Única. Reconhecível pelas pessoas mesmo de olhos fechados. Distinguível entre as imitações. Não, estas características não descrevem o líquido açucarado e gaseificado chamado Coca-Cola, mas sim o recipiente que o contém. A famosa garrafa Contour foi criada em 1915 e, ao longo de 100 anos, adquiriu o estatuto de ícone de design. A evolução da garrafa e as obras de arte que nela se inspiraram estão retratadas no livro 100 Years of the Coca-Cola Bottle — Kiss The Past Hello, viagem no tempo proporcionada pela editora francesa Assouline.

Que a Coca-Cola foi inventada por um farmacêutico, John Pemberton, que vivia na cidade norte-americana de Atlanta, já toda a gente sabe. Também já foi contada inúmeras vezes a história da primeira vez que a bebida foi vendida, em 1886, numa pequena farmácia daquela cidade, onde a sede da Coca-Cola ainda se mantém. Até ali, o sabor da Coca-Cola era a novidade e o líquido era vendido dentro do que havia à disposição. A primeira vez que a Coca-Cola foi engarrafada aconteceu numa loja de caramelos de Vicksburg, com pequenas garrafas de vidro, conta-se na página oficial da empresa. Em 1899, só três pessoas tinham autorização para engarrafar a Coca-Cola. Até que os imitadores começaram a aparecer. Era preciso uniformizar a marca com um design atrativo.

Precisamos de uma garrafa que as pessoas reconheçam como uma garrafa Coca-Cola, mesmo quando a estiverem a sentir no escuro. A garrafa Coca-Cola tem de ter uma forma tal que, mesmo se partida, tem de ser reconhecível de relance.”

Foram estas as instruções dadas pela empresa para o concurso de onde sairia a nova garrafa. A vencedora foi a empresa Root Glass Company, do Indiana, com uma curvilínea garrafa inspirada nos ingredientes chave da bebida, a noz de cola e a folha de coca (de onde é extraída a cocaína, e que já não faz parte da receita atual). Em 1915, nasceu um ícone.

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“Kiss The Past Hello” dedica 143 páginas ao design da famosa garrafa e reúne vários anúncios e objetos artísticos relacionados com a marca. Custa 43€. © Assouline

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se”

Muitos litros de Coca-Cola já tinham corrido pelas gargantas do mundo quando os portugueses puderam experimentar essa sensação pela primeira vez. Nem o slogan publicitário “primeiro estranha-se, depois entranha-se”, criado por Fernando Pessoa em 1928, foi suficiente para convencer a recém-instalada ditadura militar a deixar entrar a Coca-Cola em Portugal. A bebida vendia-se nas ex-colónias, mas Salazar não a queria na metrópole. Preocupações com a saúde, por causa do elevado teor de cafeína e da criação de habituação, bem como um protecionismo para com os refrigerantes e vinhos de produção nacional, seriam as justificações oficiais. Mas a verdade está explicada na coletânea Cenas da Vida Portuguesa, de Maria Filomena Mónica, publicada pela Quetzal, através de uma carta de Salazar endereçada a um funcionário americano que tentou interceder pela entrada da Coca-Cola em Portugal.

“(…) sempre me opus à sua aparição no mercado português. Trata-se daquilo a que eu poderia chamar a nossa paisagem moral. Portugal é um país conservador, paternalista e – Deus seja louvado – atrasado, termo que eu considero mais lisonjeiro do que pejorativo. O senhor arrisca-se a introduzir em Portugal aquilo que eu detesto acima de tudo, ou seja, o modernismo e a famosa efficiency. Estremeço perante a ideia dos vossos camiões a percorrer, a toda a velocidade, as ruas das nossas velhas cidades, acelerando, à medida que passam, o rit­mo dos nossos hábitos seculares.”

Foi-se o Estado Novo, a 25 de abril de 1974, e, com ele, o protecionismo. A bebida açucarada com gás entrou oficialmente no país em 1977, curiosamente no dia 4 de julho, dia em que os Estados Unidos da América comemoram a independência. “Enfim, nós!”, titularam os jornais. De acordo com o livro Lx 70 — Lisboa, do Sonho à Realidade, de Joana Stichini Vilela, Nick Mrozowski e Pedro Fernandes, nesse dia 30 mil grades saíram da fábrica da Super Sumos para serem distribuídas pela região de Lisboa, de Setúbal a Mafra. O resto do país teve de aguardar mais uns dias.

Entranhou-se. Atualmente, a Coca-Cola é o refrigerante mais bebido pelos portugueses.

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Longa se tornou a espera. “A tal” só chegou a Portugal em 1977. ©D.R.

Artigo corrigido a 10 de agosto. Atlanta é uma cidade do Estado norte-americano da Geórgia.