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É o primeiro debate entre os candidatos democratas que querem chegar à Casa Branca. E vai acontecer às 17h30 da tarde em Las Vegas — ou seja, contabilizando as oito horas a mais, à 01h30 da manhã em Portugal continental.

A 58ª eleição para a presidência dos Estados Unidos, que vai eleger o 45º presidente, sucessor de Barack Obama, ainda vai longe, é só a 8 de novembro de 2016, mas, de um e de outro lado, entre democratas e republicanos, começam a contar-se espingardas, avançam-se candidatos e mais candidatos, e os debates têm hora, local e data marcada.

O primeiro do lado democrata acontecerá esta noite, no Estado do Nevada, e os seguintes acontecerão a 14 de novembro, no Iowa, a 19 de dezembro, em New Hampshire, a 17 de janeiro, na Carolina do Sul, sendo que os derradeiros debates, na Florida e no Wisconsin, e ainda sem data definida, acontecerão em fevereiro e março do próximo ano.

Candidatos há muitos. Esta noite, na CNN e em direito para o Estados Unidos e para o mundo, estarão cinco: Lincoln Chafee, Hillary Clinton, Martin O’Malley, Bernie Sanders e Jim Webb. Outros, como Lawrence Lessing, constitucionalista e professor de Harvard, mas também Jeff Boss, um “conspirador” que defende que George W. Bush está por detrás do 11 de setembro, Harry Braun, investigador do Arizona, Robby Wells, antigo treinador de futebol americano na universidade de Savannah, Willi Wilson, empresário de Illinois, e, claro, Joe Biden, o vice-presidente de Obama, também estão na corrida.

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Mais uns que outros, claro. É que aqui, os apoios (políticos e não só; recorde-se a primeira eleição de Obama, onde o denominado “black vote” foi decisivo), a angariação de fundos e a popularidade entre os eleitores democratas (que são quase 18 milhões de votantes) contam e muito.

É aqui, em Las Vegas, no hotel Wynn, que se começa a decidir quem avança para a Casa Branca. E contra quem? Donald Trump, o mais conhecido e controverso de todos os republicanos (e que vai estar em directo, no Twitter da CNN, a comentar o desenlace do debate), Ben Carson, neurocirurgião, Marco Rubio, o senador da Florida, Carly Fiorina, a única mulher entre homens do lado republicano e antiga CEO da HP, ou, claro Jeb Bush, irmão e filho de ex-presidentes, são, até ver, quem melhor se posiciona como candidato republicano.

O debate será moderado por Anderson Cooper.

O que se vai discutir?

Pouco. Não são tanto as ideias de cada um, que cada um tem para os Estados Unidos, que vão ser tema de conversar. O que se vai discutir é sobretudo o que cada um fez no passado, e como isso os impossibilita de serem o melhor democrata entre democratas. E aqui, Hillary, sendo dos cinco o que maior passado (e mais visível) tem, será confrontada com questões fraturantes e que vão, certamente, dê lá por onde der, fraturar a sua campanha.

Ponto prévio: Hillary Clinton e Bernie Sanders, são, até ver, não só os candidatos mais populares, como os que mais dinheiro angariaram. Joe Biden, que por enquanto observa de fora, só avançará, diz-se nos bastidores, se a campanha de Hillary for descredibilizada o suficiente.

E a descredibilização pode começar, precisamente, no dinheiro. Se é verdade que Hillary Clinton e Bernie Sanders estão, par a par, em termos de receitas, o lugar de onde essas receitas provêm, não é, de todo, o mesmo. Sanders sempre fez questão de dizer que o seu dinheiro vem principalmente de pequenos investidores, mais anónimos que empresas, ao passo que Hillary vem angariando fundos vindos de investidores mais abastados, muitos deles de Wall Street.

“Vou sempre erguer-me contra Wall Street e contra as corporações que apoiam a [ex-] secretária [de Estado]”, disse Sanders no domingo, em entrevista à NBC.

Hillary vai certamente ripostar a este disparo com uma questão que divide a sociedade norte-americana, mas onde os democratas têm uma e uma só posição: mudar a lei sobre o acesso às armas, torná-la mais rígida. O próprio presidente Obama, numa entrevista recente à BBC, sugeriu que “se olharmos para o número de norte-americanos mortos pelo terrorismo após o 11 de Setembro, não chega a cem. Se olharmos para o número de norte-americanos mortos em resultado da violência com armas no país, são milhares”.

Obama já solicitou o apoio do Congresso, dos legisladores e dos governadores dos Estados para conseguir mudar a legislação. Enquanto Senador do Vermont, Bernie Sanders, de 74 anos, sempre se fez saber contra a ideia.

