Rádio Observador

Caso BES

Manuel Fernando Espírito Santo sobre os pagamentos do saco azul do GES: “Não fui informado”

"A partir de meados da década de 2000 deixei de ver mencionada a ES Enterprises nos organogramas do GES", diz Manuel Fernando Espírito Santo ao Observador. Por isso, "pensava que teria sido extinta".

© Hugo Amaral/Observador

Manuel Fernando Espírito Santo, ex-administrador executivo do Grupo Espírito Santo (GES), garante em declarações ao Observador que não foi informado de qualquer pagamento ilícito por parte de sociedades sediadas em paraísos fiscais controladas pelo GES. E afirma que cabe à justiça apurar quem foi prejudicado pela gestão do GES e do Banco Espírito Santo (BES). Estas são as suas primeiras declarações públicas desde que prestou depoimento em dezembro de 2014 na Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso BES.

Manuel Fernando Espírito Santo foi o líder executivo da Rio Forte (holding da área não financeira do GES), administrador da Espírito Santo International (holding de controlo GES), administrador não executivo do BES e membro do Conselho Superior do GES. Neste último órgão, que configurava a cúpula do GES e onde estavam representados os líderes dos cinco clãs da família Espírito Santo, Manuel Fernando representava a sua mãe, Maria do Carmo Moniz Galvão.

Recorde-se que, tal como o Observador noticiou, o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) tem vindo a reconstituir os fluxos financeiros com origem em diversas empresas controladas pelo Grupo Espírito Santo (GES), num montante total que se suspeita ascender a cerca de 300 milhões de euros e que envolveram as seguintes entidades:

  • Espírito Santo (ES) Enterprises I
  • Espírito Santo (ES) Enterprises II
  • Espírito Santo (ES) Services

O DCIAP já terá identificado um número significativo dos destinatários de parte desses 300 milhões de euros, tendo conseguido reconstituir quatro grupos:

  • Membros da família Espírito Santo, administradores e altos quadros do BES e do GES;
  • Titulares de órgãos sociais de empresas participadas pelo BES e pelo GES;
  • Titulares de cargos políticos portugueses;
  • Titulares de cargos políticos venezuelanos.

Confrontado com estas informações, e questionado sobre se tinha conhecimento da existência das sociedades acima referidas e dos respetivos fluxos financeiros cuja existência configuram uma prática conhecida em linguagem comum como ‘saco azul’, Manuel Fernando Espírito Santo afirmou: “Das sociedades em causa conheço a ES Services, que não era offshore” como, por lapso, o Observador referiu, “mas sim uma sociedade de direito luxemburguês com uma sucursal na Suíça, cujo objeto era a prestação de serviços administrativos e de contabilidade às empresas não financeiras do grupo.”

O igualmente ex-administrador não executivo do BES assegura: “Desconheço que por ela [ES Services] tenham passado os fluxos financeiros que refere.”

“Quanto à ES Enterprises apenas conheci uma, desconhecendo que houvesse uma segunda. De acordo com o meu melhor conhecimento pensava que ela teria sido extinta em meados da década de 2000″, conclui. Porquê? Porque “a partir dessa altura deixei de ver mencionada essa empresa nos organogramas do grupo, por motivo que ignoro”, afirmou.

Confrontado com as suas declarações na Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso BES/GES de que a gestão da tesouraria do GES estava centralizada nas figuras do “dr. Ricardo Salgado e José Castella, com o apoio de Francisco Machado da Cruz”, e questionado sobre se alguma vez foi informado sobre pagamentos alegadamente ilícitos com origem na ES Enterprises, Manuel Fernando foi lapidar: “Não fui informado”, afirmou ao Observador.

Instado a qualificar o facto de alegadamente existirem pagamentos regulares por via de sociedades offshore que não faziam parte da estrutura oficial do GES aos quatro grupos de destinatários acima referidos, Manuel Fernando foi cauteloso na resposta: “Desconhecendo os factos subjacentes à pergunta compreenderá que não possa emitir qualquer juízo”.

Recorde-se que o Correio da Manhã noticiou este domingo que Ricardo Salgado teria confessado num interrogatório realizado no DCIAP um alegado pagamento de oito milhões de euros a Zeinal Bava, ex-presidente executivo da Portugal Telecom. Bava confirmou ao Correio da Manhã ter recebido determinados fundos (que não quantificou) mas recusa classificá-los como “qualquer remuneração, contrapartida, bónus, compensação ou gratificação por parte do GES ou de qualquer outra empresa a ele ligada”. “O valor que me confiaram foi-o fiduciariamente ao abrigo de um contrato firmado com uma empresa do grupo GES, já oficialmente devolvido, incluindo juros, aliás, nos termos do contrato”, afirmou o gestor.

O Correio da Manhã publicou na edição desta sexta-feira um direito de resposta de Francisco Proença de Carvalho, no qual o advogado de Ricardo Salgado desmente uma frase atribuída ao ex-presidente executivo do BES: “Salgado disse no interrogatório [que o dinheiro que deu a Bava] era um prémio de gestão”. “Desminto categoricamente a declaração que o Correio da Manhã atribui ao meu cliente, pois é falsa e deturpada”, afirma Proença de Carvalho.

Confrontado com as declarações de Pedro Mosqueira na edição deste sábado do Expresso, que classificou os alegados pagamentos do saco azul do GES, como “um roubo aos acionistas”, Manuel Fernando Espírito Santo diz que antes dos acionistas estão “muitas outras pessoas prejudicadas”, no que se depreende ser uma referência aos clientes e investidores do BES e do GES. “Por princípio não comento juízos de valor ou comentários de terceiros. E faço notar que, a falar-se de prejuízos, antes dos acionistas haverá o caso de muitas outras pessoas prejudicadas. Mas isso caberá à justiça apurar”, concluiu.

Acrescentado parágrafo com o direito de resposta da defesa de Ricardo Salgado publicado na edição desta sexta-feira do Correio da Manhã.

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