Do não-adversário ao populista-demagogo são duas eleições e uma aliança de distância. Jerónimo de Sousa partiu para as legislativas dizendo que o Bloco corria “na sua própria pista“, mas acabou por ver Catarina Martins cortar a meta de São Bento primeiro. O resultado da corrida, ainda assim, não deixava ponta de “ciumeira” ou de “arrelia“, garantiria ainda a quente. Entretanto, o “muro” caiu e os dois viram-se, pela primeira vez, no centro das decisões políticas. Jerónimo, ainda assim, nunca quis ser a “primeira página de jornal” ao contrário de outros. E o Bloco crescia. As presidenciais vieram confirmar a tendência: Marisa Matias cilindrou Edgar Silva. Na Soeiro Pereira Gomes, a temperatura subiu, subiu, subiu.

Quando o Bloco de Esquerda nasceu em 1999, juntando pessoas do PSR, Política XXI e UDP, o PCP olhou com desconfiança. Primeiro, ignorou. Depois, choveram as críticas e as trocas de acusações mútuas. As eleições presidenciais de 2016, no entanto, seriam o culminar de uma relação tensa. O Comité Central comunista definiu o tom:

A opção assumida pela candidatura de Marisa Matias, apoiada pelo BE, de em vários momentos fazer da candidatura de Edgar Silva a sua adversária, recorrer à falta de rigor e de respeito pela verdade, bem como à exploração demagógica de temas de ocasião“, lia-se no comunicado divulgado dois dias depois de apurados os votos.

Esta foi a primeira vez na história conjunta dos dois partidos que o PCP foi tão longe nas críticas ao desempenho dos bloquistas na campanha eleitoral. E chegou depois de os comunistas terem ficado por duas vezes consecutivas, em pouco mais de três meses, atrás do Bloco de Esquerda.

As críticas subentendidas de Jerónimo de Sousa a Marisa Matias – ou as declarações “infelizes“, como as descreveria mais tarde Catarina Martins – ajudam a dar força à tese de que a tensão entre PCP e Bloco está em crescendo. O episódio do “engraçadinha” acabou por ser um dos highlights da noite eleitoral.

Nós podíamos apresentar um candidato ou uma candidata assim mais engraçadinha, portanto, enfim… Em que fosse fácil, com um discurso ajeitadamente populista, aumentar o número de votos…”, atirou Jerónimo de Sousa.

É certo que o líder do PCP não nomeou Marisa Matias, mas também não era preciso: todos interpretaram a frase como sendo uma crítica à eurodeputada bloquista. Dois dias depois, Jerónimo ainda tentaria emendar e pedia desculpa aos que enfiaram a “carapuça”. Mas a polémica já seguia imparável. As declarações de Jerónimo de Sousa causaram mesmo desconforto entre os bloquistas.

Magoa-me a frase de Jerónimo, sobretudo porque nunca esperaria isso da parte dele”, atirava o fundador do Bloco Francisco Louçã, num artigo de opinião escrito para o jornal Público.

João Semedo juntar-se-ia ao seu antecessor para criticar “as recentes e infelizes expressões de sectarismo e arrogância por parte de dirigentes do PCP”. “Os eleitores não compreendem e não aceitam que um partido tão tolerante com os ditadores de Angola ou da Coreia do Norte seja tão inflexível na relação com as forças de esquerda. À esquerda, a eleição de Marcelo acrescenta novas razões para juntar forças e não para separar, afastar, dividir”, sublinhava João Semedo, num artigo de opinião publicado na revista Visão e, entretanto, replicado no Esquerda.net.

Seria Catarina Martins, em entrevista à SIC , a tentar evitar mais problemas. Mesmo reconhecendo que as palavras de Jerónimo de Sousa não tinham sido as melhores, a coordenadora do Bloco elogiou a campanha presidencial de Edgar Silva. Assunto encerrado, parecia dizer a bloquista.

Mas a rábula do “engraçadinha” foi apenas a última (e mais dura) das alfinetadas de Jerónimo de Sousa. Ainda durante a campanha para as eleições legislativas, e desafiado a comentar o facto de os bloquistas começarem a morder os calcanhares do PCP, o secretário-geral comunista ria-se e dizia aos jornalistas para não compararem o “incomparável”.

Depois das legislativas, que deram ao Bloco o estatuto de terceira maior bancada parlamentar, Jerónimo de Sousa tomava nota do resultado eleitoral e atirava: “Ser ultrapassado pelo Bloco não é problema; problema seria a coligação PSD/CDS ter maioria absoluta. Não peçam ao PCP que se trave aqui um duelo ou um despique. Não, a vida é assim mesmo”.

Ao contrário de Jerónimo, o Comité Central do partido não escondia o desconforto com o resultado do Bloco. E disparava contra a comunicação social. “O resultado eleitoral do BE (expresso no aumento da sua votação e número de deputados) traduz a confluência de motivações diversas que o atual quadro favoreceu, e beneficiou de uma ativa campanha de promoção da generalidade da comunicação social“.

Um argumento que o PCP, de resto, utilizou várias vezes ao longo da história conjunta com bloquistas para justificar o resultado do BE.

Juntos no mesmo barco com o PS. Na mesma sala, nem por isso

Economia, Negócios e Finanças, Política, Partidos e movimentos, privatizações

Não chegaram a ser desenterrados os machados de guerra, nem era expectável que assim fosse. Mas os sinais estavam lá. A 16 de outubro, PCP e Bloco reuniam-se para afinar a estratégia dos acordos que desenhavam com os socialistas. A partir daí, as negociações foram maioritariamente bilaterais — António Costa reunia-se ora com Catarina Martins, ora com Jerónimo de Sousa. Nunca com os dois em simultâneo.

Pelo meio, iam saindo notícias sobre os avanços e recuos das negociações. E a tampa quase saltava a Jerónimo de Sousa. “Neste processo de reuniões de trabalho que tivemos com o PS nós assumimos que aquilo que era reservado, reservado se deveria manter, numa posição séria. Outros consideraram que é bom estar nas primeiras páginas dos jornais, ser notícia de abertura na comunicação social. Mas entre isso e mantermos a honestidade e nossa posição séria, mantivemos a essa seriedade e essa reserva em relação àquilo que estávamos a trabalhar com o PS”.

Não é difícil adivinhar quem era o alvo de Jerónimo de Sousa. Ainda assim, e mesmo com todas as reservas, a aliança inédita de esquerda não ficaria comprometida. Horas antes de o Governo de Passos cair, os quatro partidos (PEV incluindo) assinavam, à hora do almoço e numa reunião discreta, três documentos a que deram o nome de “posições conjuntas”. Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e Heloísa Apolónia não chegaram sequer a cruzar-se na mesma sala.

Os acordos da “geringonça” são frágeis, bramou a direita em peso. Até Francisco Louçã, um dos principais conselheiros de Catarina Martins, disse ser “incompreensível” como é que os três partidos não se juntaram para a fotografia de família. “Houve uma fragilidade política porque a política vive também da forma como se comunica, dos seus símbolos e dos seus protocolos. O facto de a assinatura não ter sido um ato público dos três partidos é incompreensível. Se a justificação para isso foi que o PCP não quis, acho que fez mal porque mostrava aquilo que foi, a assinatura que é um compromisso de responsabilidade e mostrava como tem que mostrar. Acho incompreensível essa atitude. É uma reserva que não se explica a si própria, portanto, está errada”.

Daí para cá, os dois partidos têm coabitado de forma pacífica no Parlamento. Concordam no essencial, têm-se esforçado por reverter as medidas de austeridade e continuam a segurar o Governo socialista. As regras do jogo parecem ser conhecidas: se alguém roer a corda, António Costa cai. E as consequências eleitorais de tal decisão são imprevisíveis.

A história de uma coabitação difícil. Da “esquerda por Lisboa” ao colinho da comunicação social

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“O Bloco de Esquerda é uma espécie de ‘esquerda por Lisboa‘ agora a concorrer no país, mas que não tem expressão a nível nacional, com salpicos de alguns independentes e propostas que são no essencial cópias das que há muito defendemos. Portanto, entre a cópia e o original é preferível escolher o original”. Era desta forma que, em entrevista ao Avante!, Carlos Carvalhas, então secretário-geral do PCP, descrevia o recém-fundando Bloco de Esquerda. Dessa entrevista até hoje passaram 17 anos.

Antes de avançar até 2016, uma paragem por 2011. E um aviso: em menos de cinco anos (2011-2016), muita coisa mudou. Nas legislativas de 2011, a CDU conseguiria eleger mais um deputado, chegando aos 16. O Bloco de Esquerda perderia oito — exatamente metade da bancada. Dois anos depois, nas autárquicas, os comunistas aumentariam o número de câmaras conquistadas — 34 bastiões no total. Os bloquistas deixariam escapar a única que controlavam no país. Nas europeias de 2014, a CDU alcançaria “um dos maiores resultados de sempre em eleições europeias” e conquistava três mandatos. O BE ficaria reduzido a um eurodeputado e perdia dois mandatos.

Ao longo de todo este processo, Jerónimo de Sousa manter-se-ia firme na liderança do partido. Já Francisco Louçã, fundador e histórico coordenador do Bloco, sairia em 2012, desgastado pelo mau resultado nas legislativas e pela crescente oposição interna. Chegou uma liderança bicéfala, depois uma guerra interna e, finalmente, a reeleição de Catarina Martins, desta vez a solo. E não faltou quem escrevesse sobre a morte anunciada do partido.

O ano de 2015 seria o ano de viragem do Bloco de Esquerda. Quase a atingir a maioridade, os bloquistas fintaram todas as análises que o davam como morto e tornou-se o terceiro partido com mais assentos parlamentares. E o PCP via-se ultrapassado pelo Bloco pela segunda vez na história — a primeira tinha acontecido em 2009, sob a liderança de Francisco Louçã.

Durante os últimos 17 anos, o PCP foi acompanhado os altos e baixos do Bloco. E o Comité Central do partido reagia sempre.

Legislativas 2005. Bloco dispara para oito deputados. PCP desvaloriza

“O resultado obtido pelo BE [6,35%], traduzido num significativo progresso eleitoral, parece confirmar, tendo em conta o crescimento eleitoral da CDU [16,7%], que este partido beneficiou sobretudo do voto de muitos eleitores descontentes com os partidos da direita e com o PS. A sua votação corresponderá também a um desejo de mudança de muitos eleitores que, por razões várias, não quiseram ainda fazer a opção mais coerente e eficaz que o voto na CDU seguramente representaria“.

Este argumento seria, de resto, recorrente ao longo dos anos. O crescimento do Bloco era acompanhado pelo PCP com alguma desconfiança: se os portugueses votavam nos bloquistas, era porque não estavam prontos para uma solução mais sólida. Nesse ano, 2005, os bloquistas conseguiam passar de cinco deputados para oito, ao passo que a CDU conseguia mais um e chegava aos 14.

Autárquicas 2005. BE: “Uma força inexpressiva no quadro do poder local nacional”

Pouco depois de o Bloco ter tido um resultado estrondoso nas legislativas, o país ia de novo a votos para as autárquicas. Mas, desta vez, os bloquistas ficaram aquém, com 2,95%%. E o PCP, que chegara aos 10,94%, festejava.

“No quadro de uma campanha marcada por um indisfarçável anticomunismo (de que são exemplo as insinuações inaceitáveis visando pôr em causa a honestidade e isenção da CDU nas autarquias) e por um ostensivo favorecimento de alguns órgãos de comunicação social (quer na simpatia e quantidade das notícias, quer na descarada manipulação das sondagens sempre em seu benefício), tem particular significado que, mesmo nas zonas mais urbanas, o BE apresente votações bem atrás das obtidas nas recentes eleições legislativas.

“A derrota dos seus objetivos, no Porto, onde o BE desenvolveu uma campanha caluniosa e sem princípios contra a CDU a propósito da postura de responsabilidade que a caracteriza neste como noutros municípios, — aliás, curiosamente coincidente com as conceções que PS e PSD têm de um poder local reduzido a um poder absoluto, quando se ganha, ou a uma obstrução absoluta, quando se não vence, — é em si mesmo significativo”.

Europeias e Legislativas de 2009. Faltou vontade de romper “com a política de direita”

O Bloco tinha um crescimento considerável em ambas as eleições – 9,82% nas legislativas e 10,72% nas europeias. A CDU (10,64%) perdia dois eurodeputados e ficava atrás dos bloquistas nas legislativas, com 7,86%.

O golpe tinha sido mais duro nas legislativas. Francisco Louçã conseguia um resultado histórico para o partido e ultrapassava, pela primeira vez, a CDU. O PCP reagia assim:

“O crescimento do BE não é separável da hesitação ou recusa de muitos eleitores desiludidos com o Governo do PS em expressar um voto determinado pela exigência de uma efetiva rutura com a política de direita”, argumentariam, mais uma vez, os comunistas.

Presidenciais 2011. “A fuga para a frente do Bloco”

PS e Bloco de Esquerda juntaram-se no apoio a Manuel Alegre nas eleições presidenciais. O socialista acabaria por ser derrotado por Cavaco Silva, que conseguia a reeleição. Ficou-se pelos 19,76%.

“O resultado obtido por Manuel Alegre, apoiado pelo PS e pelo BE, traduz-se numa votação significativamente abaixo das suas proclamações e é inseparável das contradições, ambiguidades e comprometimentos com o atual rumo do país”, reagia, assim, o Comité Central do PCP.

E as críticas não se ficaram por aqui. “A fuga em frente ensaiada pelo BE para encontrar noutros responsabilidades que lhe pertencem, não pode iludir o facto de ter partilhado com o PS e o seu governo o apoio a uma candidatura objetivamente comprometida com o essencial da política e opções que nos últimos trinta anos conduziram o país à atual situação. E sobretudo o facto de, mais do que empenho no objetivo de derrotar Cavaco Silva e a política de direita, o que se viu por parte do BE foi a intenção de tirar vantagens do apoio a Manuel Alegre ditado por critérios de calculismo partidário”.

Legislativas 2011, Autárquicas 2013 e Europeias 2014. Os anos difíceis do Bloco

Depois da derrota nas Presidenciais de 2011, o Bloco foi somando derrotas atrás de derrotas. Perdeu metade da bancada em 2011 (5,17%), Salvaterra de Magos nas autárquicas de 2013 (2,42%) e dois deputados europeus nas eleições de 2014. (4,56%) Perante isto, o PCP tentava descolar-se dos resultados bloquistas.

Foi assim em 2011. “O Comité Central do PCP denuncia a descarada mistificação que a corte de analistas e comentadores ao serviço do grande capital tem em curso para, aproveitando a significativa quebra eleitoral do BE e a redução a metade do número dos seus deputados, proclamar uma perda dos partidos ‘à esquerda do PS’ procurando assim desvalorizar o importante resultado da CDU”.

Nas eleições seguintes, o PCP viria a registar a “erosão eleitoral do BE“, denunciado “a promoção” dedicada pela comunicação social de “candidaturas com diferentes e contraditórias origens”, como foi o caso da campanha de Marinho e Pinto nas europeias de 2014.

Legislativas 2015 e Presidenciais 2016. Bloco levado ao “colo” pela comunicação social

O ano de 2015 acabaria por ser o turning point que as hostes bloquistas tanto desejavam. E seria também sinónimo de más notícias para o PCP. Aos resultados menos positivos nas urnas, o comité central respondia com novo ataque à comunicação social.

“O resultado eleitoral do BE [10,19%] (expresso no aumento da sua votação e número de deputados) traduz a confluência de motivações diversas que o atual quadro favoreceu, e beneficiou de uma ativa campanha de promoção da generalidade da comunicação social“, reagia, assim, o Comité Central do PCP – Jerónimo de Sousa ficou-se pelos 8,25%.

Nas últimas presidenciais, as críticas seriam bem mais duras – Marisa Matias que o diga. Em 2017, há novas eleições, desta vez autárquicas, onde um e outro partido têm, historicamente, força diferente. O que dirá, por essa altura, o PCP sobre o Bloco?