Se aquando das primeiras projeções das sondagens, às 20h, a esperança da candidatura de Edgar Silva era a de que os resultados ainda não eram os finais e que a segunda volta era possível, por volta das 21h30, quando Edgar falou aos apoiantes, e ao país, já se assumia que os resultados destas eleições presidenciais não eram o “desejável”.

Mas foi logo aos primeiros resultados das sondagens que os apoiantes de Edgar Silva, presentes na sede do PCP Lisboa, onde esteve o candidato, marcaram pelo silêncio. Poucos eram os comentários, imperava a calma e a serenidade: ainda assim, esperava-se uma segunda volta. A fé de que Marcelo Rebelo de Sousa seria forçado a uma segunda volta aguentava os apoiantes em frente às televisões.

Localizados estrategicamente ao pé do bar da sede, iam assistindo às declarações emitidas das sedes de outras candidaturas, como a de Maria de Belém, Maria Matias ou Sampaio da Nóvoa, e esperavam o momento em que Edgar desceria e lhes daria o alento necessário a uma noite desconsolada. E enquanto se espera, petisca-se. Uma maçã aqui, uma sandes e uma água acolá.

Edgar Silva e Jerónimo de Sousa não comentaram as projeções, essa tarefa foi delegada para membros da Comissão Política. E, depois, Rita Rato, a mandatária distrital (Lisboa) da candidatura de Edgar Silva. Ainda havia esperança de se cumprir o objetivo central que era levar estas eleições presidenciais a uma segunda volta. Mas ainda não foi desta que se repetiu o feito de Freitas do Amaral e Mário Soares, em 1986. Algo que “não é positivo”, na opinião de Rita Rato.

Mas desengane-se quem pensa que o desânimo marcava os rostos daqueles que viam em Edgar Silva o melhor candidato para ocupar o Palácio de Belém. Ainda Edgar Silva não tinha falado, já Luís Encarnação dizia que, apesar da fraca posição do candidato, o “resultado vale o que vale”. “Vamos continuar cá”, assegura Luís Encarnação, acrescentando que está de “cabeça erguida”.

Mas Luís Encarnação, de 23 anos, não se ficou por aqui. Estava bem junto das televisões, não queria perder pitada. E argumenta que existiu um “contexto adverso”, dado que Marcelo Rebelo de Sousa andou a “fazer campanha durante 15 anos”, no seu papel de comentador. Ainda assim, este militante da Juventude Comunista Portuguesa ficou satisfeito com a campanha que foi feita a nível nacional, e quase fez eco das palavras de Rita Rato, que afirmou: “Provavelmente a única campanha de massas no país”.

Edgar falou, Jerónimo falou. Os resultados não foram os esperados, mas os valores continuam os mesmos. Amanhã, Edgar não estará a descansar, mas sim a “continuar a sonhar coisas impossíveis”, numa luta continua pela mudança social, e pelos valores da justiça social e dos direitos dos trabalhadores. O PCP também continuará como sempre. “A luta continua”, afirma Jerónimo de Sousa, cujo discurso que estava a ser transmitido pelas televisões foi abafado pelo de Passos Coelho.

Bombardeado por perguntas dos jornalistas, Jerónimo não disfarçou a frustração de ter tido 4% e de o candidato do PCP ter ficado muito atrás de Marisa Matias, do BE. “Nós podíamos apresentar um candidato ou uma candidata assim mais engraçadinha, portanto, enfim… Em que fosse fácil, com um discurso ajeitadamente populista, pudesse aumentar o número de votos. São opções e eu não quero criticá-las. Mas, de qualquer forma, nós partimos sempre para estes combates, onde se travam combates de ideias, combates com ideias politícas, com princípios. Aquilo que caracteriza este partido defensor dos interesses dos trabalhadores e do nosso povo. Nessa coisa não somos capazes de mudar, continuamos a fazer esta opção”.

A meio dos discursos, no final dos discursos: “Abril vencerá! Abril vencerá!”. Edgar e Jerónimo saem de cena e são escoltados pelos apoiantes ao som de “a luta continua! A luta continua!”. E mais uma vez: “Abril vencerá! Abril vencerá!”.

Saem os protagonistas, e os militantes seguem-lhes os passos. Poucos ficam ao pé do bar a assistir ao resto da noite eleitoral. Afinal, os resultados ainda não estão fechados, apesar de tudo apontar para que a candidatura de Edgar Silva fica abaixo dos 4%.

Sentadas ao pé de uma janela e com um ar cúmplice estão duas irmãs. Rosa Peças e Maria José Bota. “Bom, é natural que não esteja muito animada”, esclarece Rosa Peças quanto ao seu estado de espírito. Os resultados, mais uma vez, “não são aquilo que se esperava”. Mas Rosa, militante do PCP e “apoiante de primeira linha” de Edgar, apresenta uma justificação diferente da que mais se tem ouvido: “Acho que as pessoas de esquerda, que não queriam que Marcelo ganhasse, optaram por reforçar aquele que as sondagens indicavam que tinha maiores possibilidades de ir a segunda volta”, ou seja, optaram “por reforçar a candidatura de Sampaio da Nóvoa”. Em vão.

Mas Rosa Peças não se conforma. A vitória de Marcelo “não foi uma vitória da democracia”, foi sim um enveredar pelo “caminho do retrocesso”. Logo agora. “Agora que o povo estava a recuperar alguma coisa dos últimos quatro anos”, lamenta. Maria José Bota faz das palavras da irmã suas. É uma simpatizante da candidatura de Edgar Silva e confessa-se “muito desiludida”. Esperava mesmo uma segunda volta entre Sampaio da Nóvoa e Marcelo Rebelo de Sousa. Mas, com 64 anos, faz do seu lema “pensar sempre positivo”.

Não foi desta que um candidato apoiado pelo PCP chegou a Belém, mas “a luta continua”. A garantia é de que o PCP estará onde sempre esteve: na linha da frente na luta pelos direitos dos trabalhadores e pela mudança social. Amanhã é outro dia de luta.

*Editado por Helena Pereira