Jo Cox, do Partido Trabalhista britânico, morreu esta quinta-feira depois de ser baleada em West Yorkshire, anunciou a chefe da polícia local numa conferência de imprensa. De acordo com Dee Collins, a deputada de 41 anos, que defendia a permanência do Reino Unido na União Europeia (UE), foi declarada morta no local. Um homem de 77 anos também ficou ferido, mas sem gravidade.

Testemunhas no local garantem que a deputada do Parlamento britânico foi também esfaqueada, informação que ainda não foi confirmada oficialmente. Segundo Collins, citada pelo Guardian, as autoridades acreditam tratar-se de um “incidente isolado”. Algumas armas, incluindo uma arma de fogo, foram encontradas no local. O caso está agora nas mãos da polícia, que garante não poder avançar com mais pormenores numa fase tão inicial da investigação.

O ataque aconteceu por volta das 13h perto da Biblioteca de Birstall, na Market Street. Num comunicado emitido ao início da tarde, a polícia de West Yorkshire anunciou que foi detido um homem de 52 anos foi detido no local, mas sem divulgar mais detalhes, informação que voltou a repetida por Collins na conferência desta tarde. Segundo o Guardian, o homem é conhecido localmente como Tommy Mair.

A BBC divulgou uma imagem daquele que se acredita ser o momento da detenção do suspeito.

Uma testemunha disse à Associated Press que a arma usada no ataque parecia ser de fabrico artesanal. Hithem Ben Abdallah, de 56 anos, estava num café ao lado da biblioteca quando ouviu gritos. O homem saiu a correr e viu dois homens que estavam a lutar, um deles de boné branco. “De repente, o homem de boné tirou uma arma da mala”, contou à agência de notícias. Foi aí que a deputada se envolveu na discussão.

“Ele estava a lutar com ela e depois a arma foi disparada duas vezes e ela caiu entre dois carros. Vi-a a sagrar no chão.” O incidente demorou cerca de 15 a 20 minutos, até que chegaram os serviços de urgência.

Suspeito gritou “Britain First” antes de disparar

Antes de disparar sobre Cox, o atacante terá gritado “Britain First”, o nome do partido do britânico de extrema-direita formado a partir de antigos membros do Partido Nacionalista Britânico (BNP), de acordo com os relatos de algumas testemunhas. O Britain First tem feito campanha a favor do “Brexit”, a saída do Reino Unido da UE.

Graeme Howard, de 38 anos, foi uma das pessoas que garante ter ouvido o suspeito a gritar o nome do partido. Ao Guardian, Howard, que mora perto da Biblioteca de Birstall, contou que ouviu “um tiro” e que correu para a rua. “Vi umas senhoras do café a correram com toalhas na mão. Havia muitos gritos e tiros, e a polícia apareceu. “Ele estava a gritar ‘Britain First’ quando estava a disparar e quando foi detido. Ele foi detido por dois polícias e ela foi levada numa ambulância“, relatou.

Em resposta aos relatos, o partido publicou um comunicado onde acusa os media de estarem “desesperadamente” a tentar incriminar o Britain First, com base em boatos e em fontes por confirmar. “Uma única testemunha (por confirmar) afirmou que o atacante ‘aparentemente’ gritou ‘Britain First’ durante o ataque mas, neste momento, isto não passa de um boato“, pode ler-se no site do partido.

“Existem muitas palavras como ‘aparentemente’ e ‘alegadamente’. Isso não impediu os media de publicarem múltiplos artigos a condenar o Britain First por estar de alguma forma envolvido”, refere ainda o comunicado, salientando que “o Britain First não está obviamente envolvido e nunca encoraja comportamentos deste género”.

A police forensic officer prepares to work at the scene in Birstall where Labour MP Jo Cox was shot on June 16, 2016. Campaigning for Britain's EU referendum next week was suspended on Thursday following news a leading MP with the "Remain" camp was in a critical condition after being shot. Jo Cox, a 41-year-old mother-of-two from the opposition Labour Party, was left bleeding on the pavement after the incident in the town of Birstall in northern England, according to witnesses quoted by local media. / AFP / OLI SCARFF (Photo credit should read OLI SCARFF/AFP/Getty Images)

O ataque aconteceu por volta das 13h na Market Street (OLI SCARFF/AFP/Getty Images)

O partido publicou também um vídeo no Facebook sobre o ataque à deputada, onde afirma que este é “um dia negro para o nosso país e para a democracia”.

Jo Cox era deputada no Parlamento britânico, onde representava o distrito eleitoral de Batley and Spen, em West Yorkshire. Cox foi eleita na sequência das eleições de 2015, tendo trabalhado anteriormente para a Oxfam, uma confederação internacional de 17 organizações que procuram acabar com a pobreza. Era casada com Brendan Cox, antigo executivo da organização não-governamental Save the Children e conselheiro do Partido Trabalhista. Tinha dois filhos pequenos.

“Perdemos uma estrela”

David Cameron já reagiu à morte da deputada através do Twitter. “A morte de Jo Cox é uma tragédia“, escreveu o primeiro-ministro britânico. “Perdemos uma estrela. A Jo era uma grande deputada, com uma grande compaixão e um grande coração.”

Na rede social, as reações à morte da deputada começaram a multiplicar-se. Sarah Wollaston escreveu que “Joe Cox era uma pessoa adorável” e John Prescott, antigo deputado do Partido Trabalhista, lamentou a perda de uma política “brilhante”. “Uma perda terrível para a sua família e para todos nós”, acrescentou.

John Mann, deputado do Partido Trabalhista, descreveu Cox como “uma das estrelas verdadeiras da nova gestão” e afirmou que ele e os seus colegas estavam “completamente chocados” com o ataque desta quinta-feira. Jeremy Corby, líder trabalhista, disse num comunicado que o partido “e toda a família trabalhista estão emocionados pelo horrível morte de Jo Cox”.

“A Jo tinha um largo historial de serviço público e um grande compromisso com a humanidade“, acrescentou, lembrando o trabalho da deputada em várias organizações não-governamentais. “[Os seus filhos] vão crescer sem a sua mãe, mas podem estar profundamente orgulhosos do que fez, do que conseguiu e do que defendeu.”

O marido da deputada, Brendan Cox, emitiu um comunicado em que afirma que ela quereria que todos se unissem para “lutar contra o ódio que a matou”. “A Jo acreditava num mundo melhor e lutou todos os dias com energia e com um entusiasmo pela vida que iria deixar muita gente exausta”, disse, acrescentando que “o ódio não tem credo, raça ou religião — é venenoso”.

“A Jo não se arrependeu de nada na sua vida. Viveu cada dia ao máximo.”