Esta segunda-feira foi formado o novo Parlamento da Birmânia depois das eleições de novembro. Foi o primeiro sufrágio livre em mais de 25 anos, onde o partido da oposição, a Liga Nacional para a Democracia (LND), liderado por Aung San Suu Kyi, obteve 80% dos votos. Esta maioria é suficiente para o próximo Governo birmanês ser liderado pela mulher que foi galardoada com o Nobel da Paz em 1991.

Apesar de estar impedida de se candidatar à presidência do país, a vitória nas eleições tornou-se num marco histórico por colocar um ponto final num regime militar que liderava a Birmânia há décadas. Para além disso, Suu Kyi conquista a maioria no Parlamento nacional apenas cinco anos depois de 15 anos em prisão domiciliária.

Quem é Aung San Suu Kyi

O percurso de Suu Kyi não se cinge à caminhada política que levou o seu partido à vitória nas últimas eleições na Birmânia. Aliás, ela não é a primeira na família a lutar pelo país e a tornar-se herói. Isto porque o seu pai, o General Aung San, é ainda hoje uma das figuras da independência birmanesa, tendo sido assassinado durante o período de transição política em julho de 1947. Apenas seis meses antes de ser declarada a independência do país. Suu tinha apenas dois anos de idade.

Aung San Suu Kyi criança

Aung San Suu Kyi tinha apenas dois anos de idade quando o pai foi assassinado

Nascida em 1945, Suu Kyi viveu na Índia no princípio dos anos 60 acompanhando a mãe que tinha sido nomeada embaixadora em Deli. Foi depois para o Reino Unido para estudar na conceituada Universidade de Oxford, onde estudou filosofia, política e economia e onde conheceu o futuro marido, Michael Aris.

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Depois de viver e trabalhar em países como o Japão e o Reino do Butão, estabeleceu-se outra vez no Reino Unido com os dois filhos. No entanto, a Birmânia, apesar de estar longe em quilómetros, estava perto no pensamento de Kyi.

As ideias políticas e a vontade de mudança no seu país de origem fervilhavam. E, por isso, quando regressou em 1988 iniciou logo uma luta política e ativista que marcou toda a sua vida. A Birmânia, na altura do seu regresso, vivia um período de grande instabilidade a morte de vários manifestantes por protestavam contra o ditador U Ne Win.

Perante esta situação, e inspirada por Martin Luther King e Mahatma Gandhi, Kyi iniciou um movimento pacífico de oposição ao regime organizando comícios e viagens pelo país a exigir uma reforma democrática e eleições livres. Num discurso em Rangoon em 1988 revelou que não podia ficar indiferente ao que se passava na sua terra natal: “Não podia como filha do meu pai ficar indiferente a tudo o que se passa”, cita a BBC.

No entanto a luta pacífica organizada por Suu Kyi sofreu resposta por parte do exército que entretanto tinha chegado ao poder em 1988. E uma das medidas para por termo aos protestos foi a detenção, em prisão domiciliária, da ativista. Estávamos em 1989. Nos primeiros tempos de encarceramento o Governo propôs a libertação de Suu, desde que deixasse o país. Proposta que foi recusada.

No entanto, no ano seguinte, o Governo militar decidiu organizar eleições nacionais. E aqui deu-se a primeira vitória. Em maio de 1990 o partido LND, a que se tinha filiado entretanto, recolheu 80% dos votos, resultado que foi ignorado pelo Governo no poder. 20 anos depois o regime militar anulou formalmente a contagem dos votos.

Em 1991 a sua luta foi reconhecida com a atribuição do Prémio Nobel da Paz. Apelou a todas as pessoas para que “usem a sua liberdade para promover a nossa”.

Chegados ao ano de 1995, foi finalmente libertada. Mas a vontade de mudança e de justiça levaram-na ao ponto de partida. Marcou presença no congresso do LND e, durante anos, reclamou a legitimidade governativa do partido. Até que, em 2000, e quando tentava dirigir-se à cidade de Mandalay, contrariando as restrições de viagem impostas contra si, foi novamente colocada em prisão domiciliária.

