Pode parecer estranho e soar a desperdício, principalmente depois de ver as imagens do seu interior, mas o Palácio de Belém já não aloja um Chefe de Estado desde o segundo mandato de Ramalho Eanes. Os três últimos presidentes eleitos — Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva — preferiram utilizá-lo apenas como local de trabalho.

É certo que estão no seu direito: afinal, o título de residência oficial do Presidente da República que o edifício ostenta desde 1912 não acarreta para os titulares do cargo qualquer obrigatoriedade relativa à sua consumação.

Ainda assim, talvez os três pudessem ter cogitado mudar-se de armas e bagagens — ou só de bagagens, já que nenhum se revelou propriamente belicista — para o dito se tivessem alguma noção do tipo de atrações que a vizinhança oferece. Porque oferece: de Belém ao Restelo e de Pedrouços à Ajuda não faltam sítios onde ocupar da melhor forma os raros intervalos de lazer permitidos pelos afazeres presidenciais. Seguem-se não 5, não 10, mas sim 15 sugestões com a chancela do Observador.

Tomar o pequeno-almoço no Careca
A histórica pastelaria Restelo, vulgo Careca — em honra do seu fundador — é um dos destinos mais concorridos do bairro homónimo, graças aos croissants açucarados e mal cozidos, que já motivaram cópias um pouco por toda a cidade. O novo Chefe de Estado talvez consiga prioridade no atendimento, normalmente caótico aos fins-de-semana. E enquanto tiver a popularidade em alta talvez lhe juntem à encomenda, sem cobrar mais por isso, duas ou três unidades dos palmiers, que também contribuem para a fama da casa.

R. Duarte Pacheco Pereira, 11D, Restelo. 21 301 0987. Distância do Palácio de Belém: 1,8 quilómetros (20 minutos a pé)

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Renovar o mobiliário na Hangar
Caso o vencedor das eleições considere o mobiliário do Palácio presidencial demodé e sinta a necessidade de o renovar tem uma das lojas da cidade melhor apetrechadas para o efeito a curta distância. A Hangar Design Store fica na galeria lateral do Centro Cultural de Belém e tem uma seleção de produtos vasta mas refinada. Vai dos produtos nacionais, como os sabonetes Castelbel ou as cerâmicas Costa Nova, às clássicas cadeiras DAW e DSW, de Charles Eames ou sofás de assinatura Phillip Starck, entre outros.

Rua Bartolomeu Dias, Loja 1. 21 362 4302. Distância do Palácio de Belém: 1,3 quilómetros (16 minutos a pé)

Ver as estrelas no Planetário Calouste Gulbenkian
Quando se chega a titular de um órgão de soberania deste calibre convém, para que o poder não suba à cabeça, manter os pés bem assentes na terra, e não perder a noção da respetiva insignificância, principalmente no que ao Cosmo e respetivos mistérios diz respeito. Nada melhor, para tal, do que uma visita ao Planetário, que, entre outras valências, tem um auditório com cadeiras reclináveis onde se projeta, a 360º, a simulação de uma noite límpida e estrelada.

Praça do Império. 21 097 7350. Distância do Palácio de Belém: 750 metros (9 minutos a pé)

planetário max bashirov flickr

No interior da cúpula do Planetário projeta-se um céu estrelado. (foto: Max Shirov / Flickr)

Provar as pitas e baguetes do Pão Pão Queijo Queijo
Pode não ser a refeição mais presidencial do mundo, é certo. Mas para o novo inquilino do Palácio de Belém se integrar perfeitamente na vizinhança deverá fazer pelo menos uma refeição que seja num dos mais concorridos diners da cidade, o Pão Pão Queijo Queijo. O menu é extensíssimo, e de leitura reduzida, ao nível de uma lista telefónica. Vale a pena esforçar a vista, contudo, para encontrar um recheio a gosto para as afamadas pitas e baguetes da casa. Outra vantagem: servem até perto da meia-noite, logo pode servir de snack pós-reunião tardia.