Tiro cá, tiro lá, rechaçado de um de outro lado, não demorará até que outro tema venha à tona. E, aqui, é Hillary quem está com a água pelo pescoço: a intervenção militar dos Estados Unidos, quer no Iraque, quer, mais recentemente, ainda que sem “boots on the ground”, apenas com ataques aéreos, a intervenção na Síria.

É que Sanders já disse e repetiu, vezes e vezes sem conta, que quando era membro da Câmara dos Representantes, votou contra a participação dos Estados Unidos no conflito do Iraque, em 2002, tendo dito, então, que aquela guerra iria destabilizar o Médio Oriente e matar milhares de militares norte-americanos e de civis iraquianos. Confirmou-se.

O que Sanders não disse, mas ficou implícito e a comunicação social norte-americana fez o resto, foi que em 2002, Hillary, então Senadora por Nova Iorque, autorizou a ida de tropas para o Iraque. Um voto que já foi por demais falado na campanha de 2008 contra Obama — e com os resultados que se sabem.

Por último, uma questão talvez não trazida por Sanders, mas por Webb ou O’Malley, Hillary vai ter que explicar, tin tin por tin tin, a fuga de e-mails que ocorreu quando esta ainda era secretária de Estado. “Ela precisa de responder a esta pergunta com transparência e abertamente”, disse na segunda-feira à CNN Patti Solis Doyle, a diretora de campanha de Hillary Clinton em 2008.

É que Hillary, nos quatro anos em que foi a responsável pela diplomacia norte-americana, nunca utilizou uma conta de email profissional e pode ter infringido uma lei federal que obriga a que parte da correspondência dos responsáveis das agências nacionais seja retida pelos organismos públicos. Hillary garantiu, na altura, que nenhuma informação classificada passou pela sua conta privada.

“Em retrospetiva, teria sido mais fácil ter duas contas de email e andar com dois telefones. Mas por uma questão de conveniência, e porque era permitido, quando assumi o cargo de secretária de Estado optei por continuar a usar a minha conta pessoal”, explicou na altura.

Quem é quem esta noite?

MANCHESTER, NH - OCTOBER 5: Democratic Presidential candidate Hillary Clinton speaks at a town hall event at Manchester Community College October 5, 2015 in Manchester, New Hampshire. Clinton discussed proposals to address gun violence in the United States. (Photo by Darren McCollester/Getty Images)

Darren McCollester/Getty Images

Hillary Clinton, a Favorita

Quem é? Ex-secretária de Estado. Ex-senadora. Ex-primeira-dama. É tida (ainda) como a inevitável candidata favorita pelo Partido Democrata à corrida presidencial. Foi desafiada, à esquerda, em certos assuntos-chave, por um senador relativamente desconhecido, tendo esse desafio gerado imenso entusiasmo entre os progressistas e o eleitorado jovem, o que lhe permitiu abrir, de forma segura, um caminho para a nomeação.

O que se espera dela? Qualquer definição razoável continua a apontar Clinton como líder na corrida de 2016, mas o facto de ainda haver sequer alguém a prestar atenção a este debate é, em certa medida, uma derrota para ela. A sua campanha debateu-se arduamente para limitar o número de debates democratas. Se ela não estiver à altura, os membros da Comissão Nacional do Partido Democrata – os futuros delegados e super-delegados – poderão, afinal, começar a pensar se terão feito a escolha acertada sobre a agenda de debates. Já que a sua maior vantagem em relação a Sanders são os apoios, é provável que Clinton não queira que os grandes “jogadores” do Partido Democrata sintam que ela não devia estar na corrida. É difícil imaginar que o desempenho de Clinton no primeiro debate possa fazer alguém atirar-se, unilateralmente, para os braços de Bernie Sanders. Mas Sanders acabou de ganhar o seu primeiro apoio por parte de um membro permanente do Congresso, o que pode facilitar a que outros candidatos saiam da penumbra.

WASHINGTON, DC - OCTOBER 06: Democratic presidential candidate Sen. Bernie Sanders (I-VT) speaks during a news conference on better wages for workers, on Capitol Hill October 6, 2015 in Washington, DC. Sanders held the news conference to introduce legislation designed to make it easier for workers to join together and bargain for better wages, benefits and working conditions. (Photo by Mark Wilson/Getty Images)

Mark Wilson/Getty Images

Bernie Sanders, o Populista

Quem é? Orgulhoso “democrata socialista” de Vermont. Foi Mayor de Burlington, deputado e senador (sempre como independente). Aderiu ao Partido Democrata para desafiar Clinton na corrida de 2016. Tem tido resultados melhores do que alguém alguma vez esperava.

