não participará em nenhum projeto de comunicação relacionado com Donald Trump. Em comunicado, a empresa disse ter recebido “com incredulidade as declarações do senhor Donald Trump, que ofendeu a população migrante latino-americana e, particularmente, os mexicanos” e “não está indiferente a essas declarações e rejeita energicamente toda forma de discriminação, racismo e xenofobia”.

Outra emissora latina que também rompeu relações comerciais com a Trump Organization na última sexta-feira foi a Univision, canal americano que transmite a sua programação em língua espanhola. Em documento divulgado à imprensa, a emissora afirma:

Vemos como prioritários a ética laboral, o amor pela família e os sólidos valores religiosos dos imigrantes mexicanos e estadunidenses de origem mexicana, como também o importante papel que tiveram e têm para forjar um futuro para o nosso país. [Por este motivo] Não transmitiremos o concurso Miss EUA no dia 1 de julho nem trabalharemos em nenhum outro projeto associado à organização Trump”.

À Univision, seguiu-se a americana NBC que nesta segunda-feira rompeu todos os vínculos contratuais com Donald Trump. O canal deixará de transmitir os concursos Miss EUA e Miss Universo e cancelou a participação do empresário no reality show “The Apprentice”, do qual fazia parte desde 2004. No comunicado, a empresa diz que “devido às afirmações depreciativas sobre os imigrantes realizadas por Donald Trump recentemente, a NBC Universal encerra sua relação comercial com o senhor Trump”, e acrescenta que “o respeito e a dignidade de todas as pessoas são pilares básicos de nossos valores”.

Apesar da quebra destes contratos, o empresário mantém a sua postura sobre o seu discurso contra os imigrantes. “Se a NBC é tão fraca e tão ingénua ao não entender o grave problema da imigração ilegal nos Estados Unidos, juntamente com os acordos comerciais injustos e terríveis que estamos a fazer com o México, então a violação por quebra de contrato do Miss Universo/Miss EUA será determinada em tribunal”, disse ao Washington Post.

Em declaração do NY Post, o empresário afirmou ainda que vai processar a Univision pelo mesmo motivo e que “ama o povo mexicano, mas a sua lealdade está com os Estados Unidos”.