Rua de Belém, 126. 21 362 6369. Distância do Palácio de Belém: 300 metros (4 minutos a pé)

Meditar no Pavilhão da Tailândia
Embora não vivamos sob um regime presidencialista (nem semi) e os poderes do Chefe de Estado sejam alvo de debate constante, a verdade é que, como bem se viu recentemente, pode cair-lhe no colo a necessidade de decidir o futuro do país. Se isso acontecer ao detentor do próximo mandato, quiçá não seja má ideia anteceder a decisão de um breve período de meditação no Pavilhão da Tailândia, uma construção em estilo tradicional siamês oferecida pelo governo de Banguecoque em 2012, durante a celebração dos 500 anos de relações diplomáticas entre Portugal e Tailândia. Afinal, basta-lhe atravessar a estrada.

Jardim Vasco da Gama, Belém. Distância do Palácio de Belém: 200 mentros (3 minutos a pé)

alessandro grussu thai flickr

Os beirais pontiagudos do Pavilhão da Tailândia assumem a forma de ‘naga’, a serpente mitológica. (foto: Alessandro Grussu / Flickr)

Fugir à fila dos pastéis de Belém
Uma das vantagens de morar no palácio presidencial é poder escolher a melhor altura para visitar a Fábrica dos Pastéis de Belém e, fugindo às costumeiras filas, poder comer aquela que continua a ser, ainda e sempre, a mais celebrada criação de pastelaria da capital. Se, tal como alguns lisboetas, também o novo presidente achar que os pastéis estão mais pequenos e menos saborosos que noutros tempos, pode sempre explorar as alternativas das redondezas, como os injustamente esquecidos Pastéis de Cerveja, servidos na casa homónima, na Rua de Belém.

Rua de Belém, 84-92. 21 363 7423. Distância do Palácio de Belém: 260 metros (3 minutos a pé)

Descobrir novas espécies no Jardim Botânico Tropical
O Jardim Botânico Tropical é — sem ser demasiado generoso — uma espécie de logradouro de luxo do Palácio de Belém, do qual está separado apenas por um muro. Para ali foram sendo levadas, ao longo dos anos, mais de meio milhar de espécies de flora tropical e subtropical originária, boa parte dela, das antigas colónias portuguesas. Algumas delas estão mesmo extintas ou em vias de extinção nos seus países de origem. Resumindo, dá um belo passeio de fim-de-semana.

Largo dos Jerónimos. 21 360 9665. Distância do Palácio de Belém: 300 metros (4 minutos a pé)

cavaco Silva visita Jardim Botânico Tropical

O novo presidente poderá descansar à sombra das duas árvores plantadas pelo seu antecessor, uma “Sapindus Mukorossi” e uma “Ceiba Insignis”.
(foto: © Gerardo Santos / Global Imagens)

Ser alimentado por dois grandes chefs
Se é verdade que o Presidente da República passa boa parte do seu tempo em almoços, recepções e jantares de gala, não o é menos que a qualidade de confeção daquilo que se serve nos beberetes e banquetes oficiais nem sempre está à altura de um líder da nação. Para este experimentar alta cozinha a sério é melhor confiar nas duas opções de grande valia mais próximas da sua residência oficial (e, para efeitos deste artigo, hipotética residência permanente). São elas o Feitoria, no hotel Altis Belém, do chef João Rodrigues, onde em qualquer dos três menus degustação (Terra, Tradição ou Viagem) se aprecia uma enorme criatividade, atenção ao detalhe e respeito pelos melhores produtos nacionais e o Kanazawa, onde o mestre japonês Tomoaki Kanazawa, antigo chef do Tomo, serve apenas oito pessoas por refeição em menu kaiseki, no balcão à sua frente. Dá para o presidente e uma pequena comitiva.