O que se espera dele? A ascensão de Sanders já motivou Clinton a deslocar-se para a esquerda no tópico da conduta de óleo de Keystone (sobre a qual ela se tinha manifestado contra no mês passado, depois de ter tentado diferir o assunto para a administração Obama) e no Acordo de Parceria Trans-Pacífica, que ela rejeitou na semana passada. Se esse é o impacto duradouro de Sanders nas primárias, isso é uma vitória nesses temas para os progressistas – mas não o é para Bernie Sanders. Neste momento, está a obter ótimos resultados nas sondagens em Iowa, bem como em New Hampshire, mas à medida que as primárias se aproximam, é sempre possível que os eleitores que “namoram” Sanders acabem por “casar” com a candidata mais popular. Sanders tem de se afirmar como um candidato que valha pena por direito próprio e não como apenas um peso na escala que faça pender Hillary Clinton para a esquerda.

NEW YORK, NY - SEPTEMBER 14: Democratic presidential candidate and former Maryland Governor Martin O'Malley meets with gun safety advocates on September 14, 2015 in New York City. O'Malley's campaign has struggled to gain national attention in comparison to fellow Democratic candidates Hillary Clinton and Bernie Sanders. (Photo by Andrew Burton/Getty Images)

Andrew Burton/Getty Images


Martin O’Malley, o Alternativo Alternativo

Quem é? Anterior vereador e Mayor de Baltimore. Cumpriu dois mandatos como governador de Maryland.

O que se espera dele? O’Malley sofreu, sem dúvida, com a subida de Bernie Sanders e para que tenha alguma chance de ser nomeado, tem de mostrar aos progressistas que ele – e não o Sanders – é a verdadeira alternativa a Clinton. Leva, até certo ponto, algum avanço neste aspeto: tem atacado Sanders na questão das armas (o senador rural Sanders não as considera tão “repulsivas” quanto a base dos democratas) e tem-se aproximado, de forma veemente, do eleitorado hispânico e dos ativistas pela imigração. O’Malley não será capaz de vencer em todos os círculos onde o Sanders não esteja a liderar – é difícil imaginar os eleitores afro-americanos a fazerem fila atrás de um Mayor que procurou combater o crime na cidade que, mais tarde, viria a ceifar a vida a Freddie Gray – mas O’Malley tem de consolidar aqueles que consegue. Se O’Malley passar o seu tempo a defender Hillary Clinton dos ataques de Sanders ou a criticar Sanders, deixando Clinton incólume, será seguro afirmar que está a assegurar o cargo de vice-Presidente.

<> on June 30, 2015 in Baltimore, Maryland.

Mark Wilson/Getty Images


Jim Webb, o Democrata “Reagan”

Quem é? Ex-senador de Virginia. Anterior secretário-adjunto da Defesa e secretário da Marinha no tempo de Ronald Reagan (demitiu-se deste cargo como forma de protesto ao corte do Pentágono à Marinha). Serviu na Marinha durante a Guerra do Vietname.

O que se espera dele? Jim Webb representa um tipo muito diferente de eleitor democrata, relativamente ao resto dos candidatos. É um populista em matéria económica, moderadamente militar em assuntos de política externa e está muito mais em sintonia com eleitorado “branco” (excluindo os afro-americanos e hispânicos) pertencente à classe de trabalhadores rurais, que os Democratas estão a perder, em vez dos eleitores urbanos e “não-brancos” que continua a manter. (Webb é, por exemplo o único candidato Democrata à presidência que se opõe à decisão da Carolina do Sul de retirar a bandeira da Confederação da Casa do Governo, após o massacre na igreja de Charleston). Não vai ser nomeado, mas para se manter relevante tem de afirmar dentro do Partido Democrata que este consegue reconquistar o voto dos trabalhadores brancos – e que têm mais a ganhar, se o tentarem, do que têm a perder se alienarem eleitores “não-brancos”.

NEW YORK, NY - SEPTEMBER 30: Lincoln Chafee visits FOX Business Network at FOX Studios on September 30, 2015 in New York City. (Photo by Rob Kim/Getty Images)

Rob Kim/Getty Images


Lincoln Chafee, a Terceira Via

Quem é? Anterior membro Republicano do Senado dos EUA. Ex-governador independente de Rhode Island.

O que se espera dele? Para se poder dizer o que Lincoln Chafee tem de fazer neste debate, teria antes de se perceber porque é que Lincoln Chafee está na corrida à presidência. Ninguém sabe ao certo. Estará a tentar ganhar as boas graças como porta-voz Democrata? Se esse for o caso, tem de demonstrar que deve ser levado a sério enquanto Democrata. Estará a tentar elevar o seu estatuto de centrista, como um porta-voz de “terceira via”? Nesse caso, tem de conseguir mais tempo de antena para se distinguir dos outros críticos de Hillary Clinton. Seja qual for o caso, deveria ter uma boa explicação para ter aderido ao Partido Democrata.