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O Financial Times encontrou “medo, raiva e incredulidade” numa reportagem em Wolfsburgo, uma cidade que vive e respira ao ritmo da gigante alemã do automóvel que está no centro de um escândalo de viciação de testes emissões poluentes. Os habitantes de Wolfsburgo receiam que o escândalo da Volkswagen resulte no colapso da economia da cidade e que esta se transforme na “Detroit alemã“.

Situada a 200 quilómetros a oeste de Berlim, a cidade de Wolfsburgo depende quase totalmente da Volkswagen como motor da economia local. Vivem 120 mil pessoas na cidade e a fábrica, que produz 840 mil carros por ano, emprega 72 mil funcionários. Mesmo quem não trabalha na Volkswagen, depende da gigante alemã – é o caso de um padeiro turco que trabalha na Porschestrasse e diz que “a Volkswagen é Deus aqui”.

Um dos trabalhadores diz ao jornal britânico que “toda a gente está muito preocupada“. “Será que vamos receber os nossos bónus? Haverá despedimentos?”, pergunta. Outro trabalhador citado pelo FT descreve o “choque e, depois, a raiva” e pergunta: “Como podem eles [os altos cargos que terão sido responsáveis] ter sido tão estúpidos?”.

A Volkswagen colocou de lado uma provisão de 6,5 mil milhões de euros mas o novo presidente-executivo, Matthias Mueller, já indicou que esses fundos não serão suficientes para resolver um problema que terá, segundo cálculos de bancos de investimento, um custo total superior a 30 mil milhões de euros. A empresa indicou, também, que todos os investimentos serão reavaliados e que apenas seguirão em frente os que forem considerados “essenciais”.

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Todas estas medidas podem ter um impacto sobre a economia de Wolfsburgo, uma cidade onde as pessoas estão intranquilas apesar de um líder dos sindicatos ter garantido, num discurso recente, que “os trabalhadores não irão pagar pelos erros de um grupo de gestores”.

Um habitante de Wolfsburgo citado pelo FT receia que as vendas de carros desçam e que se percam postos de trabalho. Mas há, também, na cidade, quem se insurja contra este processo que teve origem nos EUA.

“Fico enraivecido por os americanos estarem a fazer perguntas a nós e não a outros, como a China”, diz Uwe Bendorf, um outro cidadão que nasceu naquela cidade e que trabalha na área dos seguros de saúde. O sentimento é partilhado por um funcionário de um parque temático subordinado ao tema automóvel e à marca Volkswagen: “Quem é que está a poluir o ar em todo o mundo? Não são só os carros, mas também os aviões, os grandes camiões, os barcos de contentores”, acusa o habitante de Wolfsburgo.

Numa alusão ao escândalo recente em torno da General Motors, relacionado com o sistema de ignição, que terá causado mais de uma dúzia de mortes, o alemão sublinha: “Pelo menos nós não matámos pessoas“.