Depois de falhar a investidura como chefe do Governo espanhol, Pedro Sánchez (PSOE) tenta desesperadamente convencer Pablo Iglesias (Podemos) a alinhar com a sua estratégia e apoiar a sua candidatura juntamente com o Ciudadanos. Mas a posição inflexível do Podemos, que já foi apontada como motivo da crise interna no partido de Iglesias, levou o líder do PSOE a pedir ajuda a Alexis Tsipras, primeiro-ministro grego.

Sanchéz admitiu, antes da reunião do encontro com socialistas em Bruxelas, que vai “pedir a Tsipras que diga a Iglesias que a sua atitude de bloqueio está a prejudicar milhões de espanhóis que sofrem de desigualdade, os cortes e a austeridade”. Aproveitou ainda para dar “as boas vindas a Tsipras à família socialista europeia”, para a qual entrou o Syriza.

O Syriza e o Podemos já tinham provado estar em sintonia quando se apoiaram mutuamente nas campanhas eleitorais nos seus respetivos países. Sánchez tem consciência da proximidade entre Tsipras e Iglesias e é por isso que quer que o primeiro-ministro grego interfira a favor da sua proposta para um acordo de governo. O líder do PSOE disse que pretende que o líder do Podemos “desbloqueie a situação e permita um governo de mudança em Espanha”. Admitiu ainda que vai dizer a Tsipras “que diga a Iglesias que deixe de fazer jogo à direita. O que milhões de espanhóis querem é mudança”.

Em relação à dificuldade que enfrenta na formação de governo diz que “a responsabilidade é do governo de Rajoy, mas também daqueles que contribuem com o seu bloqueio a que Espanha não tenha um governo com plenas capacidades em plenas funções”.

A reunião de socialistas europeus conta também com a presença de António Costa, com quem Sáchez se reuniu para pedir conselhos três semanas depois das eleições em Espanha.

Crise interna no Podemos

Na quarta-feira, Iglesias demitiu o número três o partido, Sergio Pascual, alegando “gestão deficiente”. Pascual era o braço direito de Íñigo Errejón — o porta-voz e número dois do partido. Este “golpe” é um sinal da brechas internas no partido foi até apontado como um dano colateral da disputa entre Iglesias e Errejón pela liderança do partido.

Desde então, Íñigo Errejón não voltou a ser visto, avança o El Mundo. A sua última intervenção em público foi numa iniciativa do PP sobre a unidade do país e que devia ter votado não, mas em vez disso absteve-se. Também não apareceu da Comissão de Propriedade e Administrações Públicas da qual é porta-voz e nem sequer nas redes sociais, onde costuma ser muito ativo, tem dado sinais de vida.

Por outro lado, enquanto Errejón se remete ao silêncio, também os membros do partido que lhe são mais próximos não têm aparecido publicamente, enquanto elementos mais próximos de Iglesias, como Irene Montero e Rafa Mayoral, têm tido uma presença muita ativa nas linhas da frente do Congresso e na televisão espanhola. Esta estranha movimentação tem alimentado a teoria de uma luta interna pelo poder partido entre o líder e o atual número dois.

Iglesias convocou uma reunião com os líderes autonómicos e secretários de organização regionais do partido para discutir a crise interna e a reestruturação do partido. Errejón não estará presente nesta reunião, mas o partido já veio dizer que nunca o fez, por isso a sua ausência não é estranha.

Irene Montero, chefe de gabinete de Iglesias, garante que Errejón “não se vai demitir” e, referindo-se à relação entre Errejón e Iglesias, garante que “têm estado a trabalhar com normalidade e falaram para preparar a reunião com Pedro Sánchez”.

A demissão de Pascual foi o mais recente “golpe” que o partido sofreu, mas não é o único. A 9 de março, outro aliado de Erréjon, Emilio Delgado, demitiu-se. Mas não foi sozinho: outros nove dirigentes regionais seguiram a sua deixa. A razão apontada foi a “deriva” da direção regional, mas depressa surgiu a teoria de que o fator essencial foi a posição inflexível de Iglesias, que se recusa a apoiar Sánchez.

Infelizmente para Pedro Sánchez, a pressão interna não tem quebrado Iglesias. Pode ser que Tsipras consiga.