Um antigo investigador em biomedicina na Universidade Estatal do Iowa (Estados Unidos), Dong-Pyou Han, foi dia 1 de julho condenado a 57 meses (quase cinco anos) de prisão por falsificar dados de ensaios clínicos com uma vacina contra o vírus da imunodeficiência (VIH), noticiou a Nature News. O antigo investigador foi condenado ainda a pagar uma multa de 7,2 milhões de dólares (6,48 milhões de euros) ao Estado americano e, mesmo depois de sair da prisão, estará três anos sob vigilância. O cientista sul-coreano arrisca-se ainda a ser deportado, sem possibilidade de regresso, refere o Guardian.

O cientista de 58 anos foi forçado a demitir-se da universidade onde conduziu a investigação em 2013, depois de a universidade ter percebido que os resultados com vacinas experimentais tinham sido falsificados. No estudo financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde norte-americanos (NIH), Dong-Pyou Han misturou anticorpos humanos no sangue de coelhos para dar a ilusão que as vacinas tinham tornado os animais imunes à doença, conta a Nature News.

Antes mesmo de concluir a investigação, o cientista enviou uma carta à universidade confessando que tudo começou em 2008, na Universidade Case Western Reserve (em Cleveland), quando tentou encobrir que tinha misturado umas amostras de sangue de coelho com sangue humano, conta o Guardian. O que inicialmente foi um acidente tornou-se uma prática frequente para não desiludir o orientador, Michael Cho, e a restante equipa, mesmo depois de mudarem para a Universidade de Iowa em 2009. Em 2013, uma equipa da Universidade de Harvard descobriu que o sangue de coelho tinha anticorpos humanos. Estando a usar fundos dos NIH, o Gabinete para a Integridade na Investigação norte-americano acabou por ser penalizado com a ausência de financiamento público durante três anos (a penalização máxima imposta em casos como este).

Mas o senador republicano do Iowa, Charles Grassley, quis levar o caso mais longe, como já havia feito noutras situações. “Parece-me uma pena muito leve para um médico que deliberadamente adulterou os resultados da investigação e que causou diretamente a perda de milhões de dólares pagos pelos contribuintes em estudos fraudulentos”, escreveu o senador numa carta de fevereiro de 2014 citada pela Nature News.

Dong-Pyou Han foi preso depois do mediatismo da situação criado em junho de 2014 e perante o júri, em fevereiro de 2015, deu-se como culpado de ter feito falsas declarações para conseguir financiamento dos NIH. Uma acusação e julgamento não são comuns nestes casos “menos graves” de fraude, refere Alan Price, antigo diretor associado de supervisão no Gabinete para a Integridade na Investigação, citado pela Nature News. “Na maior parte dos casos acho que não teria sido feito, mas o senador Grassley preocupa-se profundamente com este assunto e queria marcar uma posição.”

Este julgamento levanta outras questões. Cortar o financiamento a um cientista já é quase uma “sentença de morte em termos profissionais”, será mesmo necessário a prisão? Aqueles que são condenados por fraude e impedidos de receber fundos públicos deixam mesmo de fazer investigação e de cometer fraude? Os casos que têm sido julgados são apenas a ponta do iceberg ou são aqueles que realmente têm causado danos para os outros cientistas?

“Receio que outros casos possam passar despercebidos ou sem referência se não houver uma chamada de atenção pública”, refere Charles Grassley. O senador defende que as agências governamentais possam fiscalizar melhor os financiamentos atribuídos e tenham autonomia para penalizações mais severas.