O ministro do Interior da Arábia Saudita anunciou na manhã deste sábado a execução de 47 pessoas por alegados “atos terroristas”. Apesar do número particularmente alto de mortes, tem sido a de um entre os 47 que tem levado a manifestações espontâneas um pouco por todo o Médio Oriente. Trata-se de Nimr al-Nimr, um clérigo xiita, defensor da igualdade para aquela minoria do Islão e um declarado opositor ao regime autoritário de Salman Al Saud.

Segundo a BBC, está a acontecer uma manifetação em Qatif, uma província no este da Arábia Saudita, onde vive a maioria da população xiita. Além disso, também na Península Arábica, no Barein a polícia está a responder a manifestantes com gás lacrimogéneo. Também há registo de manifestações na província índia de Caxemira.

“A arma da palavra é mais forte do que as balas”

Com ligações ao Irão (país de maioria xiita, onde estudou e de onde regressou para a Arábia Saudita, onde os sunitas são predominantes), Nimr al-Nimr, 56 anos, tornou-se a cara dos xiitas no país. Em 2009, ficou conhecido por acusar as autoridades de descriminarem os xiitas depois destes serem atacados pela polícia no cemitério de al-Baqi, um local de peregrinação. Em 2011, aproveitando a onda da Primavera Árabe, liderou protestos pacíficos contra o regime da família real saudita. Nessa altura fazia questão de que as manifestações mantivessem o seu caráter não-violento. “É o rugido da palavra contra as autoridades, mais do que o das armas… A arma da palavra é mais forte do que as balas, porque as autoridades vão sempre beneficiar de uma batalha de armas”, disse à BBC na altura.

Em 2012 foi detido pela polícia, ocasião em que foi baleado — seguiram-se também protestos onde morreram três pessoas. Depois, foi acusado de causar “motins” e ações subversivas, o que acabou por levar à sua condenação à morte. Em outubro de 2015, o supremo tribunal saudita rejeitou um recurso da defesa de Nimr al-Nimr, que acabou por ser executado este sábado, dia 2 de janeiro de 2016.

A aplicação da pena capital já provocou a indignação do Irão e de outros representantes xiitas. Um dos primeiros a reagir foi o Irão, cujo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) avisou que a Arábia Saudita vai pagar “um preço elevado”. “O Governo saudita apoia terroristas e sunitas extremistas ao mesmo tempo que executa e oprime as vozes críticas dentro do próprio país”, disse o porta-voz do MNE iraniano, naquilo que indica ser uma acusação de ligações da Arábia Saudita ao auto-proclamado Estado Islâmico.

Mais tarde, o líder supremo do Irão reagiu no Twitter, com uma imagem contendo a mensagem: “Não é possível suprimir um despertar”.

Do Líbano, o Conselho Supremo Xiita disse que a execução de Nimr al-Nimr foi um “erro grave”. Do Iémen, o movimento Huti, afeto ao Irão e envolvido numa guerra civil que se arrasta há mais de um ano contra forças apoiadas pela Arábia Saudita, diz que o incidente se trata de “uma flagrante violação dos Direitos Humanos”.