Mas o vaivém entre liberdade e prisão ainda não tinha terminado. Isto porque em 2002 foi novamente libertada para, no ano seguinte, ser detida outra vez. Tudo aconteceu depois de confrontos entre apoiantes seus e a polícia. Em 2009, pouco tempo antes de a sentença terminar, foi acusada de albergar uma pessoa durante duas noites em casa – o que constitui uma violação da prisão domiciliária. O homem era um americano chamado John Yettaw, que se terá dirigido à residência de Aung San Suu Kyi depois de ter tido uma visão em que a sua vida era ameaçada. Em consequência do mesmo processo o homem foi também detido e deportado para os Estados Unidos.

Suu Kyi foi sentenciada a três anos de prisão, mas por esta altura já a comunidade internacional começava a olhar para a situação birmanesa no geral e para Suu Kyi em particular. As Nações Unidas declararam que a detenção era ilegal e apelavam à sua libertação. Tudo isto terá contribuído para que a sentença fosse reduzida, mais tarde, para 18 meses.

Até que chegou o ano de 2010. O Governo marcou as primeiras eleições em 20 anos para o dia 7 de novembro. No mesmo ano foi publicado um conjunto de novas leis eleitorais: uma delas proibia cidadãos condenados de serem eleitos para a presidência e outra impedia que uma pessoa casada com um cidadão estrangeiro liderasse o Executivo. Dois obstáculos, visto que Kyi era casada com um britânico (que morreu em 1999 vítima de cancro) e tinha várias condenações.

Em protesto contra a nova legislação, o LND decidiu não ir a votos. E o partido do poder voltou a vencer as eleições, desta vez conquistando mesmo a maioria dos votos. Sem oposição. Suu Kyi era libertada uma semana depois da votação.

Depois de décadas de detenções e libertações e de tentativas de concorrer à liderança política do país, chegou finalmente a sua oportunidade. Em 2012, conseguiu ser eleita como deputada. No ano seguinte foi reeleita como líder do LND e, no dia 8 de novembro de 2015, nas primeiras eleições verdadeiramente livres e democráticas, o partido conquistou 378 em 664 assentos no Parlamento. Apesar de tudo, a comunidade internacional continua moderadamente otimista em relação à situação na Birmânia, isto porque a influência militar é ainda forte. E porque Aung San Suu Kyi ainda está impedida de ocupar a presidência do país.

25 anos depois, um novo Parlamento

O dia de hoje, e o momento da tomada de posse da nova maioria parlamentar, não podia estar mais rodeado de maior simbolismo pela luta de 25 anos de um partido e, nomeadamente, de uma mulher.

Por isso, Aung San Suu Kyi, conta o The Guardian, escolheu entrar no Parlamento para o momento histórico através de uma pequena entrada lateral, sem grande expressão facial – a ausência de expressividade talvez seja a melhor maneira de representar os obstáculos ultrapassados para chegar a este momento.

Com flores no cabelo, e com padrões de pavão, símbolo do partido, no vestido, a futura chefe do Governo assistiu calmamente enquanto a nova maioria de deputados se instalava.

Aung San Suu Kyi

Aung San Suu Kyi, já tinha avisado os apoiantes para manterem a humildade e continuarem atentos às ameaças dos militares que podem sempre intervir quando se sentem ameaçados. Apesar disso, o porta-voz do LND, U Win Htein, foi mais otimista nas suas declarações esta segunda-feira: “Estamos a lutar pela democracia desde 1988. Nós sofremos muito mas agora vemos os resultados e os frutos do nosso sofrimento. É um começo lindo”.

E num dia em que se viveu um momento histórico no Parlamento birmanês aqui fica um vídeo com imagens aéreas do impressionante edifício:

https://www.youtube.com/watch?v=rZz4j16SR6Q