Feitoria, Altis Belém Hotel & Spa, Doca do Bom Sucesso, Belém. 21 040 0207. Distância do Palácio de Belém: 1,2 quilómetros (15 minutos a pé)
Kanazawa, Rua Damião de Góis, 3A. www.kanazawa.pt. Distância do Palácio de Belém: 2,3 quilómetros (28 minutos a pé)

Dar às pernas junto ao Tejo
Repita-se parte da primeira frase do item anterior: “(…) o Presidente da República passa boa parte do seu tempo em almoços, recepções e jantares de galas (…)” Não será propriamente fácil manter a forma no meio dessas constantes solicitações que envolvem, normalmente, mesas cheias de comida. É pouco provável que o presidente eleito, Marcelo Rebelo de Sousa, repita, para tal, a proeza de nadar no (vizinho) Tejo, agora sem intuitos eleitoralistas, ele que até era um adepto confesso dos mergulhos diários no mar cascalense. Caso se queira mudar para a residência oficial tem uma opção bem mais lógica, acessível e eficiente: (per)correr, em modo jogging, os cinco quilómetros ribeirinhos que separam a Torre de Belém da Doca de Alcântara. Não lhe faltará companhia.

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Entre Belém e a Doca da Alcântara não falta estrada para o presidente manter a forma
(foto: cm-lisboa.pt)

Fazer uma mariscada na Nune’s Real Marisqueira
Onde também não faltam argumentos de peso a favor de uma mudança permanente para o Palácio de Belém é nos aquários de uma das melhores marisqueiras da cidade, logo ali tão perto, a Nune’s Real Marisqueira. Miguel Nunes, o dono, sabe da poda como poucos em Lisboa, tem ótimos fornecedores e uma rotatividade impressionante, o que lhe permite apresentar sempre produto fresco e de vários locais da costa. Percebes das Berlengas, camarão listado de Quarteira ou de Espinho, lagostins penichenses, amêijoas da Ria Formosa…a lista é quase infindável, e não se limita ao marisco — também há peixe de grande qualidade e ótimos bifes. A acompanhar, a cerveja servida em canecas de alumínio é um clássico.

Rua Bartolomeu Dias, 120. 21 301 9899. Distância do Palácio de Belém: 1,1 quilómetros (14 minutos a pé)

Aguçar a criatividade no Museu Coleção Berardo
Algumas das mentes mais brilhantes e criativas que contribuíram para os diferentes movimentos artísticos do século XX estão representadas na coleção permanente dpo Museu Coleção Berardo. Nomes como Joan Miró, Pablo Picasso, Piet Mondrian ou Andy Warhol, entre muitos outros. É, por isso, um museu que não enriquece apenas do ponto de vista cultural quem o visita. Tem, também, uma capacidade inspiradora que poucos outros têm, o que pode ser muito útil para um Chefe de Estado que esteja à procura da melhor forma de levar o país a bom porto.

Praça do Império, Centro Cultural de Belém. 21 361 2878. Distância do Palácio de Belém: 750 metros (9 minutos a pé)

Judy Garland Pedro Ribeiro Simões Flickr

O retrato de Judy Garland, um das obras de Andy Warhol que fazem parte da coleção Berardo (foto: Pedro Ribeiro Simões / Flickr)

Beber como um madeirense e comer como um açoriano. Ou vice-versa
Da relação do último presidente com as regiões autónomas retêm-se, essencialmente, dois episódios que envolvem animais: as cagarras na Selvagem Pequena (Madeira) e o sorriso das vacas nos Açores. Mas há muito mais em ambos os arquipélagos para além da fauna e não será difícil ao vencedor das eleições reconhecê-lo. Nem tão pouco experimentá-lo. Para tal, basta que se torne cliente de dois espaços das redondezas que representam condignamente as ilhas, cada um à sua maneira. N’ O Vilhão, em Belém, há ponchas, lapas, bolo do caco, Brisa e Coral, entre outros produtos tipicamente madeirenses. Já no Espaço Açores, na Ajuda, serve-se um buffet açoriano todas as quintas-feiras, com vários pratos, e todas as sextas e domingos ao almoço recria-se o famoso cozido das furnas, com uma caldeira elétrica que simula as condições encontradas na ilha de São Miguel. A reserva é aconselhável.

O Vilhão: Rua da Junqueira, 266A. 21 363 0179. Distância do Palácio de Belém: 550 metros (6 minutos a pé)
Espaço Açores: Calçada da Boa Hora à Ajuda, 19. 21 364 0881. Distância do Palácio de Belém: 1,2 quilómetros (16 minutos a pé)

Apreciar a arte e a cozinha do Espaço Espelho d’Água
Se quem vencer as eleições prestar atenção ao que se vai escrevendo no Observador, não deverá encarar como novidade o destaque dado ao Espaço Espelho d’ Água. O espaço concebido originalmente para a Exposição do Mundo Português de 1940 ganhou nova vida no final de 2014, depois de um concurso público promovido pela Associação de Turismo de Lisboa. Mário Almeida, o atual proprietário, desenvolveu um conceito que une gastronomia, arte, design e música com grande influência, em todos esses vetores, dos vários territórios da lusofonia. Ou seja, de um ponto de vista institucional este é um excelente espaço para o novo presidente ir alimentando (literalmente e não só) as boas relações com a CPLP.

Edifício Espelho d’Água. Avenida de Brasília. 21 301 0510. Distância do Palácio de Belém: 1 quilómetro (12 minutos a pé)

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Ao fundo, o mural pintado por Sol Lewitt, descoberto durante as obras de renovação.
(foto: Luís Ferraz / Espaço Espelho D’Água)

Encher a barriga sem esvaziar a carteira
Depois de sugerir alta cozinha, marisco, doçaria e até fast food falta, claro está, precaver uma hipotética inclinação do novo presidente para a cozinha mais típica e menos cara, daquela que se serve em restaurantes simples e honestos, capazes de fazer qualquer pessoa, até o líder da nação, sentir-se automaticamente em casa. Quatro sugestões nesse campeonato, por ordem de proximidade com a residência oficial: o Solar do Embaixador, onde o arroz de marisco é sempre opção segura; o restaurante A Paz, um dos favoritos de Eusébio da Silva Ferreira, conhecido pelos filetes de garoupa e o bacalhau à Brás; a Marítima do Restelo, onde o ótimo e generoso arroz de garoupa costuma atrair muita gente e, finalmente, a Tasca do Gordo, que faz valer a viagem um pouco mais longa graças à grande especialidade da casa, a dobrada, servida em doses portentosas.

Solar do Embaixador, Rua do Embaixador, 210. 21 362 5111. Distância do Palácio de Belém: 140 metros (1 minuto a pé)
A Paz, Largo da Paz, 22B. 21 364 1503. Distância do Palácio de Belém: 900 metros (12 minutos a pé)

Marítima do Restelo, Rua Bartolomeu Dias, 110. 21 301 0577. Distância do Palácio de Belém: 1,2 quilómetros (15 minutos a pé)
Tasca do Gordo, Rua dos Cordoeiros a Pedrouços, 33-35. 21 301 2184. Distância do Palácio de Belém: 2 quilómetros (25 minutos a pé)

Explorar a Travessa da Ermida
Last but not least, um projeto inovador, a Travessa da Ermida, que une diferentes motivos de interesse na mesma rua, a Travessa de Marta Pinto, a menos de 300 metros do Palácio de Belém. E quando se escreve “motivos de interesse” tanto se pode tratar de intervenções na fachada da Ermida de Nossa Senhora da Conceição e exposições de arte contemporânea no seu interior, como uma sessão de comes e bebes na Enoteca de Belém ou uma visita à Oficina de Joalharia Alexandra Corte-Real. Se nenhum destes argumentos servir, então nada a fazer — o presidente é que perde.

Travessa do Marta Pinto. 21 363 7700. Distância do Palácio de Belém: 240 metros (3 minutos a pé)

*O artigo foi ligeiramente atualizado depois de conhecidos os resultados das eleições de 24 de janeiro