A divisão entre católicos e ortodoxos, que dura há quase 1000 anos, está em vias de acabar? É ainda cedo para essas previsões, mas os primeiros sinais estão aí: pela primeira vez desde que as duas igrejas se separaram (o que aconteceu em 1054), os líderes religiosos da Igreja Católica romana e da Igreja Ortodoxa russa vão reunir-se. Acontecerá já esta sexta-feira, em Havana. A BBC fala em “primeiro passo para a reconciliação das [duas] maiores igrejas cristãs”.

Segundo noticiou o jornal britânico The Guardian, na passada sexta-feira, o Papa Francisco chegará ao aeroporto José Martí esta sexta-feira, onde será primeiro recebido pelo presidente do país, Raul Castro. A partir daí, terá um reunião privada com o patriarca Kirill de Moscovo, que gere a maior igreja ortodoxa do mundo (segundo a BBC, esta soma 120 dos 200 milhões de fiéis ortodoxos de todo o mundo).

Ainda segundo o jornal britânico, o encontro entre Francisco e Kirill durará cerca de duas horas e os dois assinarão uma declaração conjunta em russo e italiano, no fim da reunião. O seu conteúdo permanece ainda desconhecido. Após o fim do encontro privado, seguir-se-á uma troca de presentes entre os dois e um momento para ambos falarem à imprensa.

A escolha da capital cubana foi feita, segundo um porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, por ser um “local neutro” e porque é uma localização conveniente aos dois líderes religiosos: Kirill já se encontra em Cuba, para uma visita oficial, e o Papa Francisco viajará depois para o México, pelo que parará em Havana. Mas há também outras razões: as feridas que se encontram por sarar há quase mil anos — segundo o porta-voz do patriarca russo, este não se quis reunir na Europa devido “ao grave historial de divisões e conflitos entre cristãos”.

O encontro ocorre depois do esforço do Papa Francisco em materializar um encontro com o líder ortodoxo russo. Segundo o próprio revelou, disse a Kirill, em 2014, que se deslocaria onde este quisesse para uma reunião. “Irei onde tu quiseres. Ligas-me e eu vou”, ter-lhe-á dito, em novembro de 2014. Segundo um porta-voz da Igreja Ortodoxa russa, citado pelo The Guardian, os dois deverão debater “o genocídio real que está a ser perpetrado por extremistas” a cristãos, como os do grupo terrorista Estado Islâmico, que exige “medidas urgentes e uma cooperação mais próxima entre as Igrejas cristãs”.

Numa declaração conjunta na passada sexta-feira, os dois líderes religiosos afirmavam que a reunião “marcará uma importante etapa nas relações entre as duas Igrejas” e convidavam “todos os cristãos a rezar fervorosamente a Deus para abençoar esta reunião, para que ela traga bons frutos”.

Este é o segundo grande passo de aproximação entre as duas Igrejas, depois do patriarca de Constantinopla (o patriarca ortodoxo proeminente), Bartolomeu I, ter assistido à tomada de posse do Papa Francisco. Aí, o Papa assumiu uma posição humilde, caracterizando-se apenas como “o bispo de Roma”, o que Bartolomeu I terá apreciado. No ano seguinte, os dois reuniram-se em Istambul.

Há quase dez séculos divididos: porquê?

A grande separação entre as duas Igrejas deu-se em 1054, altura em que o Papa e patriarca da Igreja Ortodoxa de Constantinopla de então se excomungaram mutuamente. A grande separação deveu-se a várias razões: desde a cultural até à teológica e política.

Uma das principais diferenças entre as duas Igrejas é doutrinária. No Ocidente, por exemplo, acredita-se e reza-se ao Espírito Santo, “em nome do pai e do filho”, ao passo que na Igreja Ortodoxa este procede apenas do filho. Essa diferença originou “concílios, guerras e mal entendidos”, que levaram a um confronto de “um milénio”, segundo afirma à BBC o vice-reitor da universidade Pontífice da Santa Cruz de Roma, Philip Goyret.

Outra das grandes diferenças que levaram à separação entre as duas Igrejas é a relação de poder e de organização interna. Se na Igreja Católica o Papa tem uma função de máxima autoridade, na Igreja Ortodoxa o poder não está concentrado num único patriarca: o de Constantinopla é “o primeiro entre iguais”, não tendo contudo jurisdição sobre os restantes patriarcas. A posição do Papa era vista com grande desconforto pelos bispos ortodoxos.

Para além disso, no século XI, as duas Igrejas lutaram entre si pela sua implementação e crescimento. Mais tarde, durante a criação da URSS, a liberdade religiosa diminuiu, levando à repressão dos católicos no bloco soviético. Com a queda do muro de Berlim, esta liberdade foi reconquistada, originando a que nos últimos anos a Igreja Católica se tenha expandido na Rússia. Algo visto com maus olhos pela diocese ortodoxa de Moscovo.

Será desta que as Igrejas se aproximam? Segundo Philip Goyret, era importante que tal acontecesse: “O facto de estarem divididas é escandaloso e prejudica gravemente a evangelização. Mina a credibilidade do cristianismo“, considera o teólogo, citado pela BBC. A posição política do Papa Francisco na condenação do liberalismo económico, das sociedades desreguladas e as suas preocupações com o meio ambiente também ajudam à aproximação, segundo Goyret. Note-se que, na Rússia, a relação entre a Igreja ortodoxa e o Estado presidido por Vladimir Putin é estreita.