Em cada jogo do Europeu, a mais ou menos uma hora da ação, aparecem uns quantos voluntários da UEFA, vestidos com polos vermelhos, a distribuírem umas folhas pelos jornalistas. São os onzes, é assim que ficamos a saber quem joga e quem se senta. Entregam-me uma, merci, e vejo que, lá na frente, os ingleses vão ter um rapaz que há uns anos jogava na quarta ou quinta divisão, trabalhava numa fábrica e chegou a equipar com uma pulseira eletrónica no tornozelo. Era um zé-ninguém. Ele faz-me logo lembrar alguém que, dois anos antes de jogar de início na final de um Mundial (em 2010) também o era. Jogava na terceira divisão, nem sequer a titular, era pequenote e tornou-se num pobre e mal-agradecido. Não como Jamie Vardy.

O jogo do dia é o Inglaterra-Eslováquia, mas o tema do dia não. É sim a birra que um antigo juan-nadie espanhol fez por estar a passar muito tempo sentado. Pedro Rodríguez diz que “é difícil ser convocado só para fazer grupo” quando ter um grupo é das coisas mais importantes num torneio destes, digo eu. E um texto sobre ingleses e eslovacos começa com um espanhol porque ele devia era olhar para Jamie Vardy. Porque o rapaz cuja vida no futebol começou bem pior que a de Pedro é quem mais faz pelos ingleses quando é o que menos talento em bruto tem. É um rico e bem-agradecido.

Mesmo que o jogo não esteja bem para ele. Os eslovacos estão lá atrás, encostados à área, os defesas com os médios chegados a eles, uma equipa comprimida em 30 metros. Encolhem-se para os centrais não mostrarem o quão lentos e a lentidão que têm quando é preciso rodarem o corpo. Jamie Vardy é um avançado de corrida, bola no espaço, perseguir passes, de três toques e chuta. Assim, portanto, fica-lhe difícil. Mas ele quer torná-lo fácil quando surge a sprintar perto do primeiro poste, tão de rompante que é com o joelho que remata (5’) o cruzamento de Clyne, vindo da direita.

Tem de ter paciência. Como a equipa, que não convocou extremos e tem de esticar este jogo, ter homens colados às linhas e passar a bola rápido para o lado e muitas vezes para a frente, para tirar os eslovacos da toca. Eric Dier fá-lo muito e bem, mas com passes pelo ar, que fazem os laterais receber a bola e ter que esperar pelo médio que demora a chegar. Henderson é o único que tenta cortar a defesa com a bola na relva. Wilshere não existe, o jogo não está para correr de peito feito com a bola no pé e à procura de alguém para tabelar. Não há espaço. A bola é muito pouco dos eslovacos porque os ingleses defendem lá em cima, onde eles têm os médios, e só não se importam quando ela está nos pés de Skrtel e Durica.

Pum, bola para a frente, sempre pelo ar, e nem Hamsik nem Weiss a conseguem tocar. Estes é que são pobres e mais de sina por serem bons de bola e merecerem tê-la. Mas assim, com a Eslováquia encolhida e pressionada, é difícil. Os ingleses jogam pouco rápido e ao primeiro toque, na única vez que o fazem Lallana remata ao guarda-redes (13’) a bola que Vardy lhe ajeita. Até ao intervalo, o avançado do Leicester apanha uma bola ao jeito dele, que o faz correr, ultrapassa Skrtel como um carro, diz adeus a um camião na autoestrada até Saint-Étienne, mas remata contra Kozácik já na área.

Não volta a ter outra, mas saca três vezes a bola aos defesas eslovacos perto da área, por ser raçudo, correr como um desalmado e dar tudo por quem joga à volta dele. Os eslovacos também entram na segunda parte a dar mais, ou tudo, por já saberem que Gales ganha à Rússia e por eles talvez ganharem um bilhete para casa com isso. Os defesas já passam a bola aos médios, mesmo com eles pressionados, arriscam, tem de ser. Quase compensa quando Smalling quer dar com o peito, para Joe Hart, a bola que Weiss cruza: mata-a em vez de a passar, ela fica à mercê na pequena área e Mak não lhe acerta (52′) quando tenta rematar.

England's defender Gary Cahill (C-L) vies for the header with Slovakia's defender Tomas Hubocan (C) and Slovakia's defender Martin Skrtel (C-R) during the Euro 2016 group B football match between Slovakia and England at the Geoffroy-Guichard stadium in Saint-Etienne on June 20, 2016. / AFP / Joe KLAMAR (Photo credit should read JOE KLAMAR/AFP/Getty Images)

Foto: JOE KLAMAR/AFP/Getty Images

Salvo um remate que Weiss ainda faz na área, pouco depois — para Hart defender na relva –, os eslovacos murcham. Os ingleses têm de florescer para acabarem a liderar o grupo e tentam. Ou seja, aceleram, fazem dos laterais uns extremos, que procuram com passes entre os defesas eslovacos. Sturridge encontra Clyne a sprintar e a rematar para o guarda-redes defender (53’) para canto sem saber como. Henderson pede a bola no espaço entre as linhas eslovacas e cruza-a para Delle Allia rematar na área. Não entra (61’) porque é cortada em cima da linha.

Jamie Vardy também não entra mais neste texto porque não aparece. Quanto mais os ingleses aceleram, apertam, levam o jogo aos laterais e põem seis opções de passe na frente, mais o jogo lhes fica difícil. Os eslovacos recuam, encostam-se cada vez mais à baliza, deixam de ficar com metros de relva nas costas, o espaço que Vardy gosta de ter à frente. Nenhum remate é perigoso na segunda parte. Nem Dier ou Rooney ou Alli o são quando chutam a bola à entrada da área no fim de jogadas com dezenas de passes, em que os ingleses não ligam médios e atacantes. Não há conexão, falta quem peça tabelas, toque e vá, peça a bola nas costas dos médios e se vire com ela de frente para os defesas.

O quarto 0-0 do Europeu aparece porque, às tantas, os ingleses não aceleram tanto por o empate servir tanto quanto uma vitória para os deixar no primeiro lugar. E um nulo dá para todos ficarem felizes, como o abraço conjunto dos eslovacos mostrou, quando o árbitro apitou — ficam com quatro pontos, que lhes chegam para serem um dos quatro melhores terceiros lugares que seguem na prova. E como este é um jogo sem golos, com pouco interesse apesar de a rapidez e a emoção o quererem disfarçar, mais vale acabar a falar do homem que adiou o casamento e uma operação ao pulso (que está partido e é sempre coberto por uma proteção) para estar aqui.

Só faltou acabar em festa e a festejar, como os adeptos, diz o cântico que os aficionados lhe inventaram. “Jamie’s having a party!” Mas devia, porque ele é um bem-agradecido e já está nos oitavos-de